Entre os Garotos
1 Capítulo 1
Notas iniciais
O último dia de aula finalmente acabou, agora apenas depois das férias eu voltaria para aquele local onde sonhos são criados e destruídos. Engraçado que isso, normalmente, é uma coisa banal. Para mim, esse final de ano era importante. Eu não sei o porquê, apenas era. Parecia que o mundo iria dar uma trégua dessas chatices gerais do ano. Depois de um tempo assistindo tevê, eu fui até a porta de minha casa. Deslizei meus dedos pela vidraça que havia nela, sentindo o vidro que permitia a visão da rua onde havia várias outras residências, porém ninguém estava lá fora. Abri a porta e fui até o gramado da entrada. Ouvi um barulho de bicicleta se aproximando.
— Ei! Estranho! — Um jovem gritou, enquanto pedalava em sua bicicleta. Ele levantou o dedo do meio em um gesto obsceno.
— Levanta daí! — Outro cara gritou, enquanto seguia o primeiro com sua bicicleta. Eram Wesley e Samuel, não eram as pessoas mais populares do colégio, nem os mais espertos. Também não eram os mais fortes ou esportivos. Eles simplesmente existiam para me perturbar.
Samuel tinha cabelos negros e seus olhos eram bem castanhos. Sua pele bronzeada escondia um pouco as marcas de acne em suas bochechas. Já Wesley era mais branquelo e seus cabelos eram castanhos e seus olhos negros. Ele era do tipo bonito, com seus cabelos medianos, que tocava suas orelhas. Já Samuel tinha o cabelo mais curto.
Voltei para dentro, batendo a porta com força. Eles me colocam para baixo, não sei o porquê, eles apenas estão lá para me insultar, talvez seja doença. Parece que, só por causa de minha condição, eles querem me ver sofrer.
Eu tinha 16 anos, um pouco magro, meus cabelos eram negros, lisos e com fios grossos, meus olhos castanhos claros e meus lábios avermelhados. Minha pele é um branco comum, um pouco puxada para o pêssego. Meu nome é Jean. Quando eu tinha 7 anos, eu caí de minha casa na árvore direto no chão. Ao menos consigo movimentar meus braços e todo resto acima da cintura. Mas as minhas pernas estão inutilizadas para sempre, são pernas normais como a de qualquer outro cadeirante. Um
Das mil e uma pessoas que eu conhecia, Thomas era meu único amigo. Ele me entendia e me apoiava em tudo. Ele é um dos poucos que me não ficam me ofendendo ou zoando meu estado. Talvez uma das melhores coisas que já fiz foi virar amigo dele, pois ele me deu apoio em vários momentos de minha vida. Fazendo eu me sentir forte e algumas vezes me aconselhando. Ele tinha cabelos curtos e morenos, tinha um corpo atlético e um pouco pálido. Ele sempre brincou, dizendo: "Se você me acha branco, espere até ver minha bunda." E eu sempre tive uma curiosidade saudável de vê-la. Não era algo pervertido ou sexual, era como uma curiosidade inocente. Thomas sempre foi do tipo bem-humorado, com suas piadas nem tão engraçadas que chegavam a ser hilárias de tão ruins. Porém, apesar de sua risada estridente e suas piadas chatas, ele era mais normal que a grande maioria que diziam educados ou calmos.
–-xXx--
Eu estava passando um pano nas superfícies dos móveis, tentando deixá-los limpos. De certa forma era difícil pois eu não tinha muita familiaridade com limpeza.
— Você limpando algo? — Escutei uma voz alegre e familiar, levantei meu rosto e avistei a face de Thomas.
— Tentando fazer algo para não passar de inútil. — Eu limpava a mesa de centro, terminando de tirar a sujeira.
— O que você quer dizer? Cara, por favor não vem com isso novamente. — Ele sorriu para mim, sentando ao meu lado. — Você não é inútil.
— Todo mundo fica me zoando, eu não quero isso. — Minha voz soava séria, até demais.
