Entre os Garotos
20 Capítulo 20
Notas iniciais
Chegamos no Natal, o ano está acabando e eu não tenho ideia do que estou fazendo da minha vida. Às vezes me sinto na necessidade de poder voltar no tempo e recapitular todo o ano novamente. Está sendo um final de ano bastante corrido, principalmente por tudo o que está acontecendo entre Thomas e eu. Mas eu sinto que as coisas vão melhorar a partir de agora, de verdade. Isso me assusta, saber que as coisas vão começar a dar certo. Estou acostumado a me ferrar 24h por dia. E olha que o dia só tem 23:56. Quatro minutos extras para me foder no espaço-tempo. Rainha do drama, creio que estou exagerando. Mas o que é que estou falando? Minha família me ama e eu tenho bons amigos.
Essa semana sem ver o Thomas serviu para fazer algumas boas coisas, tipo começar a pensar nas novas histórias que eu escreveria. Minha família parecia estar mais próxima de mim, mesmo sendo apenas nós três, eu me sentia totalmente preenchido por amor. Devo confessar que fazia um tempo que eu não me sentia assim.
Saí de casa e fui me encontrar com Thomas, ele já deve ter chegado da viagem e faz um tempo que eu sequer falo com ele. Andei até sua casa, passando pela rua barulhenta em que as crianças ainda brincavam. Dessa vez Natalia não estava lá. Aliás, ela é a garota que brincou comigo semana passada. Acho que está ajudando sua mãe a preparar as coisas para a ceia. Ao chegar na casa de Thomas, percebi que havia mais gente que o normal, creio que seus familiares vieram junto da viagem. Não, eles estavam com umas roupas muito parecidas, tenho quase certeza que são da igreja.
Acenei para Thomas, que estava na janela de casa. Ele rapidamente percebeu, mas fez uma cara preocupada e veio em minha direção.
— O que você está fazendo aqui? O povo está irritado pra caralho comigo.
— Calma, só queria dizer um oi. Já estou de saída. — Falei, demostrando insatisfação.
— Por favor, não pense errado, tá? Eu só estou bastante ferrado por agora. — A mãe de Thomas colocou o rosto para fora da janela. — Preciso ir. — Ele falou, voltando para dentro.
— Bem, fale comigo on-line! — Falei um pouco alto, mas não o bastante para sua mãe ouvir.
— Pode deixar.
—-xXx--
Pela primeira vez na minha vida estou vendo de verdade o que é me importar com alguém e me sentir impotente. Eu não consigo ajudá-lo com tudo isso aconteceu e ninguém tem culpa. Não sei o que fazer, se devo fazer algo. Tudo o que me vem na mente é que eu devo esperar. Aguardar algo que eu nem sei o que é, mas apenas busco que tudo isso melhore.
O teto do quarto era uma tela de memórias em minha mente. Fechei meus olhos e apenas pensava que Thomas provavelmente estava passando por problemas na casa dele. Tudo por culpa de seus pais. Algumas lágrimas escapavam de meus olhos. O celular começou a vibrar em cima da mesinha. Estiquei-me e peguei o eletrônico, havia uma mensagem de André.
"Vamos nos encontrar, tá todo mundo se arrumando. Lá na praça, vê se aparece." Eu já estava arrumado, então apenas levantei e fui até lá. A única praça perto da vizinhança. Havia várias pessoas circulando na rua, mas maioria se dirigia para casa. O calor hoje deu uma trégua, creio que uma frente fria está passando por aqui. Sentado no banco, senti uma mão tocar em meu ombro.
— Thomas não pode vir. — André falou, sentando ao meu lado.
— Sei bem por quê. — Falei, olhando uma mulher atravessar a pista na minha frente.
— Jean, o que está acontecendo? — Ele perguntou-me, estava verdadeiramente sério e preocupado.
— Eu conheço Thomas faz tempo, a mãe dele nunca impediu ele de ir pra uma praça em menos de um quilômetro de distância de sua casa.
— Cara, deu merda. A mãe dele soube sobre nós. — Falei, estava sorrindo de tão triste e perdido. Como se meu corpo tentasse balancear o tanto de merda que ocorria dentro de mim.
