Entre os mundos
5 Medo.
Notas iniciais
Eu estava congelando sob aquela roupa molhada, meus dentes começaram a bater, se eu estivesse em meu mundo, apareceriam muitas pessoas querendo me aquecer, mas aqui, eu tinha que andar sozinha tremendo, com as mãos em volta do corpo e um homem, ou melhor, elfo a minha frente, me ignorando totalmente.
Quando chegamos aos acampamento, Brisa veio correndo em minha direção.
– pobrezinha – ela me trouxe uma manta que me aqueceu instantaneamente – obrigada por ter ido atrás dela Aaron.
– Fiz por você – ele pegou sua própria manta – não se acostume com esse tipo de pedido brisa.
Senti uma pequena pontada por causa do que ele disse, mas ignorei com a maior dignidade que pude.
Brisa me pegou a minha mão e me levou em direção ao seu ninho, ou seja lá qual for o nome.
– venha – ela entrou – vou arrumar você, espero um minuto, vou pegar outra túnica.
Tirei aquela roupa molhada e esperei que ela trouxesse outra túnica, a que ela me trouxe era mais pesada e quente, era preta e grossa.
– ficou ótimo em você mikaella – brisa pegou alguma coisa parecida com um pente, tentei ignorar o fato daquilo me parecer dentes de algum peixe.
Ela começou a pentear meu cabelo ruivo e fez uma trança desfiada que realmente ficou bonita, não conseguia ver mais podia sentir.
– então – puxei assunto – por que seu nome é brisa, além do fato de você se parecer realmente com uma?
– nossos nomes geralmente vem da natureza, sempre nos inspiramos nela para poder criar nossos filhotes.
– Aaron não tem a ver com natureza – franzi a testa.
– tem sim – ela terminou meu cabelo – Aaron significa a grande montanha, o que eu acho que combina muito com ele, imponente, alto, forte e principalmente...inalcançável.
– a grande montanha – murmurei – então vocês estão juntos?
– juntos? – sua pele alva ganhou uma coloração rosada – como se ele fosse meu parceiro?
– é, algo assim.
– não, Aaron é meu melhor amigo – ela falou baixinho – fomos criados juntos desde que éramos apenas filhotes e ele não me escolheria.
– como assim escolheria?
– bem, — ela suspirou – nós elfos temos a dadiva e a maldição de amar somente um elfo a vida inteira.
– um elfo? – me espantei.
– sim, só nos apaixonamos uma vez e isso dura enquanto vivermos.
– e quanto tempo dura isso? – perguntei – quer dizer, quantos anos você vivem?
– se não formos mortos por outros seres...eternamente.
– uau...- sussurrei – eternamente é tipo, muito tempo.
– pois é – ela sorriu indo em direção a cama – vamos descansar um pouco, você tem que conhecer Enantiomorfos.
Não consegui me segurar, gargalhei com vontade diante daquele nome.
– desculpe mas é enantio o que?
– Enantiomorfos – ela respondeu séria – é nosso ancião.
– desculpe – me deitei ao lado dela – sinto muito.
Aquela cama circular realmente era confortável, olhei para brisa que deitava com uma elegância invejável, parecia realmente uma fada deitada ao meu lado, fechei os olhos.
– mikaella – a voz suave de Brisa me despertou – está na hora.
Me sentei na came e tomei um susto com a figura de brisa duplicada em forma masculina, no batente da porta, ou seja lá o que for aquilo estava um elfo que como todos aqui era indescritivelmente bonito, seus cabelos branco pareciam repicados sobre os olhos ourados e a pele alva.
Passei a mão sobre os cabelos ajeitando a trança.
– então essa é a humana – ele se aproximou parecendo um gato – uau, seu bichinho de estimação é uma gracinha irmã do meu sangue.
– fique quieto folha – Brisa ralhou – ela não é um animal de estimação, é tão esperta quanto nós.
– nesse caso – ele pegou minha mão me fazendo levantar – é um prazer conhece-la, mikaella.
– igualmente é....- franzi a testa, aquele não podia ser o nome dele.
– folha.
Ah, era o nome dele.
– folha – concordei.
– temos que ir, irmão do meu sangue? Mikaella? – brisa chamou – vamos.
Mais tarde ainda perguntaria a ela por que se chamavam assim.
Déssemos pela teia de aranha até o chão, a fogueira ainda estava lá, mas dessa vez havia centenas de elfos sentados à sua volta, todos estavam quietos, numa reverencia silenciosa.
No centro da roda estava um homem de aparência jovem demais para se chamar de ancião estava sentado no meio da roda.
