Entre rascunhos e...
1 Chamado
Existe uma superstição entre os marinheiros e ribeirinhos antigos: “o mar chama”. À noite, sozinho, você ouve o canto do mar, convidativo, quase suplicando para que você se entregue a ele.
Mas, com a tecnologia e as cidades cada vez mais povoadas, esse aviso foi se perdendo, afinal, ninguém realmente está sozinho nesse mundo globalizado.
Ou pelo menos era isso que Vanessa dizia para si mesma sempre que ouvia a cantiga antiga. Vanessa e o mar já haviam duelado algumas vezes, motivo pelo qual os pais dela haviam mudado para o interior do país logo depois do décimo segundo afogamento.
Mas Vanessa não conseguiu ficar longe do chamado. Assim que saiu de casa, sua primeira decisão independente foi voltar para perto d’água.
Porém, àquela era a terceira noite que ficava sem seus remédios, eles haviam acabado na sexta, pré-feriado, e só conseguiria pegar no final da semana seguinte, quando seu médico voltava das férias, e pela primeira vez, e ela se arrependia da decisão.
Os olhos dela não fecharam por mais de 5 horas, somando os três últimos dias. O chamado parecia estar na sua porta, como se ela morasse na areia.
Como se alguém puxasse suas cordas, ela se levantou em um puxão, com uma decisão de acabar logo com aquele barulho em seus pensamentos. Pegou o celular e olhou para o relógio, três da manhã.
Vanessa vestiu a primeira roupa que encontrou, um vestido, de quando ela ainda tinha 15 anos, perfeitamente modelo ao seu corpo.
Com a coragem de finalmente responder ao chamado, ela começou a percorrer as poucas ruas que a separavam do mar. Ela caminhava pelas ruas desertas em um ritmo frenético, o vestido batendo nas suas pernas como se o vento soubesse exatamente para onde ela estava indo. O som do mar parecia pulsar dentro de sua cabeça, abafando qualquer outra coisa. O vento carregava um sussurro, e por um instante, ela pensou que ouviu o próprio nome misturado ao som das ondas quebrando. Mas assim que tentou focar no som, ele desapareceu, como um sonho que se dissipa ao acordar.
Ela chegou à praia. O mar diante dela parecia distorcido, como se o mundo ao seu redor tivesse sido alterado de maneira sutil e cruel. O silêncio das ondas a perturbava, e a sensação de algo errado aumentava com cada passo que ela dava em direção à água. A lua iluminava a areia de maneira pálida, as ondas brilhavam com um tom prateado, quase artificial. Vanessa piscou, coçou os olhos, mas a sensação persistia
Ela se aproximou da água, seus pés tocaram a areia molhada, nesse momento percebeu que nem sequer calçou os sapatos antes de sair, e o frio da água subiu por suas pernas, como mãos invisíveis subindo por sua pele.
O chamado estava mais forte, o som se transformava em algo tangível, palpável. Vanessa sabia que deveria sentir medo, mas não sentia nada além de uma necessidade avassaladora de descobrir. Algo estava ali, escondido no fundo, e ela iria buscar.
No exato momento em que suas mãos tocaram a água, uma memória nítida atravessou sua mente como um relâmpago. Não era uma memória qualquer, mas algo que deveria ter esquecido: a primeira vez que quase se afogou. Ela tinha apenas três anos. O mar a puxou, implacável, e por um momento, tudo o que via era a escuridão abaixo de si. Sentiu a água encher seus pulmões, a areia raspar sua pele, e então… nada. No minuto seguinte, estava na praia, salva, mas a sensação de estar desconectada nunca a deixou.
De repente, o som das ondas mudou. Vanessa parou e olhou fixamente para a água. Havia algo na superfície, algo que se mexia. Ela piscou, pensando que a falta de sono estava pregando truques em sua visão. Mas o movimento continuou aproximando-se, como se algo ou alguém estivesse vindo para encontrá-la.
Ela tentou puxar os pés para fora, mas a areia se grudava nela com uma força sobrenatural, como se tivesse vida própria. Cada movimento apenas a afundava mais, e o som das ondas, antes sutil, agora parecia um coro sombrio, zombando de sua impotência. A água avançava, subindo até seus joelhos, e a figura que havia visto antes começou a emergir da superfície novamente, dessa vez mais próxima, mais nítida.
Era o rosto de Vanessa, mas desfigurado. Os olhos vazios e fundos, os lábios retorcidos em um sorriso frio. Gotas de água caíam de sua boca, sua pele pálida, tinha buracos e corais, mas ainda brilhava à luz da lua. As mãos esqueléticas saíam da água em direção a Vanessa, os dedos longos e finos, cobertos por algas escuras e úmidas.
— O mar nunca esquece... — A figura sussurrou, sua voz reverberando no vazio ao redor.
Vanessa tentou gritar, mas sua voz falhou. O medo a paralisou, e, por um segundo, ela sentiu como se estivesse novamente, no fundo da água, lutando contra a corrente que queria roubá-la do mundo. Agora, porém, não havia ninguém para puxá-la de volta. Estava sozinha, cercada pelo mar, e a cada segundo sentia a areia afundando-a mais fundo.
