Entre suas asas

24 Caroline Forbes e a minha adaptação (?)


Ao despertar permaneci com os olhos fechados, paralisada. Não precisava abrir os olhos para saber que estava em cima da minha velha cama, o que quer dizer que estava no meu quarto. Soltei um suspiro baixo, mas que soou alto para os meus ouvidos. Deslizei as mãos pelo o lençol e cravei as unhas no colchão.

Eu sabia que havia bebido o sangue de Vee, mas não lembro de nada depois disso, o que me apavorava mais do que estar na condição em que me encontrava. Uma vampira. Me sentia mais controlada emocionalmente, mas minha emoções estava pesadas, misturadas. Passei a língua pelos meus lábios secos, escutando o som de vozes no andar de baixo.

–Como você acha que ela vai reagir? — A voz de Vee perguntou para alguém. Sua respiração estava forte demais para me dar a impressão de que estava calma.

Alguém tossiu.

–Acredito que... — Bonnie começou a dizer, mas logo fora cortada por Patch.

–Você não a deixou escolher, como acha que ela está? — Ele se esforçou para manter a voz baixa, mas estava evidente que queria arrancar a cabeça dela.

Houve alguns segundos de silêncio. Minha respiração foi se tranquilizando a medida que ouvia a voz de Vee ecoando em meus ouvidos. Ao menos, não tinha feito minha primeira vitíma...ainda.

Não me perdoaria jamais se a tivesse matado ou ferido.

–Eu não podia perder Nora — sussurrou. Não sabia como estava a sua expressão, mas se tivesse que chutar diria que seu nariz estava levantado para dar a entender que isso era mais do que uma bela justificativa.

Patch grunhiu mas não falou mais nada. Decidi me desligar daquilo, não queria escutar ninguém descutindo por minha causa hoje. Então procurei pensar em minha situação, em como me sentia forte, muito o contrário de antes. Minha garganta não queimava, mas tampouco estava intacta, pois um leve ardor me deixava ciente de que nunca estaria satisfeita completamente. Estremeci.

Entre todos os sentimentos que se prendiam a mim, o medo era o mais impactante. Minha mente parecia que estava mil vezes mais espaçosa, como se eu tivesse a capacidade de focar minha atenção em mil pensamentos diferentes ao mesmo tempo. Isso poderia ser tanto ótimo, quanto péssimo. Respirei profundamente, algo tão normal e que estranhamente me fazia sentir viva...como sempre fez.

Era estranho, muito estranho. Ao mesmo tempo em que sabia que era a Nora Grey, me sentia completamente diferente.

Apertei meus olhos e então os abri, e foi assustador e mágico na mesma proporção. Cada mínimo detalhe não me escapava, a poeira, as rachaduras, eu era capaz de focar em tudo. O forro do meu quarto era mais manchado e velho do que eu tinha percebido. Esperei alguns segundos antes de me mover.

Eu piscava várias vezes, como só assim fosse mudar alguma coisa. Quando finalmente tive coragem de levantar, me dirigi até o grande espelho que ficava próximo ao roupeiro. A menina que estava diante de mim era eu, sem dúvidas. Mas tinha algo de diferente, um brilho, uma sagacidade em seus olhos e, definitivamente, não esperava me ver sorrindo.

Fechei a boca de imediato, então me dei conta do que tudo aquilo realmente significava. Eu, Nora, era uma vampira. Me sentia forte, invencível para dizer a verdade, e com meus defeitos e qualidades ampliadas em um nível absurdo.

Era uma sugadora que viveria em prol de sangue. Sabia disso porque, mesmo não estando com a garganta doendo, e mesmo com o fato de que o que sentia agora não chegasse nem a 1 por cento do que sentia antes da transformação, eu desejava mais. Uma parte da minha mente revivia a sensação do líquido enquanto descia pela a minha garganta, o formigamento agradável nos meus músculos, e a vontade de não parar nunca mais.

Pisquei várias vezes novamente, mas dessa vez para espantar as lágrimas que desciam calmamente pelo o meu rosto vistoso. Deslizei as mãos pelos meus cabelos macios e cacheados, lembrando-me de que minha vida nunca mais seria como era antes e isso doeu muito. Por mais que houvesse muitas vantagens em estar do lado de cá do conto de fadas ao avesso, ainda preferiria mil vezes ser humana e normal.

Ter filhos, envelhecer e morrer.

Pus a mão sobre o peito, sentindo meu coração batendo contra meus dedos e, sem pensar muito, deixei com que ela escorregasse até minha barriga lisinha onde, jamais, poderia abrigar outra vida. Esse era um ponto que ainda não tinha pensado, mas agora que pensara...era horrível a sensação.

