Entre o rio
26 Comparação
Notas iniciais
Não sei o que pensar. Nem sei se compreendi o que Angela disse. Perturbado, olho dela para a lápide aos meus pés algumas vezes.
Daniel Vidal nasceu em 1.983 e faleceu em 1.992. Afogado, no rio, morto, aos nove anos.
Lembro de ler sobre esse infortúnio enquanto revirava o passado de Angela em busca de alguma conexão. Não cheguei a ver qualquer foto do pobre garoto, então não sei o que a fez enxergar qualquer semelhança entre nós.
Tudo o que sei é que isso pode até justificar a maneira que Angela se sente em relação a mim, porém não explica o que sinto por ela. Essa sensação forte de familiaridade e vínculo.
— Eu não sei como Daniel estaria hoje, claro, mas algo em você, nos seus olhos... me lembra ele, sim.
Suas palavras me deixam ainda mais perdido. Zonzo. A angústia do mistério é como uma trepanação na minha cabeça. Perfurando, escavando, cutucando meu subconsciente em busca de algo. Mas do quê?
Angela me comparando a alguém que foi muito importante para ela mexe comigo de um jeito sufocante.
De súbito, o gosto amargo da água barrenta invade minha boca.
Meu peito arde em busca de ar.
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