Entre o céu e o inferno
10 Protetor Parte 2
1
–Talvez ela esteja ignorando você, como uma adolescente normal, Andrew. -Disse Albert quando eu relatei que Jade não atendia minhas ligações.
–Tem alguma coisa errada. Eu sei.
–Tudo bem, porque não vai ao bar onde ela disse que iria depois da escola?
–Eu acabei de sair de lá. -Disse Annelise entrando. -Realmente há algo errado, encontrei um demônio e o dono do bar mortos... Mas nenhum sinal da Jade.
–E quem matou o demônio? -Perguntei, mesmo sabendo que era em vão perguntar aquilo.
Annelise ficou em silêncio, parecia pensar. Olhei novamente para o celular, eu não tentaria mais ligar, era perda de tempo. Peguei as chaves do carro.
–Onde vai!? -Albert perguntou.
–Vou até a casa dela.
Fui até a porta, quando a abri lá estava Gabriel. Ele passou por mim e entrou, me virei e ele estava olhando ao redor, não havia dito nada até então.
–Onde ela está!? -Ele olhou pra mim.
–Do que está falando?
–Eu mandei ela vir até você. A Jade, onde ela está!?
–Não está aqui... -Eu disse e então Annelise interrompeu.
–Espera... Grabriel você matou o dono do bar!?
–Não, eu estava lutando contra o demônio. O dono do bar foi morto por ele.
–Então esse é Gabriel? -Albert disse dando um passo a frente -Eu o imaginava menos bundão. -Gabriel franziu a testa -Sem querer ofender é claro...
–Quieto humano. Se ela não está aqui então pra onde foi? -Ele voltou a olhar pra mim.
–Vou até a casa dela agora. -Sai da casa e entrei no carro.
A porta se abriu e Annelise entrou.
–Vou com você.
–Eu também vou. -Gabriel disse entrando no carro.
Dei de ombros e comecei a dirigir.
*
Parei o carro e desci. Andei até a varanda da casa e bati na porta. Gabriel e Annelise estavam ao meu lado. Bati uma outra vez na porta. Nada. Quando ia bater a terceira vez Matt abriu a porta. Olhou para nós três com dúvida.
–Andrew?
–Matt, eu preciso falar com sua irmã.
–Ta... Mas ela não está aqui, pensei que estivesse com você... -Ele olhou para seu bolso, então tirou o celular -Ela mandou uma mensagem. "Sai do bar, Jezabel está me levando pra casa"... Jezabel!?
–Precisam encontra-la. -Disse Annelise -Vão, eu deixo Matt em segurança.
Voltei ao carro, Gabriel me acompanhou... Eu ainda não havia entendido se ele estava ou não do meu lado, comecei a pensar pra onde Jezabel havia levado Jade. Mas era em vão, eu nem se quer imaginava. Talvez se eu ainda estivesse no céu seria diferente.
–Dirija. Jezabel deve tê-la levado para algum lugar escondido fora da cidade. -Gabriel disse sem olhar para mim. Então comecei a dirigir.
–Como você sabe?
–Há uma casa usada como um... Ponto de encontro para demônios.
Fiquei em silêncio por pelo menos duas ruas. Havia muitas coisas que eu precisava perguntar.
–Porque está me ajudando? -Desta vez ele olhou para mim. Mas foi por um breve momento. Depois voltou a olhar para frente, encarando as ruas geladas de Lockerwood
–Não estou ajudando você Andrew. Tenho uma missão com Jade, se fosse por você eu nem teria saído do céu.
–Então te mandaram aqui pela Jade?
–Ninguém me mandou. -Ele fez uma pausa -Depois da sua queda o céu não foi mais o mesmo.
–Annelise falou sobre isso... -Ele me interrompeu.
–Não tudo, creio que nem mesmo ela saiba... Quando você caiu, digamos que foi uma péssima influência para alguns anjos. Eles queriam seguir seus passos, alguns deles queriam até mesmo cair. Mas não lhes foi permitido.
–Então o que aconteceu com eles?
–Foram aprisionados no céu... Nosso pai... -Ele parecia um tanto entristecido -Desistiu de nós.
–Todos nós?
–Sim, até mesmo Miguel... O seu preferido.
Parei de falar. Pensar que o céu estava desabando por minha culpa era demais pra mim. Eu precisava fazer alguma coisa, mas nada podia ser feito. Gabriel realmente estava triste, eu nunca havia o visto assim antes.
–Se nosso pai desistiu de nós... Porque está aqui cumprindo uma missão?
Ele olhou para mim, desta vez seu olhar era frio.
–Nosso pai não desistiu apenas dos anjos.
–O que?
