Entre os Garotos

21 Capítulo 21


Notas iniciais
Dois anos para postar um capítulo! Isso não existe! Enfim, falta apenas dois capítulos para acabar e meu tempo está apertando, então vamos lá.

Eu estava tomando uma xícara quente de café, vendo a chuva cair do lado de fora da casa. Na verdade, eu estava esperando que ela passasse para que eu pudesse comprar os mantimentos. Meus pais voltaram a trabalhar, as férias escolares estavam quase acabando. Gosto da chuva batendo no vidro da janela e tornando a rua alegre numa monotonia cinzenta. Ok, pensamento estranho do dia. Paisagens chuvosas me cativam, isso expressa melhor o que eu quero dizer.

Meu café acabou, então procurei outra coisa para fazer. Jogar videogame. Faz um tempinho que eu não pego meu controle para jogar sério, estou um pouco enferrujado. Talvez Thomas consiga derrotar-me se eu continuar assim. Esqueci, ele não vai poder voltar para cá por um bom tempo. Isso desanimou meu dia. Larguei o controle e resolvi assistir TV. Chato, mais chatice. Será que vai aparecer algo legal alguma hora? O jeito vai ser apelar para o Netflix.

—-xXx--

Já estava do lado de fora e a rua não estava muito molhada, ao menos não tinha poças. Rapidamente fui até o mercado e comprei tudo, pois ainda tinha medo de que voltasse a chover e eu ficar preso no estabelecimento. Maldito pensamento, a chuva já começou a cair. Ainda estava bem fraca, mas quem garante que não ia piorar? Fiquei na porta do mercado e hesitei me aventurar até minha casa.

— Aceita um carona? — Fernando perguntou, vindo de longe com um guarda-chuva.

— Na hora certa, obrigado! — Aceitei, sorrindo aliviado.

— Como uma pessoa sai na chuva sem proteção? — Ele colocou a mão em meu ombro e começamos a andar. O guarda-chuva dele era relativamente grande, mas eu ainda molhei minhas calças um pouco.

— Preparado para o início das aulas? — Ele iniciou um assunto para quebrar o silêncio que estava se formando.

— Nem estou pensando muito nisso, mas acho que sim.

— É seu último ano! E o de Thomas também, tem alguma ideia do que fazer depois?

— Tentar faculdade, ainda não sei bem do quê. — Observei duas garotas andando apressadas do outro lado da rua, procurando se esconder da chuva.

— Você descobre com o tempo, já eu não sei nem o que quero comer. — Ele sorriu. — Acho que um sanduíche cairia bem.

— Definitivamente, mas não vou poder te acompanhar nessa aventura. Tenho que levar essas compras para casa. — Apontei para o saco que ele carregava.

— Verdade, já tinha até esquecido. Bem, chegamos na sua casa. Até mais! — Fernando abriu a porta e esperou eu entrar.

— Até mais. — Peguei o saco da mão dele, entrei e fechei a porta. Agora tenho comida e meus materiais para as aulas da semana que vem. As aulas vão começar e eu ainda nem sei o que aconteceu nas férias.

—-xXx--

Entrei no colégio de sempre, na sala de sempre, e sentei em minha cadeira de sempre. Rotina, doce rotina. Início de ano letivo costuma ser um pouco ruim, as pessoas chegam atrasadas, lentas por causa das férias. Porém, eu sempre chego no ritmo certo. Eu acho. Participei de todas as aulas normalmente e fui até o pátio, Thomas estava sentado com seus amigos da escola, eu não gostava muito deles. De fato eu não tinha muitos amigos no colégio, mas eu não ligava.

— Oi, estou um pouco perdida. Onde fica um bebedouro por aqui? — Uma menina que aparentava ter a minha idade. Seus cabelos cacheados eram bastante volumosos.

— Ali atrás! Do lado daquela árvore. — Apontei para em direção ao corredor principal do colégio.

— Obrigada! — Ela disse, animadamente, e foi até onde eu indiquei. Voltei a olhar para Thomas e senti uma mão masculina em meu ombro.

— Olá, viadinho. — Disse Wesley, reconheci a voz imediatamente.

