Entre suas asas

4 Posso saber o que VOCÊ está fazendo aqui?


Notas iniciais
Hello!

Era finalmente sábado. Fiquei praticamente o dia todo fora com Vee. Comemos hamburguer no McDonalds, vimos centenas de vitrines de lojas e experimentamos roupas até cansarmos.

Lá pelas 16:00 da tarde estacionei meu velho Fiat na entrada de carros de casa. Fechei a porta da garagem e subi lentamente os poucos degraus que levavam até a porta dos fundos. Ouvi a voz de mamãe vinda da sala, provavelmente conversando com Hugo, seu namorado-barra-chefe. Me arrastei pelos os corredores, passando pela a cozinha para pegar um pedaço de bolo. Sentei na cadeira e considerei a hipótese de subir diretamente para o meu quarto. Dei mais uma mordida no minha fatia achocolatada e mastiguei rapidamente.

Não é que eu não gostasse de Hugo, mas é que...papai ainda estava muito presente na minha memória, apesar de ter falecido há um ano e meio. Tinha consciência de que mamãe não podia parar no tempo, e que seu coração não ficaria vazio para sempre, mas mesmo assim...

Muito lentamente arrastei a cadeira para trás. Lambendo a ponta dos dedos para retirar o chocolate, me dirigi até a sala, a fim de cumprimentá-los e socializar um pouco antes de me isolar. Porém, não era Hugo quem estava sentado no sofá, parecendo extremamente à vontade e sorrindo amigavelmente para a minha mãe.

Tirei meu dedo indicador da boca e apontei para ele. Tenho certeza que meus olhos estavam arregalados e meu rosto corado.

–Patch, o que está fazendo aqui?- Meus olhos vagavam vacilantes entre ele e minha mãe.

–Nora, venha se sentar conosco- chamou mamãe.

Caminhando hesitante me sentei ao seu lado. Meu olhar fixo no de Patch diante de mim. Mamãe pousou uma das mãos finas na minha perna esquerda. Encarei Patch e arqueei as sobrancelhas, perguntando silenciosamente o que era aqui afinal de contas.

–Seu colega me contou que você marcou com ele aqui em casa pra fazerem um trabalho de matemática.

Voltei minha atenção para ela.

–O quê?

–Nora, nós precisamos de uma nota boa em matemática, você sabe- Cada palavra de Patch saia calmamente. Quando mamãe levantou-se para deixar a xícara de café em cima da mesa de centro, ele sorriu abertamente e me lançou uma piscadela.

–Patch me contou que a melhor nota dele é matemática. Você tirou a sorte grande em fazer dupla com ele, porque nós duas sabemos que você não é muito fã dessa dessa matéria, assim como eu- ela me deu um sorriso cúmplice.

Tirei a sorte grande? Sério?

Não esbocei nenhuma reação.

Ele estava forçando as coisas. Senti vontade de mandar ele ir embora, e pedir para mamãe nunca mais deixá-lo entrar. Que desaforo! Já não basta entrar sem permissão nos meus pensamentos, agora tinha que invadir minha residência também?

Ele havia dito a coisa certa, para a pessoa certa. Minha mãe era tão obcecada pelas as minhas notas quanto eu, e sabia da minha dificuldade nessa matéria maldita. Se eu simplesmente madasse Patch embora, o que diria para ela? Ele não me fizera mal algum (apesar de me sentir extremamente vúlneravel em sua presença). Sem sombras de duvidas ela ligaria para o colégio e verificaria a autenticidade desse trabalho.

–Sim, precisamos- disse entre os dentes.

–Querem um pedaço de bolo?- perguntou a minha mãe, passando as mãos uma na outra.

–Já comi- afirmei. Mamãe fitou-me com o cenho franzido, "Onde está a sua educação, Nora?" era o que sua expressão me dizia. Como me mantive quieta, ela olhou para Patch e sorriu um pouco sem graça.

–Você gostaria?

–Claro, adoro bolo de chocolate- falou casualmente, mas lançou-me um sorrisinho divertido que não entendi de imediato.

Observei enquanto ela dobrava o corredor e sumia entre as madeiras da casa. Fuzilei Patch com os olhos e cruzei os braços.

