Entre os Garotos
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Há dias que tudo estava bem, as coisas saíam como o esperado. Quase tudo, Thomas e eu nunca tivemos a intenção de esconder nosso relacionamento, mas isso não era a mesma coisa que contar. Pergunto-me, por que contar é tão libertador? Talvez seja pela forma que tudo é liberado do nosso corpo, ou uma forma de resistência.
O tempo que eu estou ao seu lado sempre passa tão rápido e eu não consigo satisfazer-me. É como se meu corpo fosse viciado nele. Uma dependência que liberta a alma. Estávamos perto do Natal. Não tínhamos intenção de trocar presentes ou algo assim, mas eu não me importava.
As ruas estavam cheias de crianças que brincavam, correndo de um lado ao outro e gritando, tirando o sossego da rua. Era até bom, ao menos alguém não está preocupado com a vida. "Coisa de gente grande". Faltava um ano para eu oficializar que entrei na vida adulta.
— Ei, Jean! — Uma criança me chamou. Olhei para trás e logo identifiquei a garota, parando de pular a corda e vindo falar comigo.
— Quer brincar com a gente? Só segurar a corda, amarrar nas coisas é tão chato. Por favor! — Ela veio e segurou em minha mão.
— Adoraria, mas preciso comprar as coisas para fazer a ceia de Natal. — Expliquei.
— Mas é só semana que vem.
— Exato! Imagine se eu deixo pra comprar no dia e falta as coisas?
— Verdade.
— Se quiser ir comigo, na volta eu brinco com você. — Sugeri, vendo um sorriso no rosto da garota.
— Certo! Eu te ajudo a carregar. — Ela falou animadamente, andando na frente.
—-xXx—
A rua estava um pouco cheia, típico de feriado. O calor de sempre havia aliviado um pouco hoje.
— Uma semana pro Natal, Jean! — Thomas surpreendeu-me com um abraço por trás.
— Não faz isso comigo na rua, merda. Que susto. — Reclamei, olhando para trás com uma expressão negativa.
— Foi mal. Vou viajar amanhã, queria te avisar isso antes de ir.
— Até quando?
— Semana que vem eu volto. — Ele balançou os ombros e então suspirou, olhando para o lado.
— Maravilha. — Falei, olhando a calçada do outro lado da rua e vendo Samuel e Wesley se aproximando.
— Vocês dois andam muito coladinhos ultimamente. — Samuel falou, sorrindo maliciosamente.
— Nada diferente de vocês. Caralho hein, vocês não sabem andar sozinhos? — Falei, brincando com o bom senso deles. Seria burrice fazer algo numa rua cheia de pessoas.
— Você não sabe o que fala! — Samuel veio até mim com uma expressão séria e ameaçadora.
— Eu sei exatamente o que estou falando. Cara, se você quer enfiar esse pauzinho em Samuel, tenho certeza que ele vai te receber de braços abertos. Ou de pernas abertas, você escolhe. — Falei. Eu não sabia por que estava falando isso, mas já tinha tanta coisa presa na minha mente sobre esses dois que eu precisava aliviar.
— Eu não preciso fazer o que vocês dois fazem! Eu sou homem, porra. — Samuel falou, fechando a mão e dando a ideia de que ia me socar.
— O que você tá pensando? — Thomas perguntou, colocando-se na frente.
— O que eu devia ter feito há muito tempo! — Esbravejou o outro, Wesley apenas olhava tudo isso.
— Então é isso? Vai! Me bate! Você realmente quer fazer isso? Sabe, todos esperavam mais de você, mas você resolveu ser esse ser patético que é agora! Tudo isso porque você não sabe escolher algo sem ser seguindo a porra do que você acha que te dará mais moral. Mas acredite, ninguém ali gosta de você, Samuel. — Apontei para ele, todos estavam calados. Então apontei para Wesley e continuei a falar. — E você também! Tudo o que vocês fazem é girando em torno de algo para se acharem superior, mas vocês são patéticos! Vocês sabem que essa fama só vai durar um ano, ou menos. Todos nós vamos nos separar e vocês estão fazendo esse último momento ser um prazer, pois nunca mais veremos vocês! E eu duvido você comprar briga com alguém do trabalho, se é que vocês vão trabalhar. Vocês não passam de adolescentes mimados pela vida e pela facilidade dela, espero que melhorem, pois vocês me dão pena! — Samuel abaixou a mão e então deus as costas, Wesley continuou sem falar nada e Thomas colocou a mão em meu ombro.
