Entre os Garotos
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Fazia um dia que chegamos em casa. Thomas andava ao meu lado no parque na cidade. Só era ele e eu agora, mas eu ainda tinha contato com os outros. Pensamos até em sair juntos depois, mas alguns trabalham, eu estudo muito, Thomas estava no último ano do colégio, em breve seria a faculdade e então nos separaríamos. Eu nunca pensei nisso. Ele era um ano mais velho que eu e isso significa que ele ia para longe. Um vento fresco aliviou um pouco do calor do verão. Em breve seria Natal, mas o calor fazia parecer que em breve seria o apocalipse judaico.
— Thomas, você vai fazer faculdade onde? Aqui não tem boas oportunidades. — Perguntei, ajeitando minha camiseta.
— Não vou dizer que não ligo pra isso. Eu estava pensando em ir para a casa de minha tia. É lá na capital e tem várias faculdades boas. — Ele parou e olhou para uma árvore que dava uma sombra confortável.
— Vamos parar aqui? Só por um momento. — Sugeri, indo até ela.
— Ia falar isso. — Thomas sentou no chão, encostando-se no tronco.
— Entendo. Eu não quero lhe prender, dizer que seria bom você ficar aqui e tal. Quero que você vá e siga seu futuro.
— Ficar rico!
— Sim, fique rico e seja a kardashian que ninguém daqui pode ser. — Brinquei, rindo um pouco.
— Jean, nós vamos sair daqui e ir para um local melhor. Aqui parece um fim do mundo às vezes. — Thomas falou seriamente, mas havia um tom sonhador em suas palavras.
— Nós temos internet. Sinal. Carros. Olha, não é tão ruim assim.
— Sim, claro. Aqui é uma cidade como qualquer outra. Mas sei lá, falta algo nela. Não vejo uma diversidade aqui, apenas conservadores e religiosos. — Ele suspirou e olhou para as nuvens.
— Por que isso está te incomodando agora? — Perguntei, olhando para as nuvens também.
— Eu não quero me limitar a isso aqui. Eu quero crescer mais. E o melhor jeito de fazer isso é indo embora.
— Nisso você tem razão. Pelo menos não quer ir embora pelos motivos errados.
— Claro que não. Não sou um maluco. — Ele sorriu.
— Mas um pouco doido eu tenho certeza que é. — Falei.
— Tudo o que precisamos é de momentos como esse. — Ele falou, olhando para mim por uns segundos.
— Calmos, alegres e com esse arzinho maravilhoso de parque no verão? Sempre soará ótimo para mim. — Thomas aproximou seu rosto do meu e então me deu um beijo. Ficamos observando as nuvens durante um tempo, em silêncio. Foi um dos melhores momentos que eu já tive nessa cidade. Tudo parecia ótimo, com a exceção de dois homens que olhavam para nós com um tom de desaprovação.
—-xXx--
— O que você quer para o jantar? — Minha mãe perguntou quando cheguei em casa e abri a porta.
— Qualquer coisa, tenho certeza que estará ótimo. — Falei, indo até o meu quarto.
— Vamos comprar um celular novo para você, não quero te ver mais descuidado desse jeito. E me ligue mais vezes. — Ela ordenou com uma certa preocupação na voz.
— Tudo bem. Agora vou tomar meu banho. — Falei, sorrindo para ela e fechando a porta.
Um tempo se passou e eu estava sentado em minha cama, usando o notebook em uma mesa portátil. Eu já tinha acabado minha ficção e o legal é que rendeu bons comentários. Eu gostei muito disso e certamente me ajudou a continuar a escrever. Até mesmo os menores me dão alegria. Algumas pessoas simplesmente comentam "continua". Isso é bom, faz com que eu perceba que ele está lá, esperando outro capítulo. E não ia ter outro, infelizmente. Ao menos não nela. Hora de criar outra.
— Está aí? — Henrique perguntou pelo Facebook.
— Sim, estou aqui.
— Kkk, está tarde, pensei que já tinha ido dormir.
— Que nada kkk como vai?
— Estou ótimo, e você?
— Estou bem também. Aqui está um pouco do mesmo, mas não posso reclamar. Tive aventuras demais nessa viagem.
— Foi tão bom assim? O que aconteceu de tão legal?
