Entre os Garotos
17 Capítulo 17
Notas iniciais
Dois dias restantes de viagem, isso realmente me deixava ansioso porque tanta coisa mudou aqui. Creio que todos nós evoluímos. Nesse dia eu não quis sair da cama. Apenas fiquei lá, pensando nas coisas. Fui o último a acordar, isso realmente foi diferente. Eu sentia que tudo iria dar certo a partir daquele momento.
— ‘Tá chapado, Jean? — André entrou no quarto, indo até a gaveta qual ele guardava suas coisas.
— Sério que eu fico com cara de drogado enquanto estou pensando?
— Definitivamente. — Ele pegou um jogo de cartas e então foi até a porta. — Vem jogar com a gente?
— Claro, já vou. — Falei. Olhei pela janela, ainda deitado na cama. O sol estava perto do topo, devia ser quase meio dia. Dormi demais. Comecei a sorrir do nada, passei a mão no rosto e cobri meus olhos. Depois de me espreguiçar e tomar banho, fui até a sala e todos já estavam jogando.
— Vai ter que esperar essa acabar. — Rebeca alertou, olhando para mim de forma agradável, como se me cumprimentasse sem fazer gesto algum.
— Acabou! — Thomas tomou as cartas de André e jogou as dele na mesa. — Pode vir, Jean. — Eu comecei a rir, mas Rebeca acabou atirando as cartas dela no rosto de Thomas.
— É você quem vai arrumar agora! — Ela ordenou, rindo um pouco. Thomas apanhou as cartas do chão e colocou de volta na mesa. Aproximei-me dela e então as cartas começaram a ser distribuídas por Rebeca.
— Vou sentir falta disso. — Falei, percebendo que tínhamos um ótimo clima. A sala parecia ainda mais aconchegante quando todos nós estávamos reunidos. Todo mundo sente isso alguma vez na vida.
— Todos nós vamos. Foi ótimo o tempo que passamos aqui. — Ana sorriu com o canto da boca, observando seu jogo.
— Se interessou por alguém daqui, Ana? — André perguntou despretensiosamente, focando no jogo.
— Aposto que o Henrique. — Disse Fernando, maliciosamente. Olhou o jogo e então colocou a carta.
— Mentir pra que? Ele é legal sim. — Ela assumiu, revirando os olhos.
— Essa foi fácil. — Thomas comentou, pondo a carta na mesa.
— O que acham de fazer um passeio? — Sugeri, jogando minha vez.
— Você adora passear lá fora, não é? — Ana observou.
— Claro, é uma das coisas que eu não posso fazer quando estou em casa. — Falei, olhando para o lado. Falar das coisas que eu posso ou não realmente me deixa desconfortável.
— Por quê?
— Bem, meus pais. E também tem aqueles dois, Wesley e Samuel. Esses idiotas não me dão sossego desde que eu tinha 13 anos. — Respondi, abaixando a mão.
— Como você conheceu eles? — Fernando perguntou.
— É... Meu pai acabou atropelando o cachorro de Wesley, ele morreu dois dias depois. Desde então ele fica me marcando e faz de minha vida um inferno pessoal. Meus pais tentam me ajudar, mas não é sempre que eles estão por perto. Não sei por que eles ainda não pararam com esse lance todo. — Expliquei, colocando as cartas na mesa. — Acho que não quero mais jogar.
— Ei, você não gosta de falar disso. Percebi. Então, podemos ir passear depois do almoço, vai ser pizza. — Fernando sorriu, tentando me confortar.
— Já está chegando, liguei faz um tempinho. — Disse Ana.
—-xXx--
A brisa fresca passava em meu rosto, apesar do tempo quente. Parecia que até o clima estava dando uma trégua. As flores balançavam e as copas das árvores farfalhavam, dando uma vida a mais na floresta. Thomas empurrava minha cadeira aceleradamente e eu abri meus braços, fazendo o vento percorrer por todo meu corpo. O chão era plano, então não tinha riscos de acidentes, acho.
— Eles são tão fofos juntos. — Ouvi Rebeca comentar, distante de nós dois.
— Eu ouvi isso! — Gritei, expressando humor na voz.
— Não é como se você se sentisse envergonhado, né? — Thomas perguntou, parando de empurrar e olhando para trás.
— Não, me sinto bem com isso. É algo que me faz feliz, não envergonhado. — Respondi, percebendo um sorriso em seu rosto. Isso me fez sorrir também.
— Parem de correr por aí parecendo loucos! — Ana empurrou o ombro de Thomas e riu.
— Ei, ei! Não vem com essa. Todo mundo é louco aqui. — Ele respondeu, voltando a andar normalmente pelo caminho, junto com os outros.
— Jean, hoje iremos pegar o cachorro de volta. Como ele não tem dono, é melhor você falar com seus pais logo sobre isso. — André avisou-me.
— Seria ótimo. — O resto do caminho foi mais calmo, apenas aproveitamos a vista. Já era cerca de 3 da tarde. O sol estava menos forte, mas isso não quer dizer que estava tranquilo. Realmente, não me importo muito com o sol, mas tomo meus cuidados, claro. Resolvemos voltar, passando pela vista da montanha. Todos nós paramos.
— Que tal a fogueira ser feita aqui? — Perguntou Rebeca.
— Tenho certeza que isso é errado, vão mesmo levar a ideia adiante? — Questionei, receoso.
— Sim, qualquer sujeira que causarmos, nos responsabilizamos. Vamos lá, não é uma fogueira real, grande e... — Ela respondeu, sendo interrompida.