— O que você quer? Moleque escroto. — Perguntei, quase que o fulminando com meu olhar.

— Calma, dessa vez não vim para brigar com você. — Ele falou, sorrindo como se eu fosse algum tipo de divertimento aos seus olhos.

— Adianta o que você quer falar que uma ânsia já está se formando em meu estômago.

— Eu queria me desculpar pelo que Samuel fez, isso foi demais.

— Agora você quer saber o que foi demais? Todo dia vocês me rebaixam e só agora que vocês extrapolaram que você vem dizer que passou do seu limite?

— Ei! Eu ainda estou vindo e me desculpando! — Ele começou a aumentar o tom de voz, assim como eu.

— Você devia ter pensado em não estourar seu limite lá em 2012. Ou então antes do seu amiguinho, que talvez seja mais do que isso, expor Thomas e eu! Já perdi a conta de quantos olhares estranhos recebi durante esse dia! Vai se foder! — Me afastei dele e percebi que a menina de antes estava observando. A aluna veio andando até mim.

— O que aconteceu? — Ela perguntou, preocupada.

— Se você ainda não sabe que sou gay, ele e seu amigo tornou isso público sem a gente pedir. Não que eu me importe, mas Thomas saiu muito prejudicado.

— Eu já sabia, foi a primeira coisa que me falaram quando entrei aqui. — Ela sorriu.

— Sério? E por que você está falando comigo? Isso seria um suicídio social.

— Esse colégio é muito preconceituoso para eu querer ter uma vida social aqui.

— Bem vinda à minha cidade, o local mais cristão e preconceituoso que já conheci.

— Obrigado por me alertar, mas creio que já é tarde demais. — Ela sorriu e acenou, indicando que precisava ir para a aula. Despedimo-nos e fui falar com Thomas.

—-xXx-

A cidade parecia um pouco vazia, ainda era horário de trabalho. Thomas e eu largamos do colégio mais cedo e resolvemos aproveitar um pouco fora de casa.

— E então? — Perguntei, olhando a vitrine de uma loja.

— E então o quê? — Thomas estava do meu lado, observando as roupas e os acessórios caros que estavam expostos. Era uma certeza que não iriamos comprar nada.

— Como as coisas estão na sua casa?

— Não vou mentir, vai mal. Mas é melhor assim. Melhor agora do que no futuro, ou contado por outra pessoa.

— É, você tem razão. — Sorri, olhando-o através do reflexo.

— E quando não tenho? — Ele riu e subitamente começou a andar na frente, tentando evitar uma possível agressão amigável minha.

— Você soa muito rude dizendo isso.

— E eu sei que você odeia. — Ele riu mais um pouco, mas ficou sério de repente.

— Pegaram no seu pé hoje? — Perguntei, voltando a segui-lo pela rua.

— Perdi a conta das pessoas.

— Cara, eu nem comecei a contar. — Um caminhão passou e molhou Thomas, deixando-o com as roupas encharcadas.

— Puta que pariu, vou ter que ir para casa agora. — Ele suspirou, tentando controlar a raiva que ficou do motorista.

— Certo, até amanhã. É só mais 199 dias para que essa coisa toda acabe. — Falei, virando para a direita e pegando um caminho diferente do dele.

—-xXx--

Já estava voltando para casa, essa Segunda foi um dia difícil para mim. A vontade de cometer uns homicídios era altíssima, mas pelo jeito eu tinha que me manter calmo por mais um ano inteiro, esperando que tudo isso passe na faculdade, precisando que tudo isso passe.

Muita chuva! Isso podia resumir o dia atual. Emocional e também literal. Ainda bem que já estiou, ao menos por um momento. Só sei que tenho o bom pressentimento de que as coisas irão melhorar a partir de agora. O céu nublado começou a abrir, fazendo com que o clima cinza da cidade começasse a dissipar-se e dar lugar ao amarelado aconchegante do sol novamente.

Notas finais
O que acharam? Comentem por favor! Os capítulos estão pequenos sim, mas prometo que vão aumentar ♥ Até mais! Beijos ♥