— Uma pessoa muito importante começou a ter uma relação romântica comigo.
— Você está namorando Thomas.
— Credo, deixa eu manter o suspense.
— Vocês dão muito na cara. Hauahauha
— To aprendendo isso agora. É tão na cara assim? Kkk
— Tenha certeza que sim. Muito óbvio, muito óbvio. — Não evitei um sorriso ao ler isso. A madrugada seguiu com uma ótima conversa com Henrique, foi bom conversar novamente com ele, mesmo que pela web. Cerca de 3 da manhã me despedi dele e então fui dormir, meus olhos já estavam pesando.
—-xXx--
— Me conte tudo da viagem. — Minha mãe colocou ração para o cachorro. Decidi chamá-lo de Doguito. Às vezes os céus me revelam que eu sou horrível com nomes.
— Foi muito legal. Nadamos no lago, quer dizer, eles nadaram, — Ela fez uma cara de surpresa. — fizemos trilhas e até acendemos uma fogueira. Conheci uma pessoa nova e foi tudo isso, fim. — Conclui, sorrindo.
— E como você quebrou o celular? — Ela perguntou, indo até a pia terminar de lavar os pratos.
— Eu peguei ele de mal jeito e derrubei, só o chip tá prestando agora. — Falei, pedindo por dentro que ela não pedisse mais detalhes de minha mentira.
— Tome cuidado com o novo. — Minha mãe avisou, eu tinha certeza que não iria ganhar outro tão fácil assim.
— Certo, eu prometo que não vai acontecer de novo.
—-xXx--
Novamente eu olhei a vidraça da porta de entrada. Parecia que havia anos que eu estava nesse mesmo lugar e Thomas era apenas um amigo para mim. Todas as lembranças antigas voltavam na minha mente. Principalmente um dia em que Thomas me perturbou em um dia que eu fui até o parque, não fazia muito tempo que eu me acidentei. Nossa, nem sei como fui me tornar amigo dele, mas ele acabou se tornando uma ótima pessoa com o passar do tempo.
Abri a porta e Samuel passou de bicicleta, isso me arrepiou pois a cena pareceu idêntica àquela da semana antes da viagem. Dessa vez, ele parecia um pouco triste e Wesley não estava seguindo-o. Pensei em falar com ele, quem sabe animá-lo. Passei tanto tempo sem vê-lo que não ligo mais para o que ele fez. Não, aqueles socos foram uma péssima coisa de se fazer comigo. Ele merece. Antes da primeira palavra sair de minha boca, resolvi caminhar na direção oposta de Samuel, até uma loja de HQs e livros que ficava uns 6 quarteirões de distância.
Abri a porta e Ana estava no caixa, pagando o primeiro volume de Jogos Vorazes que acabara de comprar. A loja sempre estava bem arrumada, eram tantos livros e histórias em quadrinhos que mal dava para estipular uma quantidade.
— Olá, Jean. — O gerente me cumprimentou, eu já passei tanto tempo de minha vida dentro desse local que me tornei familiar aos funcionários.
— Jean? Como vai? Tudo bem? — Ana perguntou-me, guardando o livro em sua bolsa. Ela estava mais arrumada do que andava no sítio.
— Oi! Tudo bem, e com você? — Perguntei.
— Estou ótima, obrigado. Bem, preciso ir agora, vamos marcar com o povo para nos vermos depois? — Ela caminhou até a porta e esperou minha resposta.
— Claro, vamos sim. Até mais. — Me despedi. Ana se despediu também.
—-xXx--
Eu estava deitado em minha cama, olhando o teto. Nunca me dei bem com o calor do verão. Já sinto falta da primavera chuvosa e do inverno friozinho. Suspirei, esticando o pescoço e pensando em algo para fazer. Parece que até o meu celular chegar só tenho a TV e o notebook. Thomas deve estar ocupado, assim como os outros. Talvez eu devesse iniciar uma nova história ou então um simples conto de capítulo único.
Acabei cochilando, já era noite quando acordei. Não me lembro de ter dormido, muito menos sonhado. Resolvi ir para a sala e assistir algo até o sono voltar e eu dormir de verdade. Demorou horas, mas ao menos eu consegui por minha série preferida em dia.
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