— Mas agora acabou, certo? Podemos tirar um tempo para relaxarmos longe daqui, quer dizer, nas montanhas ou num acampamento. — ele parecia tão casual, como se isso não fosse nada. Porra, eu ia sair sem dar satisfação para meus pais?
— Eu apoio a ideia, quer dizer, preciso falar com meus pais primeiro e também me preparar para essa pequena jornada. — falei, um pouco receoso.
— Ei, seu maluco. Estou falando para depois, também não quero fugir agora, sem dar nenhuma satisfação a ninguém... — ele se aproximou e deu um tapa amigável em meu ombro.
— Me explique então, o que você quer dizer com isso? — eu sorri para ele.
— Você está com algo no seu cabelo. — ele passou a mão em meu cabelo e amostrou no meu campo de visão. — É linha. — ele tirou algumas linhas que estavam em meu cabelo.
— Agora sim, você já pode paquerar... as meninas. — Thomas riu, caminhando até o centro da sala. O olhei de maneira curiosa, ele não era do tipo de ficar quieto analisando algo.
— Você, fazendo piada... estou traumatizado, nunca vi um humor tão ruim. — Fui até a sala, olhando-o. Ele começou a rir.
— Desculpe, eu ia fazer piada com você. Mas lembrei que ia ficar um pouco ofensivo, então tive que alternar na última hora.
— Então, o que você ia dizer? — Peguei um copo de água e levei até ele.
— Meu humor é uma merda, não vou te falar. — Ele sorriu com um pouco de malícia, olhando para o lado.
— Vai se foder. — falei enquanto ria.
— Só se for com você! — ele zombou.
— Ponto para você, não quero isso. E agora? O que você pensa em fazer agora, nas férias? Apenas viajar, certo? — Perguntei a ele, vendo-o terminar de beber a água.
— Definitivamente. Você também, certo? — ele colocou o copo na mesa de centro, sentando no sofá.
— Sim, mas eu pensei relaxar, sabe? Ao menos por um mês, dar um fim nessa vida de centro urbano. — falei, percebendo um pouco de felicidade do rosto dele.
— Então você quer mesmo continuar com essa ideia? — sua voz mudou de tom, estava mais séria.
— Sinceramente? Acho que estou. Quer dizer, você tem 16, eu 17. Não somos mais crianças dependentes de tudo e de todos, podemos tomar decisões, certo?
— Você tem razão. Merecemos, mas será apenas nós?
— Não, você pode chamar seus amigos.
— J, você não acha isso nem um pouco rápido demais? Digo, pergunte aos seus pais primeiro, assim como irei perguntar aos meus. — ele se inclinou, se aproximando de mim.
— Sim, irei perguntar, mas devemos viver a vida, certo? — Eu o encarei, sorrindo.
— Pois é, devemos. Fale com seus pais, avise que vamos viajar por um mês, talvez mais. — ele riu, possivelmente imaginando a cena, eu falando com meus pais e eles me dando uma dura.
— Certo, me preocupo com a resposta deles. Não quero perder isso, não quando você finalmente me convenceu. — falei, Thomas se levantou, caminhando até a cozinha.
— Vai dar certo, eu acho. — ele voltou trazendo um copo de água. Será que ia realmente dar certo? Do jeito que meus pais são... é bem difícil.
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Já se passou algumas horas, meus pais ainda não chegaram. Eu resolvi sair um pouco, passear pela cidade. Passando na calçada, avistei duas pessoas ao longo no caminho, Samuel e Wesley. A duplinha infeliz, que a maioria do colégio odeia... e eu apoio todos nessa jornada contra esses dois, mas não é como se eles não me odiassem também. Eles não me ofendem na maioria das vezes, mas as piadinhas sempre permanecerão. “Rodinha”.
Os dois pareciam não me ver, tentei evita-los. Acho que depois de um tempo eles me viram. Samuel e Wesley vieram até mim. Se eu pudesse, os socaria ali mesmo. Olhei para eles, estava exalando raiva.
— O que vocês querem? — Eu perguntei enquanto tentava me afastar deles.
