Entre rascunhos e...
3 A Casa Azul
Eduardo observava o quadro da casa da vó, uma casa azul em meio ao pasto verde com animais pastando e um céu mais azul ainda. A vó tinha aquela pintura desde que ele era pequeno.
Mas sempre existia um detalhe que o incomodava, em todo aquele cenário alegre, existe uma pequena parte sombria, uma pedra que parecia um corpo deitado.
— Qual é a sua fascinação por essa pintura, menino? — Sua vó Vitória pergunta, vindo da cozinha com um pano no ombro.
— Ela sempre esteve aí, vó?
A velha senhora concorda com a cabeça, parando ao lado dele com as mãos na cintura.
— Desde que seu vô desapareceu. Eu comprei de manhã, ele brigou dizendo que tinha odiado e quando voltei do serviço à noite, ele já tinha sumido.
Ela falava como se fosse um fato banal, como se pessoas desaparecessem todos os dias por causa de quadros feios. Eduardo franziu a testa, encarando a pintura.
— Agora vamos dormir, que já tá tarde e temos que acordar cedo.
Eduardo até tentou cumprir a ordem da vó depois que ela apagou a luz, mas ele se revirava no sofá da sala, o cobertor até o queixo, mas os olhos voltados para a parede.
Para o quadro.
A luz do abajur da cozinha mal alcançava a pintura, mesmo assim, ele podia jurar que o céu ali dentro estava mais azul. Ele se levantou, determinado a tirar aquele quadro do lugar, ele já não gostava dele antes, com a vó dizendo que era culpado pelo sumiço do seu vô.
Mas, assim que se aproximou, ele pode jurar que algo no fundo do quadro parecia se mover. Um borrão. Um tremor.
O som veio depois: um mugido distante, abafado, como se viesse do fim de um túnel. Então outro. E depois… vento. Um vento que ninguém mais sentia, mas que arrepiou os braços de Eduardo.
— Isso é loucura — sussurrou.
Mas a casa azul parecia chamá-lo.
Ele encostou a ponta dos dedos na moldura. A madeira estava fria. E o vidro... não havia vidro. Só ar. Um ar espesso e morno que parecia puxá-lo para dentro, no início é suave, mas, assim que o jovem tenta tirar os dedos, é como se mãos geladas e molhadas o agarrassem, puxando-o com força;
Eduardo tenta se puxar de volta, apoiando a mão na parede, mas seus dedos deslizam e ele caiu.
Não tropeçou. Não escorregou. Ele caiu.
O impacto foi suave. Grama fofa sob os joelhos. O cheiro de terra molhada. O sol acima de sua cabeça. Um céu azul demais, poucas nuvens. Os pássaros cantando.
Eduardo se levantou devagar. Estava no campo do quadro. Cada detalhe era igual: o pasto, as ovelhas, a cerca torta pelo meio. Até o barulho das cigarras que ele sempre imaginou que teria estava ali.
A casa azul se erguia à frente, com suas janelas abertas e cortinas brancas balançando.
— Eduardo! — chamou uma voz grave, familiar.
Ele virou e viu o avô, ou pelo menos uma versão jovem dele, de como eram suas lembranças. Aquilo o faz sentir um arrepio no corpo
— Vô?
O velho acenou, como se tivessem se visto ontem e Eduardo começou a se aproximar.
— Que bom que veio, menino. Aqui é bem mais tranquilo.
Assim que se aproximou, viu que o avô não era exatamente o que parecia. Sua pele brilhava demais, como a casa azul no quadro, ele podia jurar que tinha traços pretos ao redor de seu corpo. O rapaz piscou, arqueando a sobrancelha, querendo dar um passo para trás.
— O que está acontecendo?
O avô olhou para dentro da casa e respondeu com um sorriso estranho, calmo demais.
— Vai entender logo, logo. Ela está preparando o jantar.
Nesse instante, uma silhueta surgiu na porta da casa. Era sua vó Vitória — ou quase. Mesma roupa, mesmo cabelo preso no coque apertado. Mas os olhos... Os olhos estavam muito abertos. E não piscavam. A pele dela parecia tinta pura e se ele não tinha certeza dos contornos do avô, daquela coisa, não podiam ser mais nítidos.
Seus movimentos eram truncados.
— Eduardo... — ela disse, com a voz doce como mel e errada como veneno, uma mistura de veludo e lousa sendo riscada. — Que bom que veio. Acabei de fazer o jantar. Finalmente estamos todos juntos.
Eduardo sentiu um vento passar por si, e quando se deu conta, o começo da linha de contorno preta estava em seus braços.
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