Entre o rio
17 A balança
Notas iniciais
A jornada de cada pessoa é feita de bons e maus momentos. A lógica apostaria num equilíbrio, mas, às vezes, a balança pende mais para um lado do que para o outro. As razões são desconhecidas.
Quando ela se inclina para as boas coisas, não reclamamos; no máximo, julgamos que somos afortunados ou merecedores. Quando se inclina para o lado ruim, no entanto, a vida é injusta, pois não devíamos passar por determinado sofrimento e provação.
Ao olhar para trás, vejo um desequilíbrio gritante na balança da minha infância. Um abismo que tragou para as profundezas da memória as experiências mais felizes e genuínas, deixando um vazio fantasmagórico no lugar. Uma perda que me marcou, que me abalou e que, até hoje, é capaz de me excruciar com a mesma fisgada atroz.
É por isso que não consigo passar muito tempo revisitando o passado, encarando-o diretamente. É por isso que fecho a caixa que abriga minhas fotos antigas com um gesto certeiro.
Tais fotos registraram dias alegres, infantis, descontraídos e que tinham tudo para serem lembrados com muito carinho.
Infelizmente, esses momentos foram maculados, varridos para o abismo, quando minha balança pendeu de forma abrupta para o lado ruim.
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