Entre rascunhos e...
2 Quando o sino toca
Santa Esperança era uma cidade pacata, nas margens do Rio Paraná, que se desenvolveu com a agricultura. Os poucos habitantes que ainda moravam por lá eram tranquilos, menos nas noites do dia 12 de julho.
Naquela noite específica, os rapazes eram trancados dentro de suas casas, com uma fileira de sal nos batentes das janelas e portas. Nenhum jovem solteiro era permitido sair de casa.
Gustavo achava isso uma bizarrice sem tamanho. Seus avós diziam ser por causa da jovem Iracema, uma garota que, no início da construção da cidade, se jogou no rio, com roupa de noiva e tudo, após descobrir que seu amor a havia abandonado no altar.
Ele não acreditava nisso e estava disposto a provar que seus avós e todas as pessoas daquela cidade eram doidos. Assim que ele foi colocado para dentro com o sal nos batentes e a porta passada a chave, ele abriu a janela e pulou.
A noite era fria, nenhuma alma estava na rua. Vendo estar completamente sozinho, ele foi para o cemitério da igreja da cidade, local que era normalmente usado pelos mais jovens para esconder as cachaças que roubavam dos pais.
Assim que se aproximou do portão, sentiu um arrepio passar pelas suas costas ao mesmo tempo que começou a ouvir um choro distante, seu coração se quebrou com a fragilidade daqueles lamentos. Intrigado, caminhou em direção ao som.
A cada passo que dava para dentro, o choro tornava-se mais claro, e Gustavo parecia conseguir ouvir também seu próprio coração. Ele parou por um momento, tentando enxergar através da escuridão, quando notou algo se movendo entre os túmulos: uma figura de branco, com um longo véu sobre o rosto. Ela caminhava lentamente, e o choro que ele ouvira vinha dela.
Seu coração errou uma batida, e ele tentou dar um passo para trás, mas acabou trombando na lápide, fazendo um barulho alto. A mulher ergueu o rosto lentamente e, através do véu, Gustavo viu olhos escuros, profundos, cheios de tristeza... e raiva.
— Por que me abandonou?
Gustavo sentiu uma onda de desespero invadi-lo, como se aquele lamento fosse um peso que caía sobre seus ombros. Ele queria responder, dizer que ele não era o noivo que a abandonou, mas as palavras não saíam. Ele então percebeu que, para Iracema, qualquer jovem solitário naquela noite era o culpado, era o homem que a deixara esperando no altar.
Antes que ele pudesse falar, o sino da igreja soou à meia-noite, reverberando pelo cemitério. Iracema apareceu ao seu lado, segurando com força seus braços, sem olhar para ele. Ele sentiu o toque morto, gélido, como se arranhasse sua pele por dentro, e Iracema, como se estivesse hipnotizada pelo som, começou a caminhar em direção à igreja, sem opção, Gustavo a seguiu.
— Já chegou nossa hora.
No dia seguinte, quando os primeiros raios de sol banharam a cidade pacata, os avós de Gustavo foram os primeiros a notar sua ausência. Procuraram-no pela casa, pelas ruas, chamaram os vizinhos, mas ninguém havia visto o garoto desde a noite anterior.
Foi apenas ao entardecer, quando um grupo de moradores se aproximou do cemitério, que encontraram algo perturbador perto do portão da igreja: os sapatos de Gustavo, perfeitamente alinhados, voltados para dentro, como se ele tivesse acabado de tirá-los antes de entrar.
***
Quando abre os olhos, a primeira coisa que Gustavo percebe é que está com os pés descalços. Em seguida, ele olha em volta: uma sala branca, sem mobília, e apenas ele no centro.
Ele fica em pé rapidamente, tentando entender como saiu do cemitério, com Iracema segurando seus braços para aquela sala estéril.
— Eu sinto muito ter te trazido para cá. — Ele gira o corpo, percebendo agora a jovem mulher de vestido branco se levantando. Ela tira o véu do rosto, e Gustavo consegue finalmente ver que ela, na verdade, é bem bonita. — Quando estou no mundo dos vivos, não tenho muito controle das minhas ações.
O jovem para de andar.
— O que quer dizer com mundo dos vivos?
Ela pende a cabeça para o lado direito, franzindo a testa.
— Não é óbvio o que aconteceu? — Ele nega. Iracema solta um suspiro, como se aquilo a enfadasse. — Você está morto.
As paredes da sala começam a derreter à medida que o garoto olha em volta. Seu coração deveria acelerar, sua respiração deveria ficar irregular, mas simplesmente nada acontece. Ele cai no chão, tentando entender como aconteceu.
Uma campainha soa e faz com que o rapaz levante a cabeça. Iracema está parada ao lado de uma porta que não estava ali antes.
— Chegou a hora dele analisar para onde você vai. — Ela estende a mão, ajudando-o a levantar. — É melhor irmos, ele não gosta de ficar esperando.
Gustavo, dando a mão para sua assassina, caminha para fora da sala.
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