Entre o rio
25 Mortalha
Notas iniciais
Não fiquei surpresa por Erik ter me investigado. Não sou hipócrita, também fiz minha lição de casa sobre ele. Queria descobrir algo consistente que justificasse a sensação intensa que desperta em mim. Não cheguei a qualquer ilação.
Posso ter o visto em São Paulo, na época em que estudei lá, porém meu sexto sentido não acredita nisso. Frequentamos lugares diferentes, moramos em bairros distantes e acho que nos lembraríamos um do outro se tivéssemos ficado frente a frente.
Foi só quando Erik admitiu ter revirado meu passado, trazendo a tragédia da minha infância à tona, que entendi o que chamou minha atenção nele e decidi lhe mostrar algo.
Enquanto caminho por entre túmulos, ele pondera:
— Cemitério? Você é muito estranha, Angela... Sinceramente, eu não sei o que vi em você.
Apesar da tristeza que esse lugar causa, consigo sorrir diante da sua reflexão.
— Bom, talvez agora eu saiba o que vi em você, Erik. Acho que... você me lembra alguém.
Finalmente paro. As flores que deixei na última visita ainda repousam sobre o túmulo do meu melhor amigo, meu companheiro dos tempos infantis, Daniel.
Fecho os olhos. Aquela tarde ressurge. O rio é testemunha e carrasco. Revivo a dor. Mortalha.
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