Entre os Garotos
15 Capítulo 15
Notas iniciais
Acordei olhando o teto, pensando em como o dia anterior foi corrido. Olhei atentamente o quarto e percebi que Thomas e André ainda dormiam. A janela estava fechada, deixando o quarto escuro. Do jeito que eu estava sonolento, deveria ser bem cedo. Depois de lavar o rosto e escovar os dentes, fui até o corredor e saí da casa pela porta da sala.
O tempo estava nublado e ameaçava chover a qualquer momento, também estava frio. Eu estava bastante feliz, todas as coisas que aconteceram antes pareciam mais vivas em minha mente, tudo estava tão alegre. Eu olhava a montanha, sorrindo, percebendo que ela já virou parte de minha vida. Um vento frio atravessou-me, fazendo meu corpo arrepiar. Estava nublado. Voltei para dentro da casa, Ana estava sentada no sofá, assistindo tevê em um volume baixo.
— Bom dia, fantasma do quintal. — Ela falou, cumprimentando-me e sorrindo.
— Fantasma? Fantasma do quê? — Perguntei.
— Todo dia você acorda e dá uma andada lá fora. No começo eu me assustava ao ver um vulto passando no lado de fora, mas agora já virou rotina. — Ela falou, quase em tom de deboche.
— Nem todo dia. Por falar nisso, eu acho que vai... — Apontei para trás, indicando o lado de fora. Uma chuva forte começou a cair, trazendo um vento frio. — ...chover.
— Fantasma vidente. — Ela riu, voltando a focar no filme. Thomas entrou na sala, olhando-me e depois Thomas.
— Olá vocês dois. — Ela falou, assistindo o filme.
— Olá, Ana. — Thomas sentou ao lado dela, aconchegando-se no sofá.
— Vocês estão bem? Digo, eu sei como a família de Thomas é. — Ela falou, timidamente.
— Estou tentando não pensar nisso agora, só vai me fazer mal. — Thomas olhou para a janela, um pouco triste.
— Realmente só vai fazer mal, Thomas. Não fique dando tanta atenção para isso, tenta aproveitar agora. Tipo, não dá para você fazer nada, apenas deixe o tempo chegar e depois tudo se consertar. Ou talvez nada aconteça! — Falei, tentando confortá-lo.
— Sempre que você ficar assim, fale com a gente. Nós estamos aqui para te ajudar, somos amigos, melhores amigos. — Ana sorriu para Thomas, colocando a mão em seu ombro para animá-lo.
— Sim, mas às vezes eu tenho vergonha de falar isso. — Thomas pareceu desconfortável com a conversa.
— Thomas, você não precisa ter vergonha de falar sobre isso. — Falei, olhando-o engolir seco e olhar para o lado.
— Tenho vergonha de falar tudo isso apenas por ter medo das consequências. — Ele olhou para mim de volta e sorriu, começando a lacrimejar.
— Mas você sabe que não precisa ter vergonha, nem medo. — Ana falou. Indo até a cozinha. — Você precisa comer. Comida sempre resolve.
— Eu te amo, Thomas. Sei que não posso fazer nada agora, mas eu sei que tudo vai dar certo. Mesmo que não pareça agora. — Falei, sorrindo para ele, tentando ser esperançoso. Por um segundo, pude ver um sorriso em seus lábios.
— Mesmo que tudo aponte o contrário? — Thomas olhou para mim com uma expressão totalmente neutra.
— Mesmo que a porra do mundo pegue fogo, Thomas. — Falei seriamente, tentando não parecer engraçado ou agressivo.
— Obrigado. — Ele se levantou e ficou próximo a mim. — Obrigado por me animar. — Ele se aproximou mais ainda de mim e me deu um forte abraço. Inclinando seu rosto em meu pescoço, ele começou a chorar. Eu sorri e retribuí o abraço.