–Ele desistiu dos humanos também Andrew... E o que acha que vai acontecer com este planeta sem o controle do nosso pai?
–O apocalipse... -Ele acentiu ainda me encarando -Mas não entendo o que Jade pode fazer pra ajudar.
–Quando você caiu, foi amaldiçoado. Por consequência ela também, porém isto não muda nada, ela ainda tem os dons que lhe foram dados... Você devia saber disto, assim como todos os protetores dela antes de você... Talvez tivesse descobrido se não tivesse caído.
–O dom dela vai ajudar a salvar o mundo?
–Vai. Mas pra isto, você precisa estar seguro Andrew.
Franzi a sobrancelha, aquilo era informação demais pra um dia só. Porém de todas, talvez está tivesse me surpreendido mais, Gabriel, me dizendo para ficar seguro?
–Porque se importa com minha segurança?
–Não me importo. Me importo com a segurança da Jade. Como eu disse, vocês dois foram amaldiçoados... Se você morrer Andrew, Jade não terá outro anjo da guarda. E uma humana como ela sem um protetor...
–Vai ser um alvo fácil para demônios.
–Acho que você entendeu. A maior parte da cura em humanos está nos seus anjos da guarda. Sendo assim, se você estiver vivo, a chance que ela tem de ficar viva é muito maior... Agora dirija, temos que chegar rápido.
2
Abri meus olhos, minha cabeça doía. Olhei para os lados na tentativa de ver alguma coisa. Mas o escuro não me permitia. Eu estava no chão frio, parecia um piso velho empoeirado. Apoiei minhas mãos no chão e consegui me levantar. Não ouvi nada, mesmo me esforçando. Comecei a sentir medo, coloquei as duas mãos para frente e comecei a andar.
Não demorou para que minhas mãos encontrassem uma parede. Deslizei as mãos na parede, e então encontrei uma massaneta. Eu a girei devagar, abri uma fresta da porta e a luz entrou, iluminando parte daquele pequeno cômodo vazio. Abri a porta por completo. Ela levava a um corredor.
Andei por todo ele, e cheguei a uma espécie de sala, aquela casa parecia estar desmontando de tão velha. Na tal "sala". Havia um pequeno sofá, do outro lado algumas madeiras empilhadas, e uma mesa de centro em pé encostada na parede. Vi uma porta, e me preparei para andar até ela, mas quando ia fazer isso fui interrompida.
–Já acordou? -Olhei pra trás e lá estava Jezabel -Acho que eu devia ter batido mais forte.
Dei um passo para trás quando ela deu um para frente. O que aquela maluca tinha na cabeça? Eu precisava pedir ajuda, mas nem mesmo o meu celular eu tinha mais.
–O que você quer comigo? -Perguntei demonstrando coragem.
–Com você? -Ela riu -Nada... Eu não. Mas infelizmente trabalho pra quem quer.
–Do que está falando?
–Sabe Jade... -Ela disse e começou a andar, ignorando totalmente minha pergunta -Você é uma garota de sorte. Se eu não tivesse ordens claras pra manter você viva, eu teria te matado aquele dia, naquela floresta.
Ela se virou, mas antes que começasse a andar eu voltei a falar.
–Porque me trouxe até aqui!? -Ela deu alguns passos -PORQUE EU ESTOU AQUI!?
Ela parou de andar, e então veio até mim, parando bem próxima a mim. Depois de me encarar por alguns segundos ela disse.
–Alguém virá te ver. Por isto está aqui.
–Quem?
–Você vai descobrir. -E ela continuou me encarando -O que ele viu em você?
Ela parecia inconformada, olhava para mim com um certo nojo. Que ela era louca, já estava aparente, mas o que eu havia feito?
–Quem... Viu o que? -Perguntei.
–Andrew .Como ele pode amar você? Uma humanazinha qualquer... Dons divinos!? Fala sério, você não é a única a tê-los.
–Como conhece Andrew?
Ela riu.
–Eu e Andrew nos conhecemos a séculos atrás, quando o humano que ele protegia morreu... Aquele foi o primeiro humano que ele protegeu, que coisa cruel... Alguém o matou, quem faria isso?. -Ela riu alto quase gargalhando -Ou melhor, porque faria? Talvez para que Andrew aparecesse, não é?
–Séculos atrás...?
–Espera; ele não te contou, não é!? -Eu sentia a empolgação na voz dela.
–Contar o que? -Perguntei irritada.
Ela abriu a boca ainda empolgada, mas em seguida ficou estática sem dizer nada, ela deu um passo a frente, olhando para a porta. Então se abaixou no chão como se estivesse se curvando. Eu não entendia nada daquilo, apenas a encarava perplexa.
