Entre os Garotos
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Já era 4 de Dezembro. Creio que já vi e aprendi tanto nesse local que valeu por dois. E finalmente achei algo para me importar. A cada vez que pensava nele, eu sorria. Não precisava ter um motivo, se ele estivesse lá, eu sorriria. E na maioria das vezes ele retribuía ou chorava. Sim, ele chorava as vezes. Ele chorava por ser gay. Ele tinha medo de sua família, talvez tinha mais medo de não ser aceito e entendido do que morrer. E eu tinha medo de perdê-lo. Achava que não era paréo numa luta contra sua tristeza. Mas lutaria por ele, para não vê-lo chorar. Eu lutaria para não ficar longe dele. Não queria perdê-lo por nada no mundo. Eu o colocaria acima de mim a qualquer hora.
Eu queria estar ao lado dele até o fim. Não tínhamos esse papo de que nos completávamos, eu acreditava que ele me complementava, não sou uma metade. Creio que ele não pensava ser uma metade, queria que ele soubesse o quão é importante para mim.
Engraçado, desde o dia que eu impedi minha primeira vez, Thomas estava tentando descobrir o motivo, porém não contaria a ele. Eu sentia vergonha em não saber o que fazer numa cama, eu não sabia como fazer isso no meu estado atual. Penso que ele riria de mim. Talvez isso quebraria o clima que tínhamos naquela hora.
— Então, como você se imagina daqui a 10 anos, Jean? — Fernando me perguntou. Todos nós estávamos na sala, uns nos sofás, outros no chão. André estava sentado no chão e eu estava em minha cadeira. Fazia um tempo que eu me olhava no espelho e me via como um igual, não me importava em estar ligado a essa cadeira, não me importava com mais com nada. Essas pessoas me ensinaram o lado bom da vida, e esse lado era divertido também. Finalmente pensava que iria ser alguém.
— Sinceramente? Não sei ainda. Quero ser escritor, mas tenho medo das aventuras que escritores geralmente passam. — Respondi. — E você?
— Eu trabalho na loja de meus pais, creio que assumirei os negócios depois deles. — Fernando respondeu.
— Tom, e você? — Ana perguntou, resolvi prestar uma maior atenção na resposta de Thomas. Eu não sabia o motivo, mas, pela primeira vez, eu realmente me preocupava com o futuro dele.
— Meu futuro? Não sei, penso em fazer direito. Sei que é arriscado, posso não gostar, mas me identifico. — Ele respondeu.
— Eu quero ser veterinária, na verdade queria ser médica, porém tenho medo de ter uma vida humana em minhas mãos, isso é normal? — Perguntou Ana.
— Um pouco estranho, mas até que tem sentido. — Disse André, rindo um pouco. A risada dele fez Ana rir, e logo todos estávamos rindo descontroladamente devido a risada estridente de Ana.
— Nossa, vou fazer algo para eu comer. — Rebeca se levantou, indo até a cozinha.
— Faz para mim também? — André pediu a ela.
— Qual a parte de 'eu' você não entendeu? — Ela entrou na cozinha, enquanto André suplicava por comida.
— Credo, André, você parece um esfomeado! — Disse Ana, fazendo uma cara feia a ele.
— Vocês querem assistir 'Sempre ao seu lado'? — Perguntei, procurando no menu da locadora virtual.
— Não estou pronto para ter meus sentimentos destruídos. Coloca 007. — Thomas sugeriu.
— Eu gosto do cachorro, coloca esse mesmo. — Ana se inclinou um pouco mais para frente, na intenção de participar da seleção dos filmes.
— Mas o cachorro morre! — Thomas falou, achando esquisito.
— Foda-se! Ele é legal, não interessa se morre ou não. — Ela tomou o controle de alguém e então colocou 'Sempre ao teu lado'.
— Esse filme não... — Thomas, colocou a mão no rosto, tapando os olhos.
— Vai chorar igual um viado? — André zombou dele. Percebi as mãos de Thomas fecharem de raiva, ou vergonha.
— Para de falar assim de mim, por favor. — Thomas pediu educadamente, sua voz soava séria demais.
— De repente você está meio gay, Thomas. Você é mais uma dessas bichinhas? — André riu, obviamente estava brincando. Porém, ele não teve noção da mancada que estava fazendo? A raiva no rosto de Thomas era notável.
— Deixa de falar merda, André! — Respondi, com um tom áspero.
— Não estou fazendo nada demais, vocês dois estão engraçados. — Ele riu, voltando a focar no filme que Ana acabara de colocar.
–-xXx--
— Você está acabando a sua ficção? — Rebeca perguntou, sentada ao meu lado. Eu estava usando o notebook na mesa de jantar, todos os outros estavam na sala ou do lado de fora da casa.
— Sim, cheguei na melhor parte. — Falei, entusiasmado.
— E qual é? — Ela perguntou, aproximando-se mais.
— O desfecho, a hora de decidir o que acontecerá com cada um. — Falei, sorrindo.