— Você sabe que tudo ficará bem, só tem medo dos seus pais e isso é totalmente justificável.
—-xXx--
Já era hora do almoço, André recebeu uma ligação de Henrique. É bom saber que ele ainda lembrava de nós e também arrumamos algo para fazer. Ele queria saber se nós queríamos fazer algo para passar o tempo, creio que ir em algum lugar da cidade, talvez um restaurante.
— Claro, por que não? — Falei.
— Verdade, ele parece ser legal. — André falou.
— Estou com preguiça, quem sabe outra hora. — Fernando negou, esticando-se no sofá.
— Nem a pau, não tem outra hora. Já, já essas férias acabam e não vamos vê-lo mais! — Disse Rebeca, puxando Fernando pelo braço para incomodá-lo.
— Ela tem razão, vamos, Fernando. — Ana sentou no sofá.
— Olha, foda-se você. Nós vamos. — André falou, pegando o celular e avisando a Henrique para nos encontrar num restaurante que tinha perto do veterinário.
Todos fomos nos arrumar, acabamos nos atrasando um pouco, mas deu tudo certo. Fernando estava pronto e Thomas estava realmente bonito naquela roupa, mal consegui tirar o olhar dele. Raramente eu o vi arrumado desse jeito, quer dizer, tão ajeitado e certinho. Thomas tinha um jeito relaxado.
— Então vamos? — Perguntei, olhando-os. Eles estavam bem vestidos, pela primeira vez nas férias íamos sair mesmo.
— Vamos. — Thomas falou, indo até mim. Rebeca abriu a porta e então seguimos de encontro a Henrique.
—-xXx--
Finalmente estávamos na rua que Henrique falou. Era um local movimentado, uma das avenidas principais, eu acho. Algumas pessoas que eu olhava de relance pareciam estar me encarando. Isso realmente me deixou desconfortável, tentei ignorar isso e prestar atenção no grupo.
— Então, é aqui que ele disse para esperar, certo? — Ana perguntou, olhando para os lados.
— O restaurante é bem ali, com certeza é aqui. — Rebeca respondeu, cruzando os braços.
— Desculpem o atraso, minha mãe me atrasou. Porra, odeio quando ela faz isso. — Henrique falou, respirando aceleradamente devido à pressa que ele veio até nós.
— Tudo bem. — Thomas falou, sorrindo. Pelo visto, foi algo desconfortável para Henrique.
— Mãe superprotetora? — Perguntei, percebendo que entendia ele muito bem.
— Exato. — Ele estendeu a mão para me cumprimentar.
— Sei muito bem como é isso, chega a irritar às vezes. — Falei.
— Vamos logo? Estou com fome! — Fernando indicou o restaurante.
Uns minutos depois, já estávamos na mesa. O local era bem arrumado, realmente parecia um bom restaurante. O ambiente tinha um jeito moderno, não sou bom em explicar esse tipo de coisa, mas era realmente bonito. Pegamos uma mesa com janela, a rua estava movimentada ainda e a lua estava tão linda, devia ser quase lua cheia. Começou a chover forte, em alguns minutos o movimento da rua cessou.
Olhei para Thomas e o peguei olhando-me também, ele sorriu e eu virei o rosto, sorrindo timidamente enquanto encarava a rua. Ele também olhou a rua e apoiou a cabeça no braço que estava sobre a mesa, ambos estávamos sentados ao lado da janela. Era estranho, eu estava parando de vê-lo como meu melhor amigo e começando a enxergá-lo como um parceiro romântico. De certa forma isso é bom, estou ficando um pouco mais livre com ele. Porém, se terminássemos, será que eu conseguiria voltar a vê-lo como um amigo apenas?
—-xXx--
— Ei, Jean. Tudo bem? Você parece pensativo. — Henrique perguntou, enquanto Jean empurrava minha cadeira. A rua estava molhada, o tempo estava frio e era legal ver o chão molhado refletindo as luzes da rua. Porém o pensamento de que a viagem estava acabando me deixava um pouco nervoso devido ao que iriamos enfrentar mais pra’ frente.
