Entre o rio
29 Em busca da verdade
Notas iniciais
Confrontei meus pais. Peguei a estrada e fui até eles. Atônita e logo em prantos, minha mãe admitiu que eu não saí mesmo de seu ventre. Meu pai, consternado, revelou que os dois perderam o filho biológico, afogado na piscina.
Eles nunca souberam de onde eu vim ou quem eu era. Apenas me colocaram no lugar do filho morto num processo obscuro e acreditaram na própria mentira com o tempo. Acalentaram o luto e preencheram o vazio da perda.
Choque. Minha vida foi uma grande mentira. Uma piada de mal gosto. Sinto-me usado. Dor.
Transtornado, pego a estrada de volta a Boa Esperança. Juro a mim mesmo não provocar mais nenhum acidente.
Penso. Há uma chance de eu não ter enlouquecido. Posso ser Daniel Vidal.
O rio possui a resposta. Testemunha ocular. É o único capaz de confirmar a suspeita lancinante que me revira por dentro.
A antiga ponte, coberta por lodo, num trecho afastado do rio. O local da última brincadeira entre Angela e Daniel. Ou entre mim e ela.
Preciso da verdade. Pleitear minhas memórias. Se forem realmente minhas, só há um jeito de trazê-las à tona.
Mergulho nas águas turvas. Fico submerso. Espero a verdade se revelar.
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