Entre os Garotos
23 Capítulo 23
Notas iniciais
Fazia alguns dias desde que Thomas disse aquilo. Eu não estava comendo direito, acho que toda tristeza tirava meu apetite. Além de estar me afastando de meu namorado, meu primeiro e melhor amigo estava indo também. Um verdadeiro sentimento de solidão apossou-se de mim. Tem dias que eu simplesmente queria voltar no tempo, em outros, queria não tê-lo conhecido. Thomas foi embora, só me restava aceitar.
— Jean? Você precisa comer, sai desse quarto! — Minha mãe bateu na porta.
— Já estou indo. O que preparou hoje? — Perguntei, sem ânimo.
— Seu preferido! — Ela gritou da cozinha.
—-xXx--
Eu não queria ir para a escola, mas era necessário. Passei a falar mais com a garota de antes. Descobri que seu nome é Melissa. Ela é tão nerd e louca por seriados quanto eu. Ela conseguia ainda ir além e saber vários assuntos sobre o espaço e umas curiosidades bizarras. Uma ótima pessoa para se conversar.
Tinha marcado com Fernando e André para que eles me busquem no colégio e então possamos ir em algum lugar. Eu não queria ir, preferia ficar em casa e jogar sozinho, mas às vezes é bom socializar. Resolvi esperá-los numa pracinha que ficava atrás dos muros do colégio, onde era mais tranquilo e vazio.
Estava na frente do colégio. Os muros foram pintados recentemente, mas já estava seco.
— Acho que eu vi um viadinho. — Samuel imitou um personagem de desenho animado.
— Péssima piada, de verdade. — Falei, tentando ignorar a raiva que sempre me cerca quando eles aparecem.
— Percebi que seu namoradinho foi embora. Não conseguiu prender ele ou seu pau é muito pequeno? — Wesley riu, fazendo uma cara irônica.
— Ah, acho que foi por isso que seu pai largou sua mãe 3 anos atrás. — Retruquei, rindo um pouco. Acho que estava sendo bastante infantil. — Tenho mais o que fazer.
— Não, você não vai embora assim tão fácil. — Samuel colocou a mão em meu ombro.
— Sério mesmo que você não vai seguir meu conselho? — Fiquei sério, quase o ameaçando com a voz.
— Você não deve falar assim comigo! — Samuel deu um soco em meu rosto, fazendo-me ficar zonzo por um momento. Eu não podia fazer nada.
Wesley veio por trás e me segurou forte, equilibrando para que não caísse de minha cadeira dessa vez. Meu coração começou a acelerar repentinamente e Samuel voltou a desferir golpes em meu rosto. Um após o outro. Eu parei de sentir tudo por um momento, apenas pensava no que estava acontecendo. Sentia apenas o sangue escorrendo de meu nariz.
— Pare com isso! — André passou os braços pelo pescoço de Samuel e começou a deixá-lo inconsciente.
— Não faça isso com ele! — Wesley gritou, parando de me segurar e indo até André.
— Não se preocupe com ele. Tem você também. — Fernando surpreendeu Wesley com um soco no rosto. Provavelmente ele chegou na hora, pois nem eu havia percebido sua presença. Ele aproveitou o momento de confusão de Wesley para dar outros socos nele.
Comecei a perceber o que aconteceu, mas tudo foi bastante rápido. Aproveitei momento em que meus amigos estavam ocupados e resolvi voltar para casa. Estava me sentindo humilhado, talvez eu fosse realmente indefeso. Odiava ainda mais aqueles dois nesse momento.
Naquela noite, meus pais me perguntaram o que foi que aconteceu comigo diversas vezes, mas tudo o que eu fiz foi ignorá-los. No início foi difícil, mas com o tempo ficou mais tranquilo fingir que eles não estavam lá. Que tudo estava bem.
Passou-se dois dias e eu não pisei no colégio. Meu celular estava pipocando com notificações das mensagens, mas eu não queria lê-las. André e Fernando enviaram mais de 10 mensagens, queriam saber como eu estava.
Já era tarde, meus pais desistiram de saber o que aconteceu. Mas tinha quase certeza que eles já sabiam.
— Jean? — Thomas estava mandando uma mensagem pelo chat.
— Estou aqui.
— Passei para perguntar se está tudo bem. Não tenho muito tempo
— Está sim, mas queria que você estivesse aqui porque está um tédio terrível viver aqui. — Menti, mas minha vontade era de explodir ali mesmo, dizer como está tudo indo por agua abaixo e como eu queria fazer cada atrocidade com Wesley e Samuel.
— Preciso ir, vou passar aqui depois. Até mais.
— Até mais. — Desliguei o celular e tentei dormir, mas fiquei por uns trinta minutos pensando na vida. Já estava na hora de voltar para o colégio.
—-xXx--
As aulas acabaram e mais uma vez Wesley e Samuel estavam lá. Não era uma preocupação, já que toda a galera me convidou para sair, e dessa vez eu realmente ia.
— Jean. — Wesley se aproximou.
— Sai daqui. — Gritei, indo para longe deles, em direção ao ponto de ônibus.
— Dessa vez você vai me ouvir, e vai ser longe daqueles seus amiguinhos. — Wesley colocou as duas mãos em meu ombro.
— Obrigado pelo material, garotos. — Rebeca falou, aproximando-se com um celular na mão.
— Você estava gravando? — Perguntei, surpreso.
— Vocês dois já têm 18, não é? Uma pena. Vamos fazer o que já devia ter sido feito faz tempo. — Ana falou maliciosamente.