O que tinha para Andrew me contar? Talvez os dois já tivessem ficado juntos há... Séculos atrás? Isto devia ser apenas uma expressão, tinha que ser. A porta se abriu com uma ventania, por ela entrou um homem alto, um tanto musculoso. Com cabelos pretos um tanto curtos e muito bem penteados.
Seus olhos tinham uma cor amarelada, que eu jurava ser uma cor inexistente para olhos. Ele trajava um terno preto, com gravata, calças e sapato da mesma cor. Ele andou até o centro da "sala", sem olhar para mim, e nem para Jezabel.
–Se levante. -Disse ele se dirigindo a Jezabel, porém não olhou para ela.
–Senhor, eu...
–Pode se retirar. -Ele a interrompeu.
–Mas...
–Não vou repetir!
E Jezabel saiu, me deixando sozinha com aquele homem. Minha respiração era rápida naquele momento, eu nem me lembrava a última vez que senti tanto medo. Ele olhou para mim pela primeira vez desde que entrou. Mas não disse nada, apenas começou a andar, me observando.
–Quem é você!? -Eu disse o mais rápido que pude.
Então ele parou na minha frente novamente. Seus olhos sobre mim me deixavam completamente apavorada. Ele olhou para mim mais um vez e então falou.
–Me adimira que não saiba quem eu sou. -Sua voz tinha aspecto objetivo e altamente educado, ele deu um breve sorriso -Eu tenho muitos nomes Jade... Satã, Diabo. Acho que o correto é Belzebu... Bom, ao menos é o correto no inferno, você acredita que muitos humanos até mesmo comparam com Lúcifer? Imagine como me sinto honrado... -Franzi as sobrancelhas, e então ele voltou a falar -Porém quando estou aqui, na terra, com está forma, você pode me chamar de Volare.
–Volare? Não é tão comum.
–Mas é bem melhor que Belzebu, você não acha? -Ele sorriu, diabolicamente... Belzebu? Era impossível. Tudo o que eu queria era sair dali.
–Isso é loucura... Eu... Eu vou sair daqui. -Dei um passo para a porta, ele segurou meu braço.
–Não acredita em mim, Jade? -Sinalizei negativamente com a cabeça, ele estava sorrindo mas naquele momento seu sorriso desapareceu -Então... Acho que vou ser obrigado a te mostrar.
Franzi a sobrancelha, ele soltou meu braço e segurou minha cabeça entre as mãos. Foi como se um filme estivesse passando por meus olhos, um lugar extremamente quente, com jaulas amontoadas, portas de metal que prendiam pessoas, os gritos eram de puro pavor. Eu podia sentir tudo, eram demônios que comandavam aquele lugar.
Talvez parte minha fosse cética sobre este assunto. Mas naquele momento eu tive a certeza de que demônios existiam, aquele lugar era o inferno. O homem no carro, Jezabel, o cara do bar, todos eles eram demônios. E bem a minha frente estava nada mais, nada menos que... Belzebu.
Ele tirou as mãos da minha cabeça, abri meus olhos, e quando olhei nos olhos dele, seus olhos estavam completamente brancos.
–Você... Você é um... -Fui andando para trás enquanto falava, sem querer caí sentada no sofá.
–Diga. Eu me divirto com todos os apelidos que os humanos dão aos demônios.
Ele falava como se fosse uma conversa comum, era como se ele se sentisse a vontade com tudo aquilo.
–Como é possível você ser Belzebu!?
–Volare, por favor... E talvez demore um pouco para você aceitar os fatos.
Minhas mãos tremiam, eu tentava segura-las mas não conseguia. O que me restava era fingir ser corajosa, talvez isto fizesse o medo passar. Me levantei do sofá e encarei... Volare.
–O que você quer comigo?
–Bem, -Ele sorriu -Todos os demônios lá fora, acham que eu quero levar você até Lúcifer.
–Me levar porque!?
–Você faz parte de algo grande Jade...
–Então você vai, ou não vai me levar? -Ele riu, aquilo me irritava.
–Não.
–Porque não?
–Hum... Sabe como todos dizem que o inferno é um lugar terrível? -Levantei uma sobrancelha. Ele riu da minha expressão -Não pense que eu vou dizer o contrário. Realmente é ruim... Principalmente o calor.
–E daí? -Ele ficou sério.
–E daí, que mesmo quando você sai do inferno, o inferno ainda assim encontra uma forma de voltar até você.
Tentei refletir sobre aquilo, mas pensar que eu falava com um demônio não deixava minha mente muito a vontade.
–Vou falar de uma forma mais clara. -Disse ele -Todos esperam que eu te leve para Lúcifer, porém não acho que você sera útil estando no inferno...