Claro que sabia que Patch não poderia ter filhos comigo, mesmo se ainda fosse humana...mas sempre houve uma parte minha, um pouco infantil talvez, que acreditava que isso um dia fosse possível, por que não?

Engoli em seco e fechei os olhos por um instante, eu estava desorientada, confusa, com sede, com anseios que decidi não tentar decifrar agora. Vamos deixar para conhecer o meu novo lado quando eu me sentisse melhor comigo mesma.

Assenti para o meu reflexo. Ouvia as vozes do pessoal lá embaixo e acabei decidindo me juntar ao grupo. Enquanto descia as escadas, percebi que até a forma como eu andava estava diferente, era firme, porém graciosa. Quase achei graça disso, sempre andei como se estivesse prestes a tropeçar nos próprios pés. Será que eu ainda reconheceria alguma parte intacta de mim mesma? Tal qual como era antes?

Temi com um aperto no coração que a resposta fosse negativa. Quando finalmente entrei na sala, todos ficaram mudos.

Primeiro foquei em Vee, e o engraçado era que eu via uma expressão envergonhada em seu rosto, o que era raro. Sorri para dar a entender que já estava feito, e que eu ficaria bem.

Bonnie que segurava uma xícara nas mãos me olhou dentro dos olhos, que brilhavam de expectativa, me dando a impressão de que ela sabia mais sobre o que aconteceria comigo do que eu mesma.

E, finalmente, Patch. Demorei para fitá-lo, estava sem jeito. Será que ele iria me rejeitar por eu ter me tornado aquilo que ele detesta?

Como se tivesse escutado meus pensamentos, ele encurtou o espaço entre nós e me beijou de tal maneira, que meu coração explodiu com sensações aterradoras e incriveis. Sua mão pressionava minha nuca, e eu também não tive medo de apertá-lo contra mim, sabia que não o machucaria. Sua boca desceu pelo meu pescoço, mordiscando aqui e ali, me fazendo inclinar a cabeça para trás e soltar um gemido alto.

Quando voltei à consciência, Patch estava sorrindo, Bonnie tapando a boca para não rir e Vee me fitava com uma risadinha maliciosa nos lábios.

Eu fiquei muito, muito vermelha. O que tinha me dado? Será que tinha perdido até o bom senso? Se não fosse a risada de Vee, eu já estaria quase pelando Patch, com certeza.

Mas o que eu podia fazer? Os desejos que agora arrumavam lugar dentro de mim sempre bloqueavam minha razão e eu só conseguia pensar naquilo que estava fazendo, em nada mais.

Ajeitei os cabelos e pigarreei.

–Então...estou com fome. — Murmurei, enquanto rumava para a cozinha. Não esperei ninguém dizer nada, apenas virei as costas e fui. Abri a geladeira em busca de algo pronto, e encontrei um pedaço de lasanha que sabe-se lá quanto tempo estava por ali. Apertei três minutos no micro-ondas e me escorei na pia com os braços cruzados, enquanto meus amigos adentravam o local com os olhos cautelosos. Vee foi a última a entrar.

Ficamos em silêncio até que o som alto apitou e eu, sem querer, acabei quebrando um prato enquanto pegava-o de dentro do armário aereo. Inspirei devagar e soltei o ar todo de uma vez. Passei as mãos pela a minha camisola, secando o suor. Era estranho eles ficarem me observando daquela maneira, como se a qualquer momento eu fosse atacar alguém ou me suicidar. Argh. Na segunda vez consegui pegar o prato com todo o cuidado e então depositei a lasanha nele, tão concentrada no aroma que saía dali que senti meu estômago roncar.

Porém, assim que me sentei à mesa e terminei a quarta garfada, a fome tinha ido embora. Minha garganta queimava e o cheiro de Bonnie e Vee eram maravilhosos e tentadores.

Tossi para limpar a garganta.

–Como você está? — Perguntou Bonnie, sem conseguir esconder a curiosidade da voz e do rosto.

Dei de ombros.

–Vou ficar bem- murmurei, olhando para minhas unhas sem esmalte.

Quando ergui o olhar, Patch e Bonnie trocavam olhares cheios de significados.

Patch levantou-se e desapareceu por alguns instantes, sem me dar tempo de perguntar para onde ia.

–Fico tão feliz em saber que você está aqui, Nora!- Exclamou Vee, de repente. Seus olhos brilhavam tanto que pareciam duas estrelas, então ela me abraçou forte e o breve sentimento de conforto que senti foi substituido pela vontade de sentir seu sangue quente novamente na minha língua. Me afastei tão rápido que acabei batendo contra a parede e caindo no chão. O choque não me machucou tanto.

–Não chegue perto dela por enquanto, Vee — murmurou Bonnie, ao revirar seus olhos cor de mel.

Vee franziu os lábios.

–Ela disse que estava bem!

