Entre os Garotos
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Acordei saltando de felicidade. A lembrança da noite anterior me fazia voar nas nuvens de tanta alegria. Porém tinha uma coisa que me prendia no chão, me fazia tremer apenas de pensar a respeito. Como será que meus amigos iriam me tratar após descobrir que Thomas e eu somos gays? Isso me fazia perceber que nosso amor poderia ser frustrado. Mas de uma coisa eu tenho certeza, lutaria até o fim para torná-lo eterno.
Eu odiava a incerteza que a vida carrega, porém sabia que sem essa incerteza a vida seria muito sem graça, não valeria a pena viver sabendo tudo o que iria acontecer em seguida. Na verdade eu passei a odiar a incerteza depois me importar com alguém, Thomas. Realmente me importar, eu queria viver ao lado dele, como amigo ou como... algo mais. E, atualmente, espero que seja esse "algo mais".
Ainda não me acostumei que isso é real. Eu gostar de alguém e esse alguém gostar de mim também. Eu estava assistindo um filme na sala, Thomas estava ao meu lado. Ambos nos olhávamos, quase nos comunicávamos telepaticamente, nós não podíamos falar a ninguém. Algo como "nosso segredinho". Porém o fato de que eles não podem saber me impedia de beijá-lo. André entrou na sala, sentando no outro sofá que ficava afastado por uns passos do qual eu e Thomas estávamos sentados.
— Então, qual o sentido desse filme? Cadê as mortes? — André perguntou.
— Um filme não precisa de morte ou violência para ter sentido. Basta apenas ter algo para se importar. Talvez um amor, uma situação, uma doença, os malditos cachorros que morrem... — Expliquei.
— Realmente as coisas podem ser assim, porém as mortes são fontes de diversão. — Disse André.
— Claro, você é a criatura mais viciada em filmes de ação que eu já vi. — Disse Thomas, brincando.
— Olha aqui, não me chame de uma mera ‘criatura’, me chame de ‘ser perfeito’, e me beije. — André se levantou e se aproximou de Thomas. O olhar de Thomas se encontrou com o meu e então ele recuou. André não entendeu, talvez ele pensou que Thomas realmente acreditou que ele iria beijá-lo, de certa forma até eu acreditei. Senti uma vontade inexplicável de afastar Thomas dele, talvez isso seja ciúmes.
— Ei! Vão para dentro do quarto! — Ana entrou na sala, aposto que ela pegou apenas a ponta da conversa deles.
— Vamos focar no filme, por favor? — Perguntei, tentando voltar minha atenção para o filme.
— Gente, Jean tem razão. Parem de se pegar aqui e vão para o quarto. — Ana respondeu, fitando os dois.
— Ei, não fala isso. — Thomas respondeu, um pouco sério.
— Qual é, Thomas. Eu sou tão ruim assim? — André colocou a mão na coxa de Thomas enquanto ria.
— Puta que... nossa... — Thomas se levantou e saiu da sala, André foi atrás dele. Agora eu estava sozinho com Ana, ela começou a me olhar de uma maneira diferente.
— Tom? Ei, volta aqui! — Deu para ouvir a voz de André, acompanhada pelo barulho de seus passos pela casa, em direção ao lado de fora.
— Vou ser direta. Jean, o que foi aquilo? — Ana perguntou, pegando minha mão.
— É que... eu fiquei nervoso, não pensei em nada. Apenas queria fugir de tudo isso. — Tentei me explicar, apesar de ocultar uns fatos.
— Jean, você não gostou de mim? — ela perguntou. Como eu poderia desviar essa sem dar brecha, sem ela saber que sou gay?
— Deixa de confrontar ele, Ana. — Thomas voltou à sala, me salvando, meu herói.
— Mas... Eu apenas queria saber o porquê. — Ela se explicou, olhando para ele.
— Eu... não me sinto confortável, Ana. — Falei, mesmo que, de certa forma, seja verdade, me sentia mentindo. Ela suspirou e então saiu da sala, deixando-nos sozinhos novamente.
— Cara, ela tá muito triste agora. — Thomas se aproximou de mim, sussurrando.
— Creio que não tinha melhor forma de lidar com isso. Eu não quero que ela saiba que somos... você sabe. — Falei na mesma intensidade. — Eu quero você, Thomas. — Segurei a mão dele. Soltei quase que imediatamente ao escutar sons de passos descendo as escadas.
— Ei, como estão? — André abraçou Thomas e me abraçou em seguida.
— Hoje vamos fazer algo especial, Jean. — André falou.
— O que vocês querem dizer com "especial"? — Perguntei, começando a duvidar do rumo da conversa.
— Hoje, você tocará seus doces e inocentes lábios em álcool. — Disse Fernando, entrando com um engradado de bebida alcoólica, Rebeca trazia mais um com ela.
— Sem pressão, claro. — Rebeca completou enquanto ia até o freezer que estava na cozinha. Fernando a acompanhou.
— Sem pressão? Sou obrigado a fazer isso? — Perguntei, eu estava começando a me assustar com esse papo.
