Entre suas asas

25 Acertos e Fracassos


–Nora, você consegue ver aquela árvore com um buraco no meio? — Me perguntou Caroline. Estreito meus olhos e forço minha vista para enxergar. Solto uma risadinha animada.

–Aquela do outro extremo da floresta? — Fui incapaz de esconder o orgulho de ter conseguido ver. Caroline abre um sorriso entusiasmado, batendo palmas e dando pulinhos.

–Exatamente! Quero que você corra até lá e volte em...- ela dá uma olhada em seu relógio dourado de pulso, seus olhos azuis agora me analisam com um ar desafiador. — 1 minuto. No máximo.

Inconscientemente, dou um passo para trás. Meu sorriso esmaeceu um pouco.

–Impossível! Você já me viu correndo? É ridículo!

Caroline põe as mãos em meus ombros e fixa seus olhos nos meus.

–Nora, você não é mais como antes. Você consegue.

Sinto meu estômago se contorcer todo com essas palavras. Assinto com a cabeça, eu tinha que começar a me acostumar...cedo ou tarde. Senti vontade de chorar e...cara, eu não aguentava mais ser tão chorona!

–Ta certo. Mas como eu ativo isso? — Indago com as mãos na cintura.

Caroline arqueia as sobrancelhas.

–Isso o quê?

Agito o ar ccom as mãos, minha face levemente corada.

–Essa coisa de poderes de vampiros e tal...

Ela começa a rir, mas quando percebe que falei sério ela acaba por se conter.

–Você não precisa ativar nada. É só correr e querer chegar lá.

–OK. Correr. Chegar lá. Sem problemas. — Digo com convicção, olhando diretamente para o foco de meu objetivo. Começo a dar pulos para me aquecer. Eu corria com certa frequência, mesmo sendo descoordenada, conseguia fazer um bom trabalho. Caroline pegou seu celular e colocou o cronômetro diante do meu rosto. Assim que ela apertou o start, sua voz soou em meus ouvidos:

–Agora!

E eu fui. Correndo enlouquecidamente, e quase de forma instantânea meus pés começaram a se mover de forma absurda. Imediatamente senti medo em bater em alguma árvore, tropeçar em alguma pedra, mas logo uma onda de alívio a admiração pairou em volta de mim. Eu conseguia prestar atenção em tudo o que tinha na minha frente e ao redor, tudo mesmo! Meus pés pareciam que mal tocavam no chão, e eu desviava sem dificuldade nenhuma, parecia que eu corria em velocidade normal, mas era exatamente o contrário!

Chego do outro lado completamente alheia ao horário. Me concentro em ouvir as batidas do meu coração.

Tum tum tum.

Ele estava calmo, nada acelerado. Como se eu não tivesse acabado de correr em uma velocidade sobrehumana! Era pra eu estar ofegante, mas minha respiração estava intacta. Verifiquei isso em menos de dois segundos, logo minhas pernas estavam correndo a mil pelo o campo cheio de obstáculos da floresta, mas que mal me incomodavam. Tentei forçar meus músculos para que se movessem o máximo que era possível, queria testar minha capacidade com além do básico. Quando estava prestes a chegar de onde tinha partido, prestei atenção em Caroline. Ela estava escorada em um tronco de árvore e seu sorriso era do tamanho do seu rosto praticamente! Acabei sorrindo também.

–Eai, fui bem? — Pergunto, surpresa que minha voz tenha saído sem nenhuma alteração sequer. Caroline parece animada, seus olhos brilhando de alegria.

–Você foi ótima!

–Sério? Consegui ir e voltar em um minuto?

–Não, foi 3 minutos e meio, mas para uma recém criada, foi incrível.

Franzi a testa e não respondi nada, ela olha para os lados e tentar me animar com um empurrãozinho no ombro.

–Com o tempo você vai perceber melhor seus limites e potenciais, não se preocupe!

–Tudo bem.

Ela abriu a bolsa que trouxera consigo e vasculhou lá dentro, retirando dois sacos plásticos com sangue

O gelo os mantivera saudável, e assim que os vi quase puxei das mãos dela. Caroline arregalou os olhos por um instante e começou a rir.

–Calma!!

–Desculpe. — Balbucio toda constrangida.

–Vamos brindar a sua nnova vida!!

Erguemos as bolsas de sangue e encostados uma na outra. Observei enquanto ela degustava o líquido ferroso, e me perguntei se eu também tinha aquela expressão no rosto...como se estivesse no céu.

Bebi o meu tão rápido que me arrependi. Queria te aproveitado mais o sabor.

Passamos mais da metade do dia testando a minha força. Perdi as contas de quantas árvores e pedras tive que golpear, esmagar ou qualquer coisa do tipo. Acho que me sai bem, até. Agora estávamos sentadas uma de frente para a outra, ela estava tentando me fazer ficar concentrada em algo específico ou manter a cabeça 'vazia'. Acabei bufando e abri um dos olhos para fita-la. Sua expressão estava serena, então me surpreendi quando ela falou:

–Se concentre, Nora.