Bonnie lhe lançou um olhar exasperado.

–Como cheguei aqui tão rápido? — Perguntei para mim mesma em um sussurro, ignorando a pequena discussão que ocorria ali.

–Você tem habilidades agora — respondeu Bonnie, com um pequeno sorriso nos lábios.

Assenti com um breve balançar de cabeça e me ergui, concentrando-me para fazer o movimento como uma humana, mesmo que eu não fosse mais.

Já ficava com preguiça só de me imaginar a todo momento me controlando para não fazer nenhum movimento brusco. Me entristeci com isso também.

Patch entrou na cozinha novamente, sorrindo de um jeito meio forçado. Em suas mãos estavam quatro bolsas de sangue. O cheiro não era nem de longe tão gostoso quanto quando era fresco, mas devia servir. Me aproximei dele calmamente e peguei as bolsas um pouco bruscamente, minhas mãos tremiam.

–Obrigada — falei baixinho. Furei o primeiro saco com os dentes e bebi aquilo tão rápido, e tão ferozmente que devia ter me envergonhado de fazer aquilo na frente deles, mas não conseguia parar de beber. Os 4 sacos que me trouxe acabaram em menos de 2 minutos.

Quando acabei, limpei a boca com as costas da mão. Aquele sangue não erão tão gostoso, não aplacou 100 da dorzinha da minha garganta, mas com certeza me fez sentir mais forte.

–Obrigada- disse novamente, com um suspiro.

Não tive coragem de erguer o olhar, tinha certeza que todos estavam me olhando com piedade, com cara de nojo...ou medo. Não podia culpá-los, não quando eu sentia o mesmo.

Quando o silêncio se prolongou mais do que eu gostaria, abri a boca para dizer algo.

–E minha mãe?- Quis saber, finalmente contemplando-os.

Vee sorriu para mim, mas vi que hesitou em se aproximar, assim como Bonnie. Aquilo me machucou um pouco....mas tudo bem, eu era uma vampira recente, e ainda não sabia me controlar. Um dia tudo ficaria ok.

–Patch colocou em sua mente que viajar de férias com Hugo até Nova Iorque seria uma ótima ideia. Você tem duas semanas para se acostumar com a sua...er...nova condição de vida- os olhos de Bonnie me olharam de um jeito que tive a sensação de que sabia muito bem pelo o que eu estava passando.

Tentei abrir um sorrisinho amarelo.

–Duas semanas...ok.- Concordei, me perguntando se seria tempo o suficiente para eu não acabar matando minha próprima mãe.

Um arrepio varreu meu corpo.

–Você está maravilhosa, Nora — disse Vee, com certeza querendo fazer com que eu me sentisse melhor. Tentei abrir um sorriso mais autentico, mas não respondi.

O som da compainha soou alto e eu pus as mãos nos ouvidos, tentando abafar o som. Grunhi baixinho, me controlando para não arrancá-la fora.

Bonnie fitou em direção a porta, então levantou-se e seguiu até lá, fazendo um sinal para que esperassemos na cozinha. Pouco tempo depois, uma moça de uns 22 anos entrou. Seu salto altíssimo agulha e seus cabelos tão louros que pareciam brancos eram ondulados. Magra, de pernas longas e pele pálida. Incriveis olhos enormes e azuis. Olhei para Patch só para ver se ele esboçava alguma reação, se também a tinha achado linda, mas, como sempre, sua expressão era uma incógnita.

Seu sorriso ampliou-se ao repousar em cima de mim, depois foi educada e sorriu para o restante do pessoal.

–Oi, gente!- Cumprimentou animada. Sua voz era alta, doce...e firme.

Só para ter certeza, olhei para Vee que acabara de cruzar os braços, franzindo o cenho com desdém. Sorri um pouquinho. Claro que ela não gostara da garota, se eu me senti acoada com a presença dela, imagina Vee que sempre precisou ser a protagonista de tudo.

–Quem é você?- Perguntou Vee, seus olhos cravados na outra loura.

–Caroline Forbes — seu sorriso não diminuiu por conta da quase visível hostilidade da minha amiga. Seus olhos vieram de encontro ao meu mais uma vez, então estendeu a mão para mim.- Vim ajudar Nora na sua adaptação.

Fiquei confusa e chocada, mas peguei sua mão, dando um breve balançar e soltando em seguida.

Ficou óbvio que ela esperava uma reação diferente, então seu sorriso esmaeceu um pouco. Alisou seu vestido rosa e de corte reto, olhando para Bonnie com uma sobracelha erguida.

Bonnie suspirou.

–Ela é minha amiga. — Ela fitou Patch.- Ele me convencer a chamá-la.

Caroline se voltou para todos nós e passou uma mão na outra, ansiosa.

–Let's go, garota?

Seja o que Deus quiser.