Entre os Garotos
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Acordei vendo Thomas encarando a tela do celular, tocando-a. Ao perceber que acordei, ele parou e sorriu para mim. Sorri de volta e fui até a cadeira, para ir até ao banheiro. As coisas estavam calmas, Fernando caminhava com André do lado de fora da casa. Ana ainda dormia, Rebeca preparava algo para comer. Ela ofereceu a mim, mas eu não estava com fome.
Thomas sugeriu um passeio pela trilha de antes, apenas nós dois. Claro que aceitei na hora. A ideia de poder falar com ele calmamente, sem ninguém para nos flagrar, é realmente ótima.
Aproveitamos o período da manhã para ir. Tudo continuava lá, do mesmo jeito de antes. Thomas empurrava minha cadeira, olhando a paisagem. O vento despenteava seus cabelos e o sol batia em seu rosto. Era a hora perfeita de falar com ele.
— Jean, eu estava pensando... se nós namoramos em segredo, é porque isso é errado, não? — Ele perguntou.
— Nada a ver. Meu único medo é me afastar de meus pais, mas eu não acho que seja errado amar outra pessoa do mesmo sexo. Te amar. — Falei, percebi que ele reduziu a velocidade.
— Ainda não entendo isso. Passei muito tempo enxergando isso como algo errado. — Disse ele, com a voz distante.
— Ei! Eu também aprendi que a vírgula é para ser usada em pausas de fala. Nem por isso estou acreditando que era o certo. — Falei, tentando o trazer de volta.
— Não acho que seja tão simples quanto uma vírgula. — Thomas voltou a acelerar.
— É simples e fácil se você quiser. Não tem segredos. Eu me atraio por você e vice-versa. — Expliquei.
— Você falando assim... me deixa confuso. — Ele parou de falar por um momento. — Eu ainda vejo isso como algo errado. — Thomas parecia muito pensativo, sua voz estava começando a se alterar, acho que ele iria chorar a qualquer momento.
— Não. Thomas, deixe de se culpar por algo que você não escolheu. Nenhum de nós escolhemos. Tudo isso aconteceu sem a gente pedir, mas não é ruim. A sociedade torna isso ruim. — Falei, olhando para um lagarto, que escalava uma árvore.
— Meus pais vão me matar. — Thomas falou, parando de vez de empurrar a cadeira. — Eu sou um merda, eles vão me matar. — Virei para ele e vi lágrimas escorrendo de seus olhos.
— Eu estarei lá, não fica assim, cara. — Falei, segurando sua mão.
— Exato, você estará lá. Eles te conhecem faz anos. Eles vão me ver de um jeito diferente, vão ter vergonha de mim, nojo. — Ele desvencilhou sua mão da minha e se sentou numa grande pedra que ficava a uns passos de distância fora da trilha. As árvores faziam sombra nela, apesar do sol estar um pouco fraco devido ao horário.
— Não chore. Porra, ver você assim é tão ruim. Thomas, você me trouxe nessa viagem para nos divertirmos, certo? E o que é que estamos fazendo? — Falei.
— Às vezes eu penso que não devia ter trazido você para cá. Seria mais fácil para nós dois. — Ele abaixou a cabeça, tapando o rosto com as mãos.
— Venha aqui. — Eu disse, com a voz séria. Relutantemente, ele se levantou e veio até mim. — Aproxime-se. — Falei, ficou bem próximo de mim. — Mais ainda. — Sorri, vendo seu rosto corado e os olhos avermelhados.
— Jean... — Ele se aproximou bastante para sentir sua respiração sobre minha face, o ar quente atingia minha pele e provocava uma sensação qual eu já estava começando a me habituar. Completei o movimento com um beijo. Eu percebi que o amava, cada beijo era como uma nova descoberta sobre ele. Apesar da dor que ele sentia, Thomas continuava retribuindo o afeto. Isso era um dos pontos positivos dele, Thomas nunca descontou em mim quando as coisas não deram certo para ele.
— Então, isso foi ruim? — Perguntei.
— Não. — Ele respondeu, olhando em meus olhos.
— Isso te fez se sentir sujo? — Perguntei novamente.
— Não... — Ele respondeu mais uma vez, pegando em minha mão.
— Você se sente culpado por isso? — Fiz uma terceira pergunta enquanto ele continuava a empurrar a cadeira de rodas.
— Sim. — Ele respondeu. Resolvemos voltar, não falamos mais nada.
–-xXx--
Voltamos para a casa, percebi que todos estavam de saída. Talvez iriam passeiar pela cidade, ficar num lugar só é realmente entediante.
— Vamos procurar algo para fazer lá na cidade, vocês vêm? — André perguntou, abrindo a porta do carro.
— Claro. — Thomas falou, indo até o carro.
— Você vem, Jean? — Fernando perguntou. Ana e Rebeca já estavam dentro do carro, ambas conversavam animadamente.
— Melhor não, estou sem saco. Na próxima eu vou. — Falei, dispensando o convite.
— Certo, vou cobrar. — Ele entrou no carro, fechando a porta. O carro acelerou, virei de costas e fui até a porta. O que foi que Thomas quis dizer? Merda. Com certeza ele não se sente mais confortável com essa relação. Depois de todo esse tempo eu só enxerguei meu lado e não vi que ele ia se ferrar bonito com essa aventura. Talvez seja melhor acabar com tudo. É isso, o melhor a se fazer é se afastar, mesmo doendo.