— Ei! Eu só queria dizer que vai ser ruim ficar sem ouvir o barulho dessas rodinhas passear pela escola, ao menos nas férias. — Wesley me falou detrás de mim.
— Então você pode pegar uma delas e enfiar no meio... você não vale a pena. — O ignorei enquanto o mesmo falava, tentando tirar a atenção dele de mim.
— Palavras fortes para uma pessoa que não consegue se levantar de uma cadeira. — Samuel sorriu, demonstrando uma certa ofensa na voz.
— Diz logo o que você quer, caralho! — gritei, todos na rua olharam para mim. Me senti tremendamente envergonhado.
— Deixa o menino em paz! — disse um desconhecido, me olhando com certa pena.
— Certo, vamos indo. — Wesley segurou nos braços de Samuel, o arrastando para o caminho oposto ao meu.
— Espero que eles não te incomodem mais. — O desconhecido se afastou de volta ao seu lugar.
— Não precisa ter pena de mim. — sussurrei para mim mesmo. Por que as pessoas acham que eu sou inferior? Eu sou igual a qualquer outro. Ser cadeirante não é inferioridade, é apenas adaptação.
Fui até minha casa, cerca de dois quarteirões de distância. Meus pais estavam abrindo a porta. Tentei lutar contra uma vontade de não falar, mas eu realmente queria dar uma folga de tudo isso. Talvez seria mais fácil falar com eles de vez, como arrancar um curativo. Não sou uma pessoa de remoer assuntos, sempre é mais fácil falar de vez. Resolvi tentar a sorte, me aproximei deles.
— Passe primeiro, filho. — Meu pai abriu a porta, olhando para mim. Eu entrei e fiquei olhando uns segundos para a parede, esperando eles entrarem. Ouvi a porta bater, então olhei para eles.
— Fale o que você quer. — Minha mãe disse, ambos olharam para mim.
— Thomas me chamou para viajar com ele. — Fui direto, eles me olharam um pouco surpresos.
— Como assim? Você quer sair por uns dias com ele? — meu pai perguntou.
— Não, pai. As férias, quero sair um pouco desse lugar. — Revirava o olhar, tentando não manter um contato direto e duradouro com eles. Olho no olho sempre me deixou nervoso.
— Você quer sair assim? Do nada? Você e quem? Só vocês dois? Nunca. Isso é coisa de maluco. Você não pode sair assim, sozinho. — Minha mãe saiu da sala, parecia preocupada.
— Não é sozinho, o que pode acontecer de errado comigo? — perguntei, perdendo a paciência.
— E se alguém te atacar, ou se você cair... Como você vai se virar lá? — meu pai perguntou.
— Eu sei que eu sou um merda e incapaz, mas ao menos uma vez na vida... me deixem fazer algo que eu queira! — gritei, me dirigindo até meu quarto.
— Filho, não queremos dizer isso. — Meu pai me acompanhou até o quarto.
— Vocês nem ao menos me faz me sentir normal. — Bati a porta do quarto em sua cara e me tranquei. Fui em direção a cama e me deitei dela. Passei um tempo deitado, apenas pensando. O que vinha em minha mente era apenas minha família me irritando. É claro que eu sou normal! Mas onde eles me enxergam como um dependente de tudo? É apenas uma cadeira! Puta que pariu, eu preciso de vigia constante para quase tudo na minha vida. Eu penso em fugir, mas isso os preocupariam demais, e eu também sou frouxo demais para essas coisas. Desde meus oito anos me tornei um boneco de porcelana? Por favor, uma hora sairei de casa e eles pararão de me controlar em, literalmente, quase tudo. Fechei meus olhos para me acalmar, talvez cochilar.
— Filho, saia daí. Não quero ver você trancafiado no quarto como se fosse um depressivo. — Meu pai bateu na porta enquanto falava. Fui até a cadeira e me locomovi até a sala.
— Pare de cara feia. — Minha mãe colocou o jantar na mesa.
— Não é cara feia, apenas não quero esconder que estou chateado. — Dei de ombros para eles.