— E você tem ideia do desfecho? — Rebeca me perguntou.
— Olha, tenho apenas o rascunho. Na hora H, tudo se escreverá por si só. — Respondi, parando de escrever,
— E, por acaso, as histórias se escrevem sozinhas? — Rebeca perguntou a mim.
— Mais ou menos. Tem vezes que os personagens tomam conta de si mesmos, aí não sabemos o que acontece. É bem louco, eu sei. — Respondi, mais uma vez.
— Eu já pensei em escrever uma fic. Dá medo, minha escrita não é lá essas coisas e, ainda por cima, não sei se meu enredo é bom. — Disse Rebeca, apoiando o cotovelo na mesa.
— Não tem essa, se melhora com o tempo, com ajuda e com estudo. — Falei. Rebeca sorriu, se levantando.
— Acho que você tem razão. Quem sabe um dia minha fic aparece por aí. — Disse ela, caminhando até a porta e acenando. Voltei a escrever. Justice era uma personagem muito difícil de lidar, todas as suas emoções. Já se passou cerca de vinte minutos, creio que já está bom assim. O legal é que não houve um romance sequer.
— André foi um idiota. — Thomas sentou ao meu lado, olhei para ele, tentando digerir o súbito inicio do papo.
— Cara, não fique assim. Ele só está brincando. Se ele soubesse de verdade, iria entender numa boa. — Falei, tentando confortá-lo.
— Acho que você tem razão, obrigado. — Ele se levantou, veio até mim e me deu um selinho e foi embora. Fui pego de surpresa, olhei para os lados e senti minha face corar. Só faltava essa, ele se arriscou tanto por um selinho? Se é que isso é se arriscar. Ainda me pergunto o porquê dele sempre me deixar tão confuso.
–-xXx--
Já era tarde da noite, todos já tinham ido dormir, com a exceção de André, que estava assistindo filmes.
— Às vezes esqueço que vivemos num sério problema com essa merda de sociedade. — Disse Thomas, deitado em sua cama.
— Como assim? — Perguntei, deitado na minha.
— Bem, tem toda essa coisa de como um homem deve se comportar. Como não podemos nem segurar nossas mãos por medo de ser agredido. Tudo precisa de um padrão nessa merda. — Ele falou, soando indignado.
— Ah, sim. Você tem razão, mas não podemos fazer nada. — Falei, sem esperança alguma.
— Sim, somos apenas dois contra vários bilhões. Isso é uma merda. — Ele se virou, olhando para mim.
— Sim. Eu tenho medo, Jean. Medo de minha família. — Thomas desabafou, parecia envergonhado em dizer isso, mas ele não tem culpa de sentir nada disso.
— Pelo menos você já sabe a resposta, sei que isso não é uma coisa boa de se falar, mas eu não sei nem como minha família irá reagir. Isso me dá medo também, mas, olhe para nós, estamos aqui e estamos vivos. – Sorri para ele, tentando confortá-lo por um momento.
— Ser gay é uma coisa nova para mim, não sei como reagir. — Ele desviou o olhar de mim, focando no chão.
— Gostar de alguém é uma coisa nova para mim. E eu sei como reagir. Cara, pela primeira vez em muito tempo eu sei o que fazer. — Falei, sorrindo discretamente.
— Como assim? Não é você a pessoa tímida? — Ele perguntou, recuperando o tom humorado de sempre.
— Com você, eu consigo ser eu mesmo. Não preciso me esconder. — Ele virou o rosto, foi aí que eu pude entender que ele ainda me via como o melhor amigo dele, apesar de gostar de mim como algo mais.
— Você é sempre tão calado. Eu adoro quando você é você. Quando você está comigo, sinto uma diferença em você. — Ele falou, voltando a me olhar.
— Queria você aqui comigo. — Falei, virando para o outro lado.
— Não podemos, não agora. — Disse Thomas.
— Vou beber um pouco de água. — Falei, indo até minha cadeira e me dirigindo até a cozinha. Tudo estava muito silencioso, fui ao quarto de Fernando. Ana dormia tranquilamente na cama de Fernando. Se Ana está aqui, Fernando está...
Fui até a cozinha e bebi um copo de água, no caminho de volta, a porta do quarto de Rebeca estava entreaberta, havia uma fresta que revelava o que se passava lá dentro. Rebeca estava sobre Fernando, o beijando, e suas pernas estavam abertas, por cima dele. Ambos estavam nus.
Voltei ao quarto, Thomas me olhou com uma cara estranha.
— Parece que você viu um fantasma. — Brincou Thomas, rindo.
— Quem dera que fosse um fantasma. — Falei, voltando para a cama.
— O que foi que aconteceu de tão errado? — Ele se apoiou sobre o braço, ficando quase sentado na cama.
— Você não vai querer saber, sério! — Sorri de vergonha, tentando esquecer o que vi. Segunda vez que vejo alguém nu dentro dessa casa. A regra é clara, o que foi visto não pode ser desvisto.
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