A figura se aproximou mais, arrastando-se na direção de Vanessa, que lutava contra a areia que a mantinha presa. O rosto disforme a encarava com uma perversidade que a fez sentir-se observada por algo muito antigo, algo que esperou pacientemente por aquele momento.
— Você se esqueceu... — a voz gotejante disse. — Mas eu não... Você já teve muito tempo emprestado na superfície.
A água subiu até sua cintura, gelada como a morte. Ela sentiu o pânico escalar, rasgando cada resquício de lógica, de racionalidade. O mar estava se movendo contra ela, como se estivesse vivo, como se esperasse por ela todo aquele tempo. E agora a queria de volta.
Vanessa queria gritar, mas o olhar zombeteiro à sua frente a desafiava a fazer isso, e nenhum som conseguia sair de sua garganta.
A criatura, agora próxima o bastante para ela sentir o fedor salgado e úmido, sorriu com seus dentes pontiagudos e desiguais.
— Você sempre foi nossa. Desde a primeira vez. Chega de enganar a si mesma aqui em cima.
Vanessa tentou afastar o rosto da criatura, mas foi em vão. As mãos esqueléticas tocaram sua pele, gélidas como a própria água que a cercava. Seus dedos escorregaram pelo seu pescoço, puxando-a para mais perto. Com um horror crescente, Vanessa percebeu que a criatura não estava simplesmente tentando assustá-la, ela a queria novamente embaixo d’água, lutando pela própria sobrevivência.
O mundo exterior havia desaparecido. Cada pensamento e fibra de vontade de Vanessa estava em conseguir sair da prisão de areia, mas cada investida, a pressão em suas penas ficava mais forte. E, por um segundo, apenas o mar e a coisa que usava o seu rosto existiam.
A criatura tirou as mãos do pescoço de Vanessa e segurou seus dedos. Puxando-a para dentro, com as ondas do mar fazendo o mesmo. A criatura inclinou a cabeça, os olhos vazios ainda fixos nela, enquanto falava, a voz como um eco do próprio oceano.
— Sabe que não adianta lutar, nós a deixamos escapar vezes demais, mas sabe que você nos pertence.
Novamente, àquele mesmo puxão que sentiu ao se levantar da cama se fez novamente, e Vanessa, deu um primeiro passo. A água, desproporcionalmente, subiu até seu peito.
— Mas... E minha família? — Foi a primeira vez que ela conseguiu falar, um sussurro, que raspava o fundo da sua garganta.
A figura deformada se virou para trás, passando a mão áspera em seu rosto, inclinando-se
— Não precisa de nenhum deles. Você é nossa. — E selou os lábios da mulher.
Nesse instante, Vanessa entendeu finalmente o que estava acontecendo, com a água salgada inundando seus pulmões. Suas pernas finalmente estavam livres da areia, mas a criatura a arrastou para dentro do mar, a água fria cobriu sua cabeça, o mundo acima desapareceu. A escuridão a envolveu, e mesmo embaixo d’água, ouviu foi o som de gargalhadas distorcidas, vindo de todas as direções.
Vanessa abriu os olhos debaixo d’água, o sal queimando sua visão, mas tudo o que via era um vazio interminável, seu coração batia tão rápido que mal podia sentir as batidas. O desespero a consumiu completamente.
Vanessa sentiu seus pulmões enchendo-se de água salgada, seus pensamentos se tornaram fragmentados. Seus braços batiam contra a água, e seus pulmões queimavam com a falta de ar, mas tudo ao seu redor parecia resistir a qualquer tentativa de escapar. Era como se o mar tivesse se tornado uma extensão de sua própria prisão, uma força implacável que não poderia ser derrotada.
No momento seguinte, o mundo ao seu redor ficou silencioso. Nenhum som de ondas, nenhum vento. Apenas o vazio.
A escuridão ao redor começou a se expandir, uma escuridão que parecia vir de dentro do próprio oceano e de sua mente, mesclando-se em um único vazio. Vanessa não sabia mais o que era real. Suas lembranças se misturavam ao som do mar, e por um breve instante, a realidade parecia distorcida além do que poderia suportar. As águas a envolviam como braços, puxando-a para um lugar onde o tempo e a vida já não existiam.
Então, assim como aconteceu em seus afogamentos anteriores, algo mudou. O pânico desapareceu, substituído por uma calma estranha e desconfortável. Ela sentiu seu corpo parar de lutar. O mar não parecia mais hostil; na verdade, havia uma familiaridade profunda, como se sempre tivesse pertencido a ele. As memórias de todas às vezes em que esteve à beira da morte, tragada pela água, a inundaram. Talvez... fosse esse o seu destino desde o começo.
E foi aí que tudo se encaixou. Vanessa estava finalmente onde deveria estar. Onde sempre deveria ter estado.
Enquanto seu corpo afundava, as últimas bolhas de ar escapando de sua boca, uma única frase ecoou em sua mente, como uma lembrança distante, quase esquecida, mas dolorosamente familiar:
"Existe uma superstição entre os marinheiros e ribeirinhos antigos: o mar chama."
E Vanessa finalmente atendeu ao chamado.
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