— Você ficou três horas naquele quarto. Provavelmente dormindo. — Meu pai comentou, começando a comer.
— Vocês me tratam como um ser totalmente dependente. — Me aproximei da mesa.
— Mas você não é dependente, você é tão bom quanto qualquer outro. — Minha mãe sentou-se na mesa.
— Então demonstrem que eu sou tão capaz quanto eles! — Dei uma garfada no prato, me sentindo frustrado.
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O sol banhava meu rosto, era quase como um respirar morno. A grama do quintal parecia tão verde e alegre. Eu podia jurar que elas queriam me animar. Me sentia tão frustrado pelo pequeno momento de drama no dia anterior que tudo ao meu redor parecia mais feliz do que eu.
— Ei! — Uma voz me despertou do torpor causado pelos pensamentos. Tudo o que eu menos queria nesse momento era que Samuel ou Wesley estivesse chegando para falar comigo. Dois dias seguidos é quase um atentado terrorista contra minha vida.
— Jean? — Uma mão encostou em meu ombro, pela voz devia ser Thomas.
— Ah, pelo tom pensei que devia ser Samuel ou Wesley. A duplinha mais desprezível da cidade. — Thomas sentou num banco na varanda.
— Não se preocupe com eles, apesar deles terem formado uma reputação um pouco problemática no colégio. — ele me olhou como se sentisse a raiva que eu sentia deles.
— Se você acha que ser zoado é problemático... acho que minha situação está pior. — Sorri para ele, não com alegria, era algo mais como uma conformação.
— E aí, Rodinha! — uma menina passou em seu skate, gritando. Eu a olhei, Thomas colocou a mão em meu ombro, tirando toda a atenção que eu dei a ela.
— Deixa esses filhos da puta falarem sozinhos. Você é mais que isso. — ele se levantou e se aproximou de mim.
— Duas rodinhas? — Perguntei com um tom sério.
— Meu amigo! — ele se inclinou e me abraçou. Senti um certo conforto com ele, aquele tipo raro. Quando você sabe que alguém se importa com você, sentirá esse conforto. Caso você já tenha sentido, sua vida deve ser boa. Caso você ainda não tenha sentido, continue procurando por esse alguém.
— E você é meu melhor amigo desde sempre. É, somos os melhores. — eu ri. — Talvez você seja, eu não.
— Você é legal. O que é que eu tenho que você não tem? — ele me perguntou.
— Hum... você ao menos já beijou uma garota. — falei, recebendo um olhar como se eu estivesse falando uma grande besteira, e talvez Thomas esteja certo.
— Mas como assim? Isso me faz melhor que você? — Thomas me perguntou.
— Não faz, apenas mostra que você é mais querido. — Respondi, soando um pouco indiferente.
— Não vejo nada demais nisso, sério. Você precisa ocupar a cabeça com outras coisas além disso. — ele puxou o telefone do bolso para chegar notificações.
— Thomas... como você acha que uma garota iria me beijar? — Perguntei, me sentindo um pouco estranho.
— Ué, do mesmo jeito que qualquer pessoa beija. Sério, você está colocando problemas em lugares que não existe. — ele guardou o celular.
— Thomas... por que as pessoas ficam me ofendendo tanto?
— Porque elas são otárias.
— Então você é a pessoa mais legal que eu conheci. Sinto muito não poder acompanhar você na sua viagem. — olhei para a casa em frente a minha.
— Esperarei você até o último segundo. Quinta feira da semana que vem. — ele disse.
— Mas já estamos no sábado. E vamos comemorar meu aniversário na viagem? — perguntei, olhando para ele.
— É mesmo! Dia 26 é seu aniversário. Ainda estamos em 14, dá tempo de pensar nisso.
— 14 de Novembro, dá pra pensar muito bem ainda. — falei, ele se levantou.
— Vou ter que ir agora, mais tarde eu passo aqui. — ele apertou minha mão. — Até mais tarde.
— Até mais. — Respondi, voltando para dentro de minha casa.
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