— Vocês não negaram que se gostam. — Samuel fez uma observação, ainda de costas.
— Sabe de uma? Você está certo. — Thomas falou, indo embora. Ninguém falou mais nada e cada um voltou para o seu canto. Acho que faz muito tempo que eu não via um clima tão pesado, mas eu estava feliz.
— Agora você sabe o que fazer, né? — Perguntei, olhando para ele com grande preocupação.
— Como assim?
— Se você não contar, eles contam. Decida o que é pior.
— Eu ferrei com tudo, não foi? — Thomas falou, mas ele não demostrava tristeza. Nós sabíamos que isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde.
— Até depois, é melhor contarmos agora. E você não ferrou com nada. — Falei, despedindo-me e indo até minha casa.
—-xXx—
Cheguei na porta de minha casa, a hora de um dos momentos mais decisivos da minha vida. Tudo ou nada. Ao entrar, minha mãe estava preparando a janta e meu pai estava no sofá mexendo na TV. Deveria ter quebrado enquanto eu estava fora.
— Ah, merda. Pelo visto não vou conseguir resolver isso. — Disse Alisson. É muito estranho falar “Alisson e Beatriz”, então vou simplesmente falar Pai e Mãe. Então, disse meu pai.
— Mãe... — Falei, puxando alguma coragem dentro de mim para prosseguir.
— O que foi? — Ela falou, ainda preparando as coisas na cozinha.
— É que...
— O que foi, Jean. Desembucha, garoto. — Meu pai sentou do meu lado, praticamente já desistindo da TV.
— Eu sou gay! — Falei em bom som. Os segundos que seguiram essas palavras pareciam durar uma eternidade. Os dois olharam-me por uns segundos, não disseram nada.
— Ah, meu Deus... — Mamãe largou a cozinha e sentou do meu lado.
— Eu... — Meu pai me abraçou, mas ficou em silêncio por um momento.
— Ei, porque não falou sobre isso antes? — Ele perguntou. Não saiu como eu esperava. Eles entenderam tudo muito bem.
— Eu não sei.
— E Thomas sabe? Meu filho, esse mundo não é um bom lugar para pessoas como você. — Minha mãe parecia muito preocupada.
— Thomas e eu...
— Ah, certo.
— Filho, você sabe que os pais dele não vão aceitar isso, certo? — Meu pai colocou a mão em meu ombro.
— Eu sei muito bem, mas eu tive que contar isso. Ou Samuel e Wesley iriam contar. Então seria mais fácil vocês ouvirem por mim. — Falei, uma parte de mim parecia se sentir culpada.
— Filho! Tudo bem. A gente já passou por isso antes. — Meu pai confortou-me, puxando-me em outro abraço.
— Quem? — Perguntei, olhando minha mãe.
— Seu tio, Gabriel. Ele também era gay, mas...
— Como eu disse, o mundo não é bom para pessoas que são como vocês. Qualquer LGBT. — Ela falou, sorrindo. Não era um sorriso de alegria, apenas de conformação.
—Ele morreu por...
— Sim, atacaram ele enquanto ele ia para uma festa. Ele tinha uns 27. Eu nunca vou esquecer do meu irmão, Jean. Ele sempre foi uma pessoa ótima, assim como você. E é por isso que eu nós sempre apoiaremos você. — Meu pai falou, sorrindo.
— Obrigado, estou muito feliz por saber que vocês não estão decepcionados comigo.
— Nunca diga isso. Nós nunca nos decepiconamos com você. — Minha mãe falou severamente.
Tudo parecia incrível hoje. Mas eu sabia que as coisas não devem ter sido fáceis para Thomas. Espero que tudo esteja bem, de verdade. Naquela noite eu dormi tranquilamente, sentia-me bem por estar livre desse fardo que é o armário.
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