Entre os Garotos

22 Capítulo 22


Notas iniciais
Eu sumi? Sim. Atrasei? Atrasei muito. Mas eu voltei? Olha, voltei sim. Boa leitura e não desistam de mim.

Eu amo feriados em dia de sexta, dá para fazer alguma atividade fora de casa por mais tempo. Nesse final de semana, minha família resolveu ir para um lago um pouco distante da cidade, onde eu costumava ir quando era criança. Perguntava-me se ele mudou, levando em conta que há anos que não vou lá. A janela do carro estava abaixada, permitindo o vento entrar no carro e refrescar meu rosto. Lembrei de tudo que Thomas estava passando e isso me fez suspirar de insatisfação. Odiava a sensação de não poder fazer nada. Era melhor não ficar pensando nisso, esse final de semana era meu. Aliás, ele disse que podia se virar lá. Que ia ficar tudo bem.

Falando nisso, meu cachorro estava ótimo. Tinha dias que eu passeava com ele. De vez em quando meus pais davam banho nele, principalmente depois dele chegar todo sujo de lama porque se espojava no chão. Na maioria das vezes eu que o soltava, mas meus pais nunca descobriram. Gosto de vê-lo feliz.

Ainda bem que depois daquele episódio, Wesley e Samuel pararam de pegar no meu pé. Esperava que eles fossem atingidos por um carro, mas o meu lado humano achava isso errado. Ou talvez não. Às vezes eu achava que estava pensando demais.

— Jean? — Minha mãe estava olhando para trás, no banco do carona ao lado do meu pai, que dirigia.

— Oi! — Parei de “olhar” a paisagem e subitamente virei para ela.

— Seu pai estava te perguntando se você ainda lembra daquele restaurante que fica do lado daquela pedra enorme.

— Ah, lembro um pouco. Aquele lugar que o senhor riu enquanto bebia e acabou engasgando e sujando a mesa toda? — A cena passou novamente pela minha cabeça e não evitei o riso.

— Nossa, você lembra vagamente do lugar, mas disso lembra na hora, não é?

— Não consigo evitar!

—-xXx--

O lago parecia incrível, realmente não hipervalorizei uma lembrança do passado. A água era bastante calma e o sol da manhã dava um ar convidativo ao local. Algumas pessoas andavam de um lado ao outro, geralmente fazendo atividades recreativas. A melhor parte era que tudo isso ficava no meio da natureza, o som dos pássaros e das árvores farfalhando eram uma das coisas que eu mais gostava.

Fui até uma venda que ficava próximo ao lago, meus pais foram cuidar da parte chata e me deixaram sozinho.

— Um sorvete napolitano, por favor! — Pedi. Lembro-me que era o meu preferido aqui, seguido de coco verde. Após pagar, dei a primeira mordida. Realmente era ainda o sorvete incrível de minha infância. Esse lugar era a nostalgia em forma física, literalmente.

— Pelo visto já foi logo na comida. — Meu pai falou, puxando dinheiro do bolso e pedindo um sorvete para ele também.

— Mas você está fazendo a mesma coisa. — Falei. Resolvemos passear um pouco pela floresta, meu pai disse que Beatriz estava dormindo no quarto.

— Posso te perguntar uma coisa? — Minha espinha gelou quando ele falou isso, acho que é instinto de jovem pensar que está fazendo algo errado, mesmo sem estar.

— Claro. — Concordei, curioso pela pergunta.

— O que você pensa do seu futuro? Digo, faculdade, trabalho. — Ele perguntou de forma bem calma.

— Não sei. Não consigo me decidir direito o que quero da vida. — Desabafei. Um esquilo passou correndo na nossa frente, distraindo-me um pouco da conversa.

— Bem, na sua idade eu não sabia o que queria também. Então decidi cursar algo que desse um bom dinheiro. — Ele contou, sorrindo. — Medicina.

— Pelo visto não deu nada certo.

— Acabei largando no segundo semestre, aquilo simplesmente não era para mim! — Ele riu. — Dois anos depois, resolvi cursar programação e cá estamos.

— Foi bem apostado, programação está em alta hoje em dia. — Falei despretensiosamente.

— O que eu quero dizer é que... curse algo que você goste. O dinheiro vem com o tempo.

— Obrigado. Realmente foi um bom conselho. — Realmente guardei tudo o que ele falou.

— É seu penúltimo ano agora, não é? Como estão as coisas? — Ele perguntou.

— Milagrosamente, estão calmas, considerando tudo o que aconteceu antes. — Contei.