— Não é nada demais. Apenas o fim da viagem. — Falei como se não fosse nada, apesar de não sermos próximos, me sentia estranho ocultando tudo dele. Henrique parecia ser alguém legal.
— Verdade, falta poucos dias para acabar. — Fernando falou, chutando uma garrafa no chão.
— Ei, não espalha essa água suja! — Ana reclamou com ele.
— Será que vai continuar chovendo por mais tempo? — André perguntou, andando um pouco mais na frente.
— Ninguém aqui é detector de chuva, mas é uma boa pergunta. — Rebeca respondeu, olhando para o céu. Todos nós continuamos andando por um tempo, as conversas estavam começando a acabar. Havia uma pequena área verde com bancos, checamos se eles estavam molhados e então sentamos nos que já estavam secos.
— Você é legal, Jean. Gostaria de manter contato com vocês depois da viagem. — Henrique falou, olhando para mim, sentado no banco. Ele estava sorrindo, parecia feliz.
— Certo, eu passo meu facebook para você. Só um momento. — Falei, colocando a mão no bolso e percebendo que estava sem celular. Era um pouco óbvio que ele não iria me achar sem o endereço exato, já que existe milhões de ‘Jean’ pelo mundo. — Thomas, estou sem celular, passa aí o seu para ele.
— Certo, aqui está. — Thomas pegou o celular e falou para ele.
— Obrigado. — Henrique adicionou-o na rede social pelo seu próprio aparelho.
Parecia que não ia chover mais. O clima entre nós estava bom, isso me fez sorrir enquanto eu olhava para as casas mais distantes da rua. Já devia ser tarde, umas 11 horas da noite, por aí. As lâmpadas das residências estavam começando a serem desligadas.
— Está tarde, acho melhor irmos. — Falei, desejando ficar mais um pouco, mas não tinha como.
— Tem razão, melhor eu ir também. — Henrique concordou, despedindo-se de todos.
— Até mais. — Thomas falou, ele sorriu e deu as costas.
— Até. — Henrique disse e foi embora.
—-xXx--
Já era quase a hora de dormir, a data do fim da viagem estava próxima. Isso me deixou um pouco nervoso, mas era, de certa forma, interessante saber que o ano poderia começar um pouco diferente dessa vez. O tempo frio estava indo embora, já dava para sentir o calor voltando. Thomas olhava através da janela, apoiado nela. Fui até ele e peguei em seu braço, fazendo-o virar para mim.
— Ei, tudo bem? — Perguntei, sorrindo para ele.
— Sim. Eu estava pensando... O que acha de contar para eles que nós... bem... namoramos? — Thomas perguntou, um pouco envergonhado.
— Não sei, eles são seus amigos a mais tempo. O choque seria com você e não comigo! — Falei, com um certo tom humorado na voz que o acalmou um pouco. Ele sorriu timidamente, pegando minha mão.
— Amanhã? — Ele perguntou.
— Quando você se sentir confortável. — Respondi, puxando a mão dele, fazendo-o seu rosto se aproximar do meu.
— Jean, eu sempre me senti confortável em relação a você. — Thomas encostou seus lábios nos meus, não evitei um pequeno sorriso.
— Quer ir dormir? — Ele perguntou, olhando para mim.
— Ainda não, quero ficar um pouco aqui, com você. — Sugeri, indo pegar o controle da TV, que estava em cima da mesa de centro. Ele sentou no sofá e então colocamos um filme para assistir. A noite passou rápido, nós ficamos assistindo séries e conversando como não fazíamos durante um bom tempo. De repente parecíamos os dois amigos de antes, divertindo-se de forma simples e verdadeira. Thomas olhou em meus olhos e me beijou de uma maneira carregada, surpreendendo-me.
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