— Não, apaguem esse vídeo. Vocês entenderam errado. Por favor. — Wesley começou a chorar.
— Apaguem esse vídeo, ou vocês...
— Ou vocês o quê? — André falou, comendo salgadinho.
Nós fizemos algo que já deveria ter acontecido. Denunciei aqueles dois e provavelmente agora, que já estou em casa, depois de me divertir num passeio até a delegacia para realizar um sonha de minha vida, a polícia deve estar batendo na porta de seus pais, ou pior. Espero que pior.
No dia seguinte, passei na frente da árvore do parque em que eu passei um tempo com Thomas. Era o tipo de lugar que me proporcionou lembranças desde a infância.
Tudo estava tão calmo nessa hora, mas um casal que estava debaixo daquela mesma árvore, rindo e olhando as nuvens, animou o meu dia.
Nesse ano, eu vivi uma verdadeira história de amor, consegui resolver uns problemas da minha vida e me diverti bastante. Mas essa não foi a história em que eu encontrei o amor de minha vida.
Essa foi a história onde eu descobri quem eu era, onde eu amadureci e me tornei quem eu sou. Onde eu realmente soube o que eu era por inteiro e não por expectativas impostas por outras pessoas.
—-xXx--
Um bom tempo se passou, eu já estava no fim do meu último ano no colégio. As coisas melhoraram bastante. Meu pai recebeu uma promoção no trabalho e tudo estava bem por lá.
A festa da formatura tinha acabado e eu estava bebendo alguma coisa que nem tinha ideia do que era, mas estava bom. Todos estavam lá, Fernando, Ana, André e Rebeca. Até mesmo Henrique tinha aparecido. Porém Thomas não estava lá, eu não o vi pessoalmente desde o início do ano passado.
— Acho que meu corpo cansou de estar bêbado. — Fernando falou, com seu terno sujo de bebida.
— Nada dá certo depois de meia-noite no colégio. — Falei, rindo ao olhar nossa situação.
— Gente, o que vocês acham de sairmos daqui e irmos para um lugar menos barulhento? — Ana perguntou, jogando uma garrafa vazia no lixo.
— Topo. — Rebeca levantou. Automaticamente todos levantamos, não havia nada naquele lugar mais para fazer além de ficar dançando músicas batidas que estavam esquecidas no fundo do disco e ver gente bêbada tentar se manter em pé.
— Parece que estamos saindo de um enterro. Roupa formal e rosto acabado. — André comentou.
— Vamos para a praça, tá melhor do que ficar aqui. Um grupo de jovens na madrugada, sentados num banco de praça e sem fumar maconha. Incrível. — Rebeca foi andando na frente, o resto de nós apenas seguiu. Pouca coisa foi falada durante o caminho.
A praça estava vazia e bem iluminada. Qualquer coisa que falássemos, por mais que fosse baixo, parecia ser alto o bastante para incomodar vizinhos.
— Às vezes eu esqueço que essa rua pode ser silenciosa. — Comentei, olhando para as janelas dos apartamentos que ficava ao redor da praça.
— Às vezes esqueço como é bom não fazer nada, apenas ficar olhando o céu. — Falei.
— É bastante relaxante. — Ana estava sentada no banco, apoiando sua cabeça em seu braço.
— Ano que vem é a sua vez de tomar um rumo, Jean. Já sabe o que quer fazer? — Fernando perguntou.
— Não faço ideia. — Falei, sorrindo.
— Então você está no caminho certo. Ninguém sabe, só finge saber. — Ele sorriu também e voltou a olhar para o céu. — Vai chover daqui a pouco. Vamos para casa.
—-xXx--
Eu já estava deitado em minha cama. Queria que Thomas estivesse na minha formatura, mas acho que isso deixou tudo quite, pois nem eu pude estar na dele. Odeio essa distância toda. Não é culpa dele que não temos mais nada juntos. Não posso dizer que isso tudo é passado, ainda sinto muita coisa por ele. Meu celular começou a tocar, era ele.
— Parabéns por ter cumprido a etapa mais fácil do ensino.
— Como está indo aí na faculdade? — Perguntei, sorrindo em ouvir sua voz.
— Acho que está dando certo, porque tô querendo tocar fogo em mim. — Ele riu um pouco, mas acho que foi um pedido de socorro.
— Em breve é você, não é? — Ele perguntou.
— Sim, mas primeiro preciso tomar um rumo na vida.
— Se lembre de dar uma volta por aqui qualquer dia, vamos matar a saudade.
— Pode deixar. Agora estou bem mais livre pra isso.
— Nunca mais vai ser daquele jeito, não é? — Ele perguntou, suspirando. Thomas não precisou dizer exatamente do que estava falando, mas era um pouco óbvio.
— Não fale isso, ainda temos toda uma vida. Com certeza vamos nos encontrar mais vezes.
— Você tem razão. É, está tarde, preciso ir. Vou acordar bem cedo amanhã, hoje.
— Até mais. — Desliguei o celular e fiquei olhando o teto por um tempo.
—-xXx--
Eu estava jantando com meus pais. Eles estavam cochichando um pouco, ou é uma boa novidade ou é uma bomba.
— Jean, estávamos esperando você terminar seu ensino para dizer uma coisa. — Meu pai estava sorrindo, então era coisa boa.
— Nós vamos nos mudar para a capital. — Minha mãe falou, a faculdade de Thomas ficava na cidade vizinha.
Comecei a sorrir. Pelo visto o ano seguinte será interessante. Mas isso é coisa para outra história.
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