— Entendo, mas a tendência agora é melhorar. Seus problemas estão acabando. — Ele tentou me animar. Percebi que estávamos um pouco longes do lago, então resolvemos voltar.

—-xXx--

Eu estava deitado em minha cama, já era tarde e eu estava me preparando para dormir. Era um quarto realmente bonito e organizado, o melhor de tudo era que era adaptado. É triste saber que não são muitas as coisas que são adaptadas às pessoas com deficiência.

Meu celular vibrou, indicando que algumas mensagens haviam chegado. Peguei-o e vi que era Thomas.

— Oi, estou aqui! Tudo bem? — Perguntei.

— Que bom que me respondeu, fiquei num vácuo de 10 horas.

— Desculpa, estou viajando com minha família.

— Ah sim, tudo bem. Na volta a gente conversa, tenho que resolver umas coisas. Só queria te contar algo, mas é melhor pessoalmente.

— Certo. — Uma curiosidade surgiu em mim, o que será que ele quer me contar? Talvez seja algo relacionado com a faculdade, é o próximo passo dele nessa jornada chamada vida capitalista.

— Você pode me dizer agora? Eu odeio ficar pensando em coisas.

— Não é nada demais, relaxa! Só é engraçado.

— Ah, sim. — Então não era faculdade, mas o que será que era? Continuei conversando com ele até cair no sono sem perceber. A primeira coisa que fiz quando acordei foi me desculpar.

—-xXx--

O lago era simplesmente incrível durante o amanhecer, perguntava-me se havia peixes lá dentro. Provável que sim, era bastante limpo.

— Jean? — Uma voz familiar me chamou.

— Henrique? Também está passando um dia aqui? — Perguntei, entusiasmado com a companhia surpresa dele.

— Sim, vai ter um show aqui perto, resolvi ficar no hotel aqui do lado. — Ele estendeu a mão para eu apertar, claro que retribuí.

— Eu estou te atrasando agora, que tal nos falarmos depois? — Sugeri. Henrique carregava algumas coisas com ele. Achei melhor não o incomodar agora.

— Ok, depois do almoço eu passo aqui de novo. — Ele seguiu o caminho dele, deixando-me observar o lago sozinho novamente. Foi uma surpresa muito bem-vinda, já estava me perguntando o que ia fazer enquanto meus pais estavam se resolvendo.

O lago estava começando a encher. Algumas crianças estavam chegando e brincando, enquanto os adultos aproveitavam para relaxar nas pedras que ficava na borda.

—-xXx--

— Me atualize. Como as coisas vão? — Henrique perguntou, andando na beira do lago comigo. O céu estava começando a ficar alaranjado.

— Eu não sei. Parece que estão bem, mas sabe como é... — Falei, demostrando insegurança.

— Sei bem. Meu pai vai se separar de minha mãe, mas não sei onde vou ficar. — Ele se abriu, parando por um momento e pegando uma pedra no chão.

— Poxa, sinto muito. — Olhei ele atirar a pedra no lago, fazendo-a quicar três vezes.

— Não é tão ruim. Está sendo bem saudável, eles não brigam muito. — Ele virou e me olhou por alguns segundos.

— O que foi?

— Acho que estou esquecendo alguma coisa. — Ele colocou a mão no pulso e se assustou. — Meu relógio! Foi presente do meu pai. Jean, eu preciso procurar.

— Claro, bem... deve estar pra lá. — Apontei para onde a gente veio.

— Sim, provavelmente está no hotel. Tenho que ir, me encontra no banco perto das pedras às 7 horas. — Ele falou, correndo até o hotel.

— Certo... eu acho. — Falei praticamente para o nada, já que ele correu para longe.

Resolvi voltar para o hotel e comecei a procurar. Na verdade, nem durou muito tempo, já que ele provavelmente deve ter tirado para tomar banho no lago e deixou numa das pedras. Rapidamente achei e o peguei, estava um pouco distante do hotel, no outro lado do lago. Me pergunto por que ele estava tão distante.

Havia uma mensagem gravada no fundo do relógio. “Nunca esquecer”. Provavelmente foi feito durante a separação. Ele estava escondendo que o pai iria embora.

— Você achou? Obrigado. — Ele pegou de minha mão. Resolvi não perguntar sobre a mensagem, então não falei nada por alguns segundos. — Você leu a mensagem?

— Eu li, tem algum problema? — Perguntei, quase como um pedido de desculpas.

— Não, não tem nada demais. Só... não quero falar disso. — Ele colocou o relógio de volta no pulso.

— Desculpa.