–Como sabe que o bolo é de chocolate? Andou entrando aqui e vasculhando a dispensa?- Indaguei. Para minha mãe isso talvez tivesse passado despercebido, mas não para mim. Claro que poderia se tratar simplesmente de uma suposição, mas quando se tratava dele, eu não duvidava. Patch levantou-se do outro sofá, e sentou-se no que eu me encontrava. Voltou seu corpo inteiro para meu, e não consegui deixar de achar extremamente agradável o calor que irradiava de sua pele.

Algo nele me incomodava profundamente. Muito rápido ele deslizou o dedo polegar no canto dos meus lábios, para depois colocá-lo dentro da boca por um instante. Pisquei várias vezes, sentindo o rubor me atingir com força.

–Por que você...

–Estava sujo de chocolate. -Interrompeu-me -e estava delicioso por sinal- o sorriso dele era quase pervertido e os olhos me atravessavam de um jeito nada cômodo. Antes que eu houvesse percebido alguma coisa, Patch afastou-se num piscar de olhos. Dois segundos depois, minha mãe chegou na sala trazendo um prato de cêramica azul (prato esse dedicado para visitas) com duas fatias de bolo.

Ela depisitou-o na mesinha de centro e ficou parada, nos observando.

Tinha como ser mais constrangedor que isso?

Quanto antes eu acabasse com aquilo, melhor.

–Mãe, vamos dar uma volta. Volto para a janta. — Murmurei apressada, me levantando e puxando Patch comigo pelo o braço. Mamãe resmugou alguma coisa sobre o bolo, mas não a dei tempo para que arranjasse uma desculpa e nos mantivesse dentro de casa, aos seus olhos cuidadosos e extremamente curiosos.

Do lado de fora não havia carro algum.

–Veio correndo, é?- Questionei-o com uma sobrancelha erguida.

Ele sorriu preguiçoso.

–Meu Jeep está atrás da casa.

–Por que?- Quis saber.

–Foi só pra poder ver a sua cara de espanto ao me encontrar conversando com a sua mãe. Queria te fazer uma surpresa.

HAHAHAHAHA. Estreitei os olhos.

–Vamos ir até o Parque Municipal e depois cada um pra sua casa, entendeu?

Patch bateu continencia.

–Sim, senhora.

O Jeep de Patch não me era reconfortante. Era alto, negro, luminoso e não me passava nenhum tipo de segurança, assim como o dono. De repente, mudei de ideia.

–Vamos no meu carro- falei.

–Por...?

–Por que sim, oras.

Ele riu suavemente.

–Você está gostando do nosso contato físico?- Indagou.

Franzi a testa.

–Qual a piadinha dessa vez?

Ele lançou um breve olhar para minha mão que ainda agarrava seu braço desde a hora em que saimos de casa e sorriu.

O soltei imediatamente.

–Você é um babaca- retruquei, mal-humurada.

No caminho para o Parque ficamos em silêncio. E eu pretendia me manter assim até voltar para a casa. Não estava a fim de conversar, muito menos com Patch. A área verde estava praticamente vazia, a não ser por mim e o meu Babaca Parceiro de Matemática, e uma família próximos à maior árvore central. Andamos lentamente até um dos bancos na beira do lago e nos sentamos. Uma brisa leve soprou alguns fios de cabelo que ousaram escapar do meu coque. Os ajeitei novamente, colocando alguns fios atrás da orelha e torcendo para que não saissem mais dali.

–Por quê não deixa seu cabelo solto?- Perguntou.

Dei de ombros.

–São muito rebeldes.- Tentei sorrir, mas a verdade era que aquilo era triste...

Ele me analisou pelo o que me pareceu um minuto inteiro, e tão rápido quanto quando limpou o canto da minha boca, ele retirou o elástico do meu cabelo.

O fitei com a boca aberta. Não, aberta não, estava era escancarada.

Que audácia! Que vergonha, Jesus!

Me irritei comigo mesma por me importar tanto com a minha aparência diante de Patch. Agarrei meu cabelo com a mão, fazendo dele um rabicó.

–Você fica tão bonita de cabelo solto, Nora. Parece uma leoa pronta pra atacar. — Ele puxou delicadamente a minha mão, e eu não o impedi. Não o impedi porque estava lisonejada, apesar de meio que duvidar de suas palavras. O vento soprou novamente, puxando os fios cacheados para trás. Se ele ainda não havia se armado, com toda a certeza se armara agora.

Ele deu O Sorriso.

–Que sexy, Nora, vai acabar me seduzindo assim- balbuciou.

Eu corei e abaixei a cabeça para que ele não pudesse notar o sorriso que queria surgir no meu rosto.