— Relaxa, se você não gostar, pode parar. Na hora que quiser. — André voltou à sala, sentando-se no sofá.
— Maravilha! Agora eu posso me sentir menos forçado. Quer dizer que ainda serei obrigado a dar o primeiro gole? — Perguntei, revirando os olhos. Porém eu não tinha certeza que odiava isso, uma parte de mim queria beber.
— Jean, só um gole? Eu prometo que você não será forçado. — Thomas me perguntou, sua voz soava doce. Um doce diferente, ele realmente me respeitava. Não como um amigo, por um momento senti ele me colocando acima dele.
— Você promete? — Perguntei.
— Claro, você tem voz. Sabe disso, certo? Nós te respeitamos. — Ele sorriu, acho que ele quis dizer que eu tenho opinião na casa. Ele sabe que me sinto deslocado.
— Você promete? Claro! Ai, vamos casar! — André caçoou de nossa conversa. As bochechas de Thomas coraram, eu apenas olhei para André de forma severa.
— Ok, talvez eu case. — Olhei para Thomas, André riu, porém Thomas aparentou estar mais envergonhado ainda.
— Parem com isso. — Fernando voltou à sala, nos olhando. Pelo visto, Rebeca estava na cozinha colocando as bebidas no freezer. André nos olhava com uma expressão que deixava claro a vontade dele de falar algo, devia ser coisa ruim.
–-xXx--
Finalmente anoiteceu, comecei a ficar nervoso. Normalmente, as pessoas bebem à noite, e aquelas bebidas estavam no freezer faz tempo. Fazia um tempo que tínhamos lanchado, deveria ser a hora do jantar.
— Hoje vamos passar a noite atrás daqui, vendo aquela paisagem. — Disse André.
— Mas vai ficar tudo escuro, nem poderemos ver a montanha naquele escuro. — Disse Rebeca.
— Você sabe que temos lua, certo? — André retrucou.
— Você sabe que a lua não é o sol, certo? — Disse Rebeca, mais uma vez.
— Chega, acho que devemos ficar lá até ficarmos com sono, aí voltamos para cá. — Sugeri.
— Certo, quem concorda com isso? — Thomas perguntou, todos olharam-se de forma desconfiada, porém acabaram concordando comigo. Pude notar o olhar de Thomas, ele me olhava como se essa noite seria difícil. Logo percebi que passar uma noite sem poder ser quem eu quero ser ou estar ao lado de quem eu quero estar é realmente doloroso, dói a angústia que fica em meu peito. Eu me sinto preso, privado de estar ao lado dele. Sinto que ele está passando pelo mesmo problema. Como eu não percebi antes? Talvez nossa relação seja nociva.
— Então vamos! — Rebeca e André traziam duas caixas de isopor com as bebidas dentro. Fernando veio logo atrás, com uma caixa com salgados e outras comidas nem tão saudáveis dentro.
— O que foi? Não vou abandonar meus doces! — Ele explicou-se, andando até a porta. Sem precisar dizer nada, todos fomos até o local marcado, ficava cerca de 100 metros da casa.
Era lua cheia, tudo parecia um pouco mais claro que o normal, mas as montanhas distantes ainda dividiam o céu com sua cor negra. O local tinha iluminação, ainda que um pouco fraca, dava para ver o ambiente e os obstáculos ao redor.
— Ei, vocês acham que existe alguma coisa naquela montanha? — Perguntou André, sacudindo um galho que ele encontrou no meio do caminho.
— Bem... a gente passou por lá durante a trilha, logo tem coisa lá. Animais, plantas... — Expliquei a ele.
— Não é isso o que estou falando! — André fez um forte cafuné em mim. — Estou querendo saber se lá tem algo macabro, talvez um assassino. — Ele me soltou ao concluir a frase.
— Lá tem floresta! Não é um centro amaldiçoado! — Thomas falou, enquanto ajudava Rebeca e André a colocarem as coisas no chão, Ana trouxe um pano e colocou sobre o chão. Thomas me ajudou a sentar no chão, junto com todos os outros. Ele sentou ao meu lado, todos sentamos em círculo.
— Ok, e daí que lá é floresta? Maioria dos filmes de terror se passam em florestas... ou em casas de viagem. — Disse André.
— Agora que você falou... — Ana abraçou a si mesma. André passou seu braço sobre o ombro dela.
— Eu vou te proteger! — Todos riram.
— Agora sim fiquei com medo! — Ana fingiu preocupação.
— Ainda bem que não preciso defender Rebeca, meu amor sabe como nocautear qualquer coisa. — Fernando a beijou, os dois trocaram os típicos olhares de apaixonados.
— Por favor, parem com essa meleira! Vou atirar os dois pela montanha! — Ana gritou, apesar de rir, aposto que falava sério. Thomas espreguiçou-se e colocou sua mão sobre a minha. Ao perceber, ele afastou-a.