— Poxa. Se acontecer alguma coisa, ele sabe que pode contar comigo. Espero que as coisas melhorem.
— Já é quase noite, cadê os outros? — Perguntei, tentando mudar de assunto. Algumas lagrimas saíam de meus olhos.
— Ana e Rebeca vão demorar alguns minutos por causa do trabalho, Fernando de estar vindo aí. — Ele falou, olhando meus olhos e nariz avermelhado.
— Olha, Thomas vai ficar bem. Ele é um cada bastante duro, tenho certeza que a família não vai fazê-lo arregar de nada. — André colocou a mão em meu ombro.
— Eu só... Tudo isso é culpa daqueles dois. Porra. — Abracei ele realmente forte. Por uns segundos ele não retribuiu, mas então ele me envolveu em seus braços.
— Vamos fazer as coisas darem certo, qualquer coisa ele sai de lá! Eu entendo você estar preocupado com seu amigo de infância. Eu estou mal pra caramba também.
— Sua jaqueta está toda molhada. — Falei, afastando-me e sorrindo. Um vento frio passou, arrastando algumas folhas secas que estavam no chão.
— Ok, você estar sorrindo já é um progresso. — André ajeitou seu cabelo. — Vai ficar tudo bem. Você vai ver.
— Só precisava liberar meus sentimentos um pouco. — Ouvi passos e ao olhar na direção do som, pude ver Rebeca, Ana e Fernando se aproximando.
— Boa noite para vocês dois! — Disse Ana empolgadamente.
— Estou pronto para irmos pr'o restaurante. — Fernando falou, cumprimentando André e em seguida a mim.
— ‘Pera, vocês estão indo num restaurante? — Perguntei, bastante surpreso. — Você me disse que íamos nos rever nesta praça! — Falei para André.
— Claro, se eu dissesse que iríamos para um restaurante você iria negar. — Ele explicou, olhando-me com um sorriso besta.
— Te conhecemos melhor do que você pensa. — Fernando falou.
— Percebo.
—-xXx--
Já era bem tarde, eu estava deitado na minha cama. Hoje o dia foi bom, mas ao mesmo tempo foi muito triste. É difícil explicar. Tudo o que me restava agora é dormir. Fechei meus olhos e tentei pegar no sono, coisa que não vem fácil. Assim como todo o resto na minha vida.
Uma forte batida na janela acordou-me, imediatamente pensei que foi alguma invasão. Lentamente fui até minha cadeira, já temendo o pior. Ao lembrar que minha janela tinha uma falha que eu nunca contei para os meus pais, meu coração gelou. Sempre pensei que deveria contar que a tranca dela estava quebrada.
— Oi! — Thomas sussurrou alegremente, erguendo-se para dentro da janela. Meu coração deu um salto.
— Não faz isso, doente. Porra. — Reclamei, passando a mão no rosto e procurando aliviar-me.
— Cala a boca que seus pais vão acordar. — Thomas alertou, sentando na cama, ao meu lado.
— Acordariam se estivessem aqui. Eles saíram sozinhos depois de eu insistir para ficar.
— Jean, queria falar com você. — Thomas fez um silêncio e olhou seriamente para mim. — Me desculpe por mais cedo, eu fui rude.
— Tudo bem, deixa isso pra lá.
— Valeu, ouvir isso de você me deixa melhor. — Ele se jogou na minha cama e deitou nela.
—Você veio da rua e está deitado na minha cama, eu nem sei onde você passou! — Reclamei.
— Calma, estou limpinho. — Ele falou de uma forma que me fez rir. Deitei-me ao seu lado e sorri.
— Por favor, não faça nenhuma merda lá na sua casa. Mesmo que você esteja certo. — Segurei sua mão e falei tão sério que ele ficou uns segundos sem dizer nada.
— Eu sei. — Ficamos uns minutos deitados, apenas olhando o teto. Algumas sacanagens passaram por minha mente, mas eu não me sentia bem para fazer algo. O som do motor do carro rapidamente despertou a minha mente e Thomas levantou e saiu pela janela sem dizer nada.
Hoje o dia foi extremamente complexo, creio que nem tenho como descrevê-lo.
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