Putz, mas era difícil, juro que tentei! So esperava conseguir algum dia ser tão controlada como ela! A todo momento a imagem de Patch aparecia em minha cabeça. Ontem a noite ele ficou na cama comigo até tarde para me reconfortar, mas não falou muito. Eu, covarde como só, não fui capaz de perguntar para ele como se sentia quanto a minha nova situação. Pretendia conversar com ele hoje pela a manhã, mas Caroline me arrastou para fora da cama e não eram nem 6 horas ainda, mas...mesmo assim, ele tinha saído antes disso para pesquisar algo com Bonnie. Era domingo e no outro dia teria aula. Estremeci só de pensar em estar em um lugar cheio de gente com sangue quente nas veias.

Tive que evitar até mesmo Bonnie e Vee, já que o cheiro delas me abria o apetite. Vee era nefilim, era mais fácil de me conter...mas Bonnie tinha o cheiro muito bom! Falando nela, mesmo correndo o risco de ser atacada por uma vampira perigosa em potencial, foi até meu quarto antes de Patch chegar. Me contou que sabia mais ou menos como era sentir-se fora de sintonia, que quando seus poderes começaram a ficar incontroláveis, teve que se isolar por um tempo até poder controla-los, e este relato foi importante pra mim, depois disso acho que não ficamos melhores amigas, mas com certeza agora havia um laço firme e resistente nos unindo.

Depois de quase morrer de tédio e não ter evolução nenhuma, Caroline me levou até um posto de ggasolina. Olhei para ela com os olhos aflitos.

–Não vou conseguir — choraminguei.

Ela me da um abraço forte e sorri.

–Você e mais forte do que pensa.

Volta e meia algum motorista parava e descia, e o cheiro de sangue e suor salgado invadiam minhas narinas, fazendo com que aquela ardência no fundo da garganta começasse a queimar de novo.

–Vou te mostrar uma coisa muito legal. — Diz ela, ajeitando o vestido preto e indo em direção a um caminhoneiro que acabara de chegar. Alguns segundos depois, ambos surgem diante de mim.

–Ele vai nos ajudar hoje. — Caroline se vira para o homem e se fixa em seu rosto. -Você vai ser obediente a mim e a minha amiga Nora, nao vai se mexer ou falar nada sem que seja perguntado por nos, certo?

–Sim — responde.

Caroline abre um sorriso de orelha a orelha.

–OK. Qual seu nome mesmo?

–Charlie.

Ela assente com a cabeca e se vira para mim.

–Você vai hipotiza-lo.

Ergo as sobrancelhas e dou um passo em falso.

–Não sei se consigo.

–E fácil e divertido, você vai ver. É olhar no fundo dos olhos dele e dar alguma ordem.

Respiro fundo várias vezes, deslizo minhas mãos pela traseira da minha calça jeans (apenas por costume mesmo, como fazia isso sempre quando era humana. Agora não suo mais, mas o hábito permaneceu).

–Dê três pulinhos. — Digo.

Ele apenas pisca e fica me encarando com uma expressão de paisagem. dou uma olhadela frustrada para Caroline.

–Nora, você precisa acreditar no que está fazendo. Você tem que acreditar em suas novas potencialidades. Tente de novo.

–Charlie, de três pulos. Agora. -Tento de novo.

Charlie da um, dois e, no terceiro pulo, seu pé é cortado por um prego que estava no asfalto. O cheiro de ferrugem delicioso faz com que minha língua comece a salivar freneticamente.

–Caroline! — Grito, olhando horrorizada para o homem, o cheiro fica cada vez mais forte e, quando olho para o chão, o sangue começava a se alastrar. Fui impelida por um impulso tão forte que não tive como me controlar. Segurei Charlie pelo os ombros e cravei meus caninos em sua veia que pulsava de um jeito tão forte e vivo, que só podia estar querendo me provocar. O sangue começou a descer pela a minha garganta, aplacando o fogo e causando formigamentos prazerosos em mim.

Ainda sim, uma parte de minha mente se ateve ao terror que sentia bem no fundo, por baixo de toda a adrenalina e excitação. Olho para Caroline com a súplica eestampada mas, apesar dela aparentar estar preocupada, balança sua cabeça em negativa lentamente.

–Solte ele, Nora. Sei que você consegue. Não posso fazer isso por você. Precisa aprender a se controlar de uma forma ou de outra. — Sua voz era fria, como lâmina afiada.

Juro que tentei me desvencilhar do corpo de Charlie, mas eu não conseguia. A cada gota meu corpo ansiava por mais e mais e mais. Apertei ele mais contra mim e afundei mmais em seu pescoço vistoso.

–Você nunca irá se esquecer. Será que ele tem filhos? Sera que ele tem uma esposa que o está esperando para o jantar? Se mata-lo, levará a família junto com ele. — Continuou.

Afasto ele com as mãos, mas minha boca teimava em permanecer grudada em seu pescoço. Meu peito doida, confuso. Eu queria acabar com aquilo, mas se fizesse o mataria.

–Nora!! — Gritou Caroline, quando corpo dele começava a eenfraquecer no meu colo. Apavorada, empurro Charlie tão forte que ele cai no chão. Olho para o sangue em sua camisa e sinto repulsa por mim mesma. Quando corro em direção a casa de fazenda, ouço a voz de Caroline me chamando, mas eu estava arrasada demais e constrangida demais para recuar.

Enquanto me afastava, escuto Caroline pedindo para que Charlie esquecesse de tudo o que havia acontecido ali.

Naquele exato momento, preferiria mil vezes ter morrido.