–Não te dei permissão pra mexer em mim- murmurei, puxando meu cabelo todo para o lado.

–Não quer mais que eu encoste em você?- Ele perguntou. Apesar de não estar olhando para ele, sua voz me dizia que ele estava sorrindo.

–Não.

–Jura?

O fitei de lado.

–Não.

–Então não vou. A próxima vez vai ser você que vai ter que pedir.

Sorriu presunçoso.

–Nem morta- falei.

Ele não falou nada, apenas me observou por algum tempo antes de voltar a falar.

–Você não é completamente parecida com a sua mãe.

Dei de ombros e ele continuou:

–Tem mais coisas do seu pai?

Pensei por um instante antes de respondê-lo.

–Os lábios grossos...e o cabelo indomável. E talvez a curiosidade intensa. Minha mãe é mais na dela, meu pai gostava de desbravar o mundo...tinha curiosidade quanto a tudo, e acho que sou assim também.- Ergui levemente um ombro, sorrindo ao fitar o longe. Lembrando-me de papai, alguma coisa dentro do meu coração se remexeu. E doeu.

–Vocês são muito amigos?- Quis saber. Me perguntei por qual motivo ele estava tão interessado na minha família. Meu senso de auto-preservação gritou para que eu falasse o mínimo possível.

–Muito. Ele contava tudo pra mim, tudo mesmo. E eu pra ele.

–Não o vi na sua casa hoje.

Patch mantinha os olhos fixos em mim, e concluí que queria uma resposta.

Suspirei.

–Meu pai morreu.

Pausa.

–Sinto muito.

Sorri mecanicamente. Já havia me acostumado com as pessoas dizendo que sentem muito. Mas a verdade, é que essa é uma dor inimaginável. Mesmo que alguém queira se colocar no meu lugar, ou no lugar de minha mãe, não consiguiria sentir a mesma coisa, não exatamente até que o mesmo acontecesse com ela.

–Aham.

–Nora, você está chorando?

Patch parecia surpreso e incomodado.

Pigarreei.

–Não! Claro que não! -Disse, me levantando.- E quero ir embora, não precisamos nos encontrar nos fins de semana.

Pela a primeira vez desde que o conhecera Patch ele não disse nada. Nem uma piadadinha. Nem um sorriso arrogante. Nada. Parecia frustrado com alguma coisa, e não parecia confortável ao ver as lágrimas de outra pessoa.

Caminhei na sua frente, secando o rosto com a manga da camisa.

Voltamos para casa, novamente sem pronunciar nenhuma palavra. A moto de Hugo estava enconstada na lateral do casarão. Franzi os lábios.

–Não gosta da visita que chegou?- Chutou ele.

Afirmei com a cabeça.

–É o novo namorado da minha mãe.

–Não gosta dele- afirmou.

Dei de ombros.

–Não gosto e nem desgosto- falei ao abrir a porta do carro e sair. Patch me acompanhou, pegando as chaves do Jeep de dentro do bolso da sua calça jeans.

Sai correndo para a sacada, começava a cair uma chuva fina e fria. Antes de abrir a porta e entrar, olhei para trás só para confirmar que Patch ainda estava ali, me olhando atento.

–Até segunda-feira- falei, parecendo mais insegura do que eu gostaria.

No seu rosto, um sorriso mal comportado apareceu.

–Eu mal posso esperar.


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Depois de jantar e ouvir mamãe e Hugo conversando sobre a interminável propriedades que ele havia acomulado ao decorrer dos anos, do banho e de repassar o meu dia de hoje mentalmente (em especial a parte em que me encontrara com Patch) me concentrei na folha de papel diante de mim.

Eu não me sentia confortável na presença de Patch. E eu não confiava em Patch.

Não confiava porque ele não me inspirava segurança, e porque perto dele eu parecia um livro aberto. Não queria ser lida, mas ele se esforçava muito para tentar entender os garranchos e palavras confusas que habitavam dentro de mim.

Lembrei-me do primeiro dia de aula, quando o professor Nathanael ensinou a turma a montar um gráfico. Após 20 minutos de dificuldade, o montei.

Resumidamente, e sem a imagem do gráfico, ficou assim:

Primeiro dia

Confiável: Nota 0

Confortavel: Nota 1

Não conseguia imaginar a nossa relação evoluindo mais do que está no gráfico agora. E algo me dizia que era melhor assim.

Notas finais
Bye!