Um barulho de atrito do pneu com o asfalto se espalhou, seguido de um latido agudo. Não acredito que isso aconteceu. Com medo de encontrar o óbvio, fui até lá. O carro bloqueava a visão, me aproximando mais, pude ver um amassado e um cachorro caído e um latido esganiçado
— Ele saiu do nada! Tentou atravessar, mas não deu para frear. — Disse Ana, chorando e se abaixando no chão para ver mais de perto.
— E agora? O que a gente faz? — Fernando perguntou, se apoiando no capô. Ele parecia tremer.
— Na cidade deve ter um veterinário, sei lá! — Rebeca falou, entrando no carro. — Vamos logo, peguem esse cachorro e vamos logo. — Ela falou, indicando o cachorro com a mão. André segurou ele e colocou no carro, todos os outros voltaram para dentro, mas Thomas ficou. Ele tinha uma paixão muito grande por animais, nada o deixava pior do que algum animal se ferindo. Ele estava de costas para mim, vendo o carro completar uma curva e desaparecer nas árvores.
— Ei. — Me aproximei dele, tocando em seu braço.
— Ele vai ficar bem. — Thomas falou, com a voz triste. Ele se virou para mim, seus olhos estavam vermelhos pelo esforço de prender o choro.
— Sim, ele vai. Venha para dentro. — Falei, pegando sua mão trêmula e o guiando para dentro da casa.
— Me desculpe. Eu sou um otário. — Ele falou, ainda com o tom melancólico na voz. Ele abriu a porta e entramos.
— Porque você é? — Perguntei, vendo-o sentar no sofá.
— Eu disse que me sinto culpado por namorar com você. Mas você é tão legal...
— Thomas, eu te entendo totalmente.
— Não, você não entende. Olha, sempre que eu te beijo, eu lembro de meus pais e eles me falando sobre essas coisas de que homossexuais vão para o inferno, merecem morrer, são inferiores. — Ele se levantou, vagando de um lado ao outro.
— Não. Eu não vou aceitar você se punindo assim. — Falei, segurando-o pela mão.
— Eu não quero desistir de você, mas não quero perder o respeito da minha família. — Ele falou, parando e me olhando nos olhos.
— Sinto muito, mas se eles não te respeitarem, eles não te amam. — Falei, apertando ainda mais suas mãos. Thomas olhou para baixo e depois em meus olhos. Com um impulso súbito, ele se aproximou de mim e me beijou, passando seus braços por debaixo dos meus, como um abraço, puxando meu corpo contra o dele. Esse beijo foi como uma grande troca de energia, onde Thomas tentou aliviar seus sentimentos de culpa com o sentimento do amor.
— Eu não quero precisar escolher ninguém. — Ainda abraçado, ele apoiou a cabeça em meu ombro. Ficando tão próximo de mim que eu podia sentir seu cheiro como se fosse o meu. Fechei meus olhos e deslizei minhas mãos sobre a nuca dele, deixando escapar uma lágrima de meus olhos. O celular dele tocou em seu bolso, Thomas se afastou de mim e atendeu.
— Diz que ele está bem. — Disse Thomas, exalando ansiedade. Depois de uns segundos, um sorriso apareceu em seu rosto.
–-xXx--
— Então, ele vai ficar lá por muito tempo? — Thomas perguntou assim que todos entraram na casa. Um vento noturno invadiu o local aquecido. A roupa de André estava suja de sangue e Ana parecia exaltada.
— O veterinário disse que em umas semanas ele pode sair de lá, mas sair para onde? — Disse Ana, sentando no sofá.
— Eu posso cuidar dele, tem espaço lá em casa desde que meu cachorro morreu. — Disse Thomas, se acalmando do acontecimento da tarde.
— Sim, Fernando disse que ia pagar o tratamento dele, junto comigo e Rebeca. — André colocou a mão no ombro de Thomas, tentando confortá-lo.
— Não entendo como você consegue se apegar tanto à animais. — Rebeca o abraçou por trás. — Você é o trouxa mais fofo que eu já conheci.
— Ok, agora é assim? — Thomas riu, voltando a ter o ar de brincalhão.
— Espero que você não fique triste se algo der errado. — Rebeca falou, enquanto ia até o quarto.
— Agora quero dormir. Pior dia das férias. — André entrou no quarto, Fernando foi ao banheiro e Ana entrou no quarto depois de uns segundos checando as redes sociais.
— Eu queria te dizer que... eu não quero abrir mão de você, mas família é... — Thomas falou, sussurrando. Peguei sua mão e apertei, sorrindo para ele.
— Eu entendo completamente, mas acho que eles vão te aceitar. Eles te amam. — Fui até o quarto, deixando-o na sala. Eu menti. Claro que eu me sinto desconfortável sendo colocado em segundo plano, mas nós somos diferentes e nossas vidas não são compatíveis. O típico jogo do ateu versus cristão. Não é isso, Thomas apenas devia ter medo de se aceitar. Sempre nos respeitamos e não era agora que isso iria mudar. Espero que não mude nunca.
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