— Vamos começar a bebedeira! — Ana abriu o isopor e tirou várias bebidas, que foi passando de uma em uma até todos estarem com algo na mão. — Jean, vamos começar pelo clássico. — Ana colocou uma latinha de cerveja em minha mão. Instintivamente dei um gole, era ruim, amarga. Automaticamente me perguntei como eles conseguem beber esse troço. Só tinha um problema: Eu adoro coisas amargas. Dei outro gole, todos estavam me olhando como se isso fosse grande coisa. Bestas.
— Parem de me encarar! É meu rosto ferido, certo? — Perguntei, tentando soar engraçado.
— Continua bebendo! — Rebeca ordenou, brincando. Dei outro gole, depois de um tempo peguei outra lata, depois outra.
–-xXx--
Acho que um trator me atropelou, não... um trator me atropelando seria misericordioso demais. Creio que toda a merda que eu fiz ontem veio bater na porta da minha vida e levou minha camisa, onde estava minha camisa?
— Thomas, você precisa comprar outro. Sério. — André passou pela porta do quarto e me viu acordado na cama.
— Outro o quê? — Perguntei, cada coisa que eu escutava parecia uma martelada diretamente em meu crânio.
— Seu celular, Jean... você não se lembra? — Ele perguntou, seu semblante aparentava dúvida.
— O que aconteceu com meu celular? — Perguntei, começando a me assustar.
— Depois de você dar uma crise de risos, abraçar Thomas por 10 minutos e dizer que é 'duas rodinhas', você atirou o celular na parede enquanto chorava. — Ele me olhou sem esboçar um sorriso sequer. — Aqui está seu chip. — ele colocou-o na minha mão.
— Me empresta teu celular, rápido. — Falei, André colocou o celular dele em minha mão. Minha mãe deveria estar pirando, um dia inteiro sem responder as mensagens dela.
— Ei, porque você está tão nervoso? — André me perguntou, sentando-se em sua cama.
— Não é nada demais, só preciso de dois segundos. — Como explicar a ele que sou um filhinho da mamãe? Me certifiquei de apagar a mensagem que enviei para minha mãe da caixa de saída, então devolvi o celular a ele.
Pude ver no relógio que eram 13:45, acordei muito tarde. André se levantou e saiu do quarto após eu devolver o celular. Fui até o banheiro, escovei os dentes, tomei banho. Após eu sair do banheiro, Thomas entrou em seguida no quarto, aqueles olhos verdes me tiravam o fôlego e, mais uma vez eu queria-o para mim, queria seu corpo contra o meu, abraçando-me.
— Tom, eu... — Thomas fechou a porta do quarto. — isso não vai levantar suspeitas? — Perguntei.
—Todos estão ocupados arrumando a casa depois dos seus vômitos. — Ele falou, sentando-se em minha cama, acompanhei ele e fiquei ao seu lado.
— Agora percebo porque eu me senti tão estranho quando acordei.
— Nem me fale, você apagou legal. Até tivemos que tirar sua blusa, você fez um estrago nela. — Suas bochechas coraram, ele desviou o olhar. S vergonha veio em dobro para mim, eu não possuía um corpo admirável.
— Você sempre cuidou de mim, Thomas. — Falei, olhando para o chão. — Acho que não consigo cuidar de mim mesmo.
— Cala a boca! Consegue sim, você já me salvou. Pense em nós como uma dupla, não como uma relação de proteção ao mais fraco. — Ele colocou suas maos em meus ombros. — Além disso, você é bonito, Jean. Eu te amo, assim como quero beijar esses lábios avermelhados... — Thomas se inclinou sobre mim e deitou na cama, ele estava com uma bermuda de pano fino, o que ajudava na mobilidade. Ele veio engatinhando por cima de mim, que estava deitado na cama. — Eu te amo como um todo. Nem mais, nem menos. Se aproximando ainda mais, ele me beijou. Dessa vez não houve as partes ruins, como o coração acelerado ou a vergonha. Pude aproveitar a sensação de estar ao lado dele e poder me expressar da forma que quero. Thomas colocou a mão em minha cintura, eu coloquei as minhas ao redor de suas costas, quase indo em sua nádega. Cada toque, cada movimento, tudo gerava um arrepio indescritível. Minha respiração começou a acelerar e seu rosto ficou próximo ao meu. Pude sentir sua respiração em meu rosto.
De inicio ele apenas me beijou afastado, mas, depois de alguns minutos, seu corpo se encontrou ao meu. Durante um tempo, percebi que seu membro encostava em mim, achava que iria enlouquecer se isso ficar apenas nas preliminares, porém não me sentia preparado para ter um algo a mais, não naquela hora. Não era minha culpa, Thomas.
— Não posso... — Falei, tomando fôlego, ele me soltou.
— Onde eu estava com a cabeça? — Ele perguntou, retoricamente. Thomas saiu do quarto, deixando a porta aberta.
— Eu não sei como fazer isso. — Coloquei a mão em minha cabeça, frustração me resumia perfeitamente agora. Como é que eu poderia fazer sexo?
Fale com o autor