Ele tinha os mesmos cabelos dourados de Aaron, mas seus olhos eram negros.
Brisa me levou até a presença dele e me mandou sentar em sua frente e ficar de cabeça baixa.
– é realmente uma humana muito bela – sua voz soava distante, revelando sua idade- nossos mundos nunca tiveram uma conexão mas agradeço aos deus por ter a oportunidade de conhece-la, mesmo estando aqui por um erro do meu filho.
Olhei Aaron de relance, erro dele?
É incrível o que os deuses nos permitem fazer.
Minha cabeça estava martelando.
– pergunte criança – ele me despertou – o que você quer saber?
– senhor – não sabia como me referir a ele – quero voltar pra casa, como poderia voltar?
– não poderia – ele respondeu veementemente – O portal foi fechado, e ele só voltara a se abrir quando sentir você de forma diferente.
– que quer dizer?
– para entrar nesse mundo você teve de ser humana – ele falou como num suspiro – para voltar você precisa...
–ser um elfo – murmurei – isso é impossível.
– não humana, não é, fique conosco, aprenda e poderá voltar a sua terra.
– mas quanto tempo isso... – ele levantou a mão me interrompendo.
– a decisão é sua – Enantiomorfos se levantou – quanto antes aceitar seu destino, melhor, mas não posso mudar seu destino.
E simples assim ele partiu, sem nem um tipo de explicação, era simples assim? Eu teria que agir como um deles para poder me livrar desse lugar?
– venha querida – brisa me pegou pelo braço.
Me levantei, me parecia tão irreal.
– nunca vou sair daqui – murmurei.
– vai, vai sim – ela me abraçou, aquele corpo quente contra o meu era tão...
– Brisa – aquela voz me despertou – deixe-me falar com ela.
Meu coração começou a bater forte, ele me pegou e me levou até a orla da floresta.
– o que foi?
– volte lá, convença-o a deixa-la ir – ele parecia muito irritado.
– ele foi bem claro – fiquei confusa –tem algumas coisas que são necessárias.
– você não quer ficar aqui, eu não quero você aqui...
– espera – interrompi – qual é o grande problema deu ficar por alguns dias?
– o problema é você – ele ajeitou a tira da aljava – não a quero aqui.
– por que? – perdi o controle – Você está com algum receio Aaron? Está com medo de mim.
Vi seus olhos se arregalarem, e na hora de alguma forma soube que eu não deveria ter dito aquilo.
Ele me empurrou contra a arvore e colocou uma das mão sobre o meu peito, prendendo-me contra a arvore.
Ele tirou de dentro da aljava de flechas o que me pareceu um cilindro, mas assim que tocou seus dedos vi aquilo crescer e virar uma lança, numa ponta havia uma joia vermelha, que me pareceu um rubi ele era do tamanho do meu punho, e a outra era afiada com um ferrão.
– olhe meu Isnigna – ele aproximou do meu rosto – quanto mais forte ele brilhar, mais força eu tenho, coragem.
A luz começou a brilhar num vermelho vivo insuportável, fazendo-me fechar os olhos bem apertado, mas mesmo assim meu olhos ainda estavam sendo ofendidos.
E de repente a luz se apagou, E ele me soltou.
– eu não sinto medo – Aaron rosnou.
Ele correu em direção a floresta enquanto eu tentava focar em algo a minha frente que não piscasse em vermelho.
– você está bem? – reconheci a voz de folha – caramba, eu nunca vi alguém desafiar Aaron assim.
– e isso é algo bom? – me apoiei nele.
– menina você está brincando? – ele gargalhou – ele vai matar você, com certeza vai se vingar.
– não diga isso irmão do meu sangue, ele não irá fazer nada mikaella – brisa suspirou – só não deve desafia-lo desse jeito, ele é o futuro líder daqui, e os caçadores não podem ter medo é o que os move.
– que quer dizer? – perguntei baixinho enquanto subíamos até o ninho.
–você viu o Isnigna dele?
– o bastão?
– não deveria zombar – ela respondeu seria – aquilo é a alma do caçador, da onde os deuses enviam a magia que os motiva.
– magia?
– é e dizer que ele está com medo é mesma coisa que chama-lo de franco em frente a toda tribo é uma vergonha para ele.
– acho melhor me desculpar – me senti mal.
– amanhã – ela se deitou – venha dormir minha nova amiga.
– você disse magia – murmurei – como aquele lance de tocar no peito?
– aquilo? – senti ela sorri — se nós tocarmos no coração um do outro, aquele em que nós tocamos não pode mentir.
– incrível — precisava de um truque desses.
– durma humana, amanhã você vai aprender a ser uma elfa de verdade.
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