— Não tem problemas, sério. Vamos voltar pro hotel. — Voltamos a andar sem falar mais nada, acho que ele veio para cá apenas para chorar, mas nunca quis perguntar sobre. Depois de alguns minutos, já estávamos no hotel.

— Amanhã eu vou voltar para casa. Então provavelmente não vou poder te ver amanhã. — Falei, desanimado com a despedida.

— Ah, certo. Até depois, ainda vamos no ver mesmo. — Ele falou, sorrindo um pouco. — Se cuida.

— Até depois, vai dar tudo certo pra você.

—-xXx--

Meu nariz estava entupido e meus olhos estavam lacrimejando. A febre também estava forte. Estava resfriado e não poderia ir para o colégio por uns dias. Segunda vez que fico doente em menos de três meses, já estava ficando repetitivo.

Não fiz praticamente nada no dia todo, além de jogar e assistir TV. Bati meu recorde novamente, fiz 36 mil pontos. Comparado aos 32 mil de Thomas, acho que foi uma pequena humilhação.

—-xXx--

Depois de três dias eu já estava bom novamente e pude ir ao colégio. Um colega me passou as atividades perdidas, assim como os assuntos.

Mesmo caminho de sempre, sequer parava mais para prestar atenção nele. Mas o clima era sempre agradável nessa época do ano, pois o maldito verão é substituído pelo outono.

Thomas estava sentado na porta do colégio, resolvi falar com ele. Faltava cerca de 20 minutos até a primeira aula, então dava tempo para conversar.

— Como foi a viagem? — Ele perguntou, com a cabeça abaixada. Provavelmente ainda estava com bastante sono.

— Foi legal, adivinha quem eu encontrei lá...

— Sem jogo de adivinhar, não sei nem meu nome nessa hora da manhã.

— Henrique. A gente conversou bastante e até me envolvi numa aventura com ele. — Ocultei alguns detalhes, mas foi basicamente isso.

— Melhor irmos para a sala, já já vai bater o horário para a aula. — Thomas se levantou e se espreguiçou.

— Você não estava dormindo aqui, né? — Perguntei, desconfiado.

— Vamos dizer que não. — Ele riu e foi embora.

—-xXx--

Já estava indo para casa. Guardei meus materiais e saí do colégio.

— Jean, me espera! Quero falar com você. — Thomas gritou, correndo até mim

— O que foi? — Perguntei assustado.

— Vamos andar que eu te conto. Eu te disse que ia contar quando você estava viajando, certo? — Ele estava olhando o chão ao invés de mim.

— Sim, sobre a faculdade. Prossiga. — Um vento frio passou pela rua, fazendo algumas folhas secas da rua baterem em nós dois.

— Bem, é que eu vou ter que me mudar. Estava tomando coragem pra te falar isso. Eu juro que não foi ideia minha, mas é que minha mãe...

— Como assim? Você vai...

— Jean, minha mãe quer que eu vá para a casa de meus tios. — Ele começou a chorar.

— Eles são pessoas ruins? Mas por que você está indo? — Eu não sabia como processar tudo isso.

— Eles são legais, mas meus pais... — Ele parou de falar por um momento e limpou os olhos das constantes lágrimas que caíam. — Acho que isso vai nos afastar de vez.

— Thomas... — Apesar de tentar falar algo, não sabia como continuar qualquer frase.

— Então, eu vou ter que ir embora semana que vem. Os professores já sabem, diga tchau para os outros por mim. — Ele deu as costas e começou a andar. E nada saia da minha boca, eu estava realmente me odiando nesse momento. — Aliás, não vai dar para continuarmos juntos. Nada funciona à distância, eu sei disso. Até mais, saiba que te amo. — Ele sequer virou, acho que estava chorando ainda mais. Dava para perceber, pois sua voz estava alterada.

Coloquei a mão no rosto e comecei a chorar, mas a única coisa que conseguia pensar agora era que não queria voltar para casa chorando e dizer tudo isso para meus pais. Era melhor deixar tudo se acalmar. Era isso o que eu ia fazer.

—-xXx--

Resolvi pegar um caminho mais longo para casa, indo pelo parque. Era esse o parque que eu brincava com Thomas. Era uma boa lembrança. Nós brincávamos quase todo dia de empinar pipa. Paramos um pouco de vir para cá quando eu ganhei meu primeiro videogame. Quando ele começou a namorar com Melissa, uma garota da idade dele, foi quando realmente paramos de vir para cá. Uma boa lembrança.

Espero que daqui a cinco anos tudo isso seja apenas uma lembrança ruim.

Notas finais
O que achou? Comente! Agradeceria muito. Obrigado por lerem até aqui e até o próximo capítulo. ♥