— Vamos usar uma fogueira portátil, relaxa. —André falou.
— Já era o lado flamejante de Rebeca, não é hoje que ela vai ver as madeiras ardendo em chamas. — Ana comentou, vendo-a olhar para André com um semblante decepcionado.
— Beca, você não está triste, né? — André perguntou, sorrindo com o canto da boca.
— Nunca. Mais. Me. Chame. De. Beca. — Ela respondeu ameaçadoramente.
—-xXx--
Já era noite, todos nós já estávamos no local em que observávamos as montanhas. Belas montanhas. Eu estava sentado no banco, ao lado de Thomas. Já tinha falado com meus pais e eles aceitaram o cachorro numa boa. Tudo estava bem com ele, até engordou um pouco. André trouxe a sua fogueira portátil, junto com Fernando. Ela era preta e branca, estilo moderno. Ao acender, o ar mal iluminado da noite rapidamente se dissipou e deu lugar a um clima caloroso. A mão de Thomas veio até a minha e então entrelaçou seus dedos nas minhas. Apertei firmemente, como um gesto de companheirismo com ele. Não sabia se estaríamos juntos para a vida toda, mas seja lá o que acontecesse, estávamos juntos naquela hora. Ali e agora. Ele encostou sua cabeça na minha, ficando com o rosto ao lado do meu. Eu sorri, olhando o fogo arder. Aproximei minha boca da dele, dava para sentir a sua respiração. Thomas apoiou seu braço entre nós e me beijou. Pela primeira vez, diante de seus amigos. Um beijo simples, mas bom.
— Eu disse que eles são fofos como um casal! — Brincou Rebeca, abrindo um pacote de salgadinho. Ainda beijando Thomas, comecei a rir e separei minha boca da dele.
— Vocês são fodas, hein. — Thomas brincou, pegando um punhado de terra e jogando em Rebeca.
— Mas que idiota! — Retrucou ela.
— Vamos lá, você sabe que mereceu. — André intrometeu-se.
— Por favor, vamos comer! — Ana reclamou, pegando um pacote de salgadinho e abrindo.
— Pensa rápido. — Fernando jogou um pacote de batata-frita em minha direção, consegui pegá-lo.
— Poderia passar, não é? Quem gosta de comer salgadinho quebrado? — Protestei, abrindo o pacote.
— Cara, devíamos estar na floresta. Esse lugar parece tão misterioso. — Disse Rebeca.
— Está sugerindo que desviássemos da trilha à noite, em um local que não conhecemos? — Ana perguntou, achando a sugestão ridícula.
— Olhando por esse lado... — Beca sentou-se e então estirou-se no chão, espreguiçando-se.
— Rebeca, posso te fazer uma pergunta? — Thomas perguntou curiosamente. Ela concordou. — Quando foi que você me viu com Jean? Eu me lembro de você dizendo que já sabia pois nos viu. — Eu parei de comer o salgadinho, surpreendendo-me com a pergunta.
— Foi nesse banco. Jean, ele tem um tamanho bom, hein. — Ela brincou. Engoli seco e pude sentir uma vergonha imensa.
— Ei. Não diga isso para mais ninguém. — Falei, cada palavra parecia cortada.
— Tudo o que ela sabe, eu sei. — Disse Fernando em tom de aviso. Ana e André ainda processavam as coisas que aconteceram.
— Eu não acredito. Puta que pariu. Não. — Thomas colocou as mãos na cabeça. — Eu me sinto tão sujo! — Gritou ele.
— Jean. Você está vivo? — Ana perguntou. Acho que nesse momento eu estava realmente pálido ou parei de reagir das coisas meu redor.
— Eu acho que sim. Há um buraco em meu peito agora, mas acho que passa já já. —Respondi, colocando a mão no rosto. — Nós somos tão lerdos. — Thomas concordou. Levantou e foi até o pequeno muro que bloqueava uma ladeira um pouco íngreme. Era o ponto onde era melhor para ver a montanha.
O tempo foi passando, começou a ficar tarde e os assuntos só pioraram. O clássico tipo de adolescente que faz merda ainda sóbrio e bêbado seria um estrago. A fogueira foi se apagando, mas ninguém ligou. Quase ninguém, Rebeca ainda queria manter o fogo ardendo, mas no fim a preguiça venceu. No dia seguinte estaremos voltando para casa. Com o fim do fogo, o céu ficou ainda mais estrelado. O escuro não incomodava.
— Eu me preocupo com você. Sempre sorrindo e olhando para o nada. — Thomas brincou, segurando minha mão.
— Ainda bem que estou sorrindo, não é? E eu esta a olhando as estrelas. — Expliquei, apertando sua mão.
— Então, acabou. — Falei, olhando para o chão e sorrindo.
— Um dia repetiremos. — Rebeca entrou na conversa. Ana dormia em um canto, Fernando e André conversavam alegremente no outro lado da fogueira.
— Acho que vou dormir, iremos acordar cedo amanhã. Até mais. — Falei, puxando a cadeira de rodas para perto.
—-xXx--
Já era tarde, ainda não conseguia dormir. Thomas olhava-me, feliz. Não dissemos nada, apenas sentíamos a incerteza do que aconteceria depois. Em minha mente, a ideia de esconder esse namoro até veio, mas não valeria a pena. Deu para perceber que eu não consigo esconder relacionamentos, de qualquer jeito. Engraçado, um mês atrás eu nem pensava em beijar alguém. Tentei dormir novamente, não queria acordar cansado quando fosse voltar para casa.
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