–Está me dizendo -Eu o interrompi -Que você, mesmo sendo um demônio, não está do lado de Lúcifer?
–Hum... Não, não estou.
–Porquê!?
–Porque... Digamos que todo mundo sabe como terminou da última vez. Miguel, chutando Lúcifer do céu. Porém ele não se cansou...
–Então está do lado dos anjos?
–Vire essa boca pra lá garota! -Ele deu três batidas na mesa de centro, então sorriu em minha direção -Quando se trata de céu e inferno ninguém vence, ninguém perde. No final, tudo apenas volta a seu devido lugar... Aqueles que escolheram o céu, ficam no céu, aqueles que escolheram a terra, ficam na terra, e aqueles que escolheram o inferno... Você sabe...
–Então... Qual você escolheu?
–Nenhum. -Franzi as sobrancelhas -Eu tenho um grande plano Jade... Eu poderia te levar hoje, mas polpei você. Porém, vamos nos encontrar de novo.
–Não quero que apareça de novo.
–Eu não vou aparecer. É você quem vai me chamar.
–E... Porque eu faria isso!?
–Porque, como é mesmo a frase? O desespero leva a atitudes desesperadas, você ainda vai precisar de mim Jade.
Chacoalhei a cabeça, eu nunca chamaria um demônio se precisasse de ajuda, aquilo era loucura. Ele permanecia na minha frente, com sua pose de cara da alta sociedade.
–Se não vai me levar... Porque não me deixa ir?
–Vou deixar, estão vindo te buscar.
–Quem?
–O seu protetor, e é claro, o metido do Gabriel. -Ele aproximou-se do meu ouvido e sussurrou -Ele fica mais chato a cada ano.
Volare tinha um sorriso no rosto, uma expressão divertida. Eu já havia imaginado como um demônio devia ser, e com certeza não havia imaginado que seria como ele. Parado ali, me encarando, ele parecia um humano comum... Com psicopatia talvez, mas não parecia um demônio. A porta se abriu, nós dois olhamos na direção dela.
–Senhor! Estão aqui... Os anjos. -Disse um cara, que provavelmente era um demônio.
–Volte lá, eu a levarei comigo para o inferno. -Volare respondeu, e então o suposto demônio encostou a porta e correu.
–Você disse que não me levaria!
–E não vou. -Ele piscou pra mim, então segurou minhas duas mãos -Foi... Um prazer te conhecer. Hum... Mais uma coisa, quando precisar de mim, não polpe esforços... Grite, faça rituais, algo grande o bastante para que eu te escute do inferno.
–Isso nunca vai acontecer!
Ele sorriu, seu largo sorriso diabólico.
–Bem, agora eu tenho que ir, muitas almas para torturar.
Ele estalou os dedos e simplesmente desapareceu... Porque motivo eu precisaria de um demônio? Aquilo não fazia sentido. Corri até a porta, mas antes de sair peguei uma das madeiras empilhadas para me defender de... Seja lá o que fosse tudo aquilo.
Lá fora não havia ninguém, eu nunca havia estado ali antes, uma fogueira ainda acesa iluminava parte da clareira. Olhei para ambos os lados e comecei a andar, segurando aquela madeira. Quando eu ia sair da clareira e de fato entrar na floresta um homem apareceu, dando um grito, como se fosse divertido me assustar.
Dei um passo para trás e tentei bater naquele homem com a madeira, mas ele a segurou antes e a arrancou das minhas mãos. Gritei alto, e coloquei as mãos sobre a boca, quando os olhos dele ficaram vermelhos. Ele deu um passo em minha direção, mas logo depois parou, um vento parecia vir das minhas costas, meu cabelo voava para frente. E o corpo daquele homem se desmanchava dando lugar a uma fumaça negra. Que instantes depois foi sugada pelo chão.
Olhei para trás, confusa. E lá estava Andrew, olhando para o chão onde a fumaça havia sido levada. Seus olhos encontraram os meus, me senti dividida como nunca havia me sentido antes, eu não sabia o que ele era, não sabia de que lado estava. Ele estendeu a mão, eu dei um passo para trás.
–Não vou machucar você. -Disse ele franzindo as sobrancelhas. Eu queria acreditar naquilo, mas era minha vida que estava em pauta. E o que quer que Andrew fosse, havia mentido para mim, não havia garantias de que não estava mentindo de novo.
–O que você é? -Perguntei firmemente. Ele abaixou a mão, e me olhou confuso -Andrew. Responde! -Minha voz era de choro, algumas lágrimas caiam, eu amava ele, mas naquele momento eu não sabia se devia.
–Eu sou um anjo... O seu protetor.
–Meu... Anjo da guarda!? -Ele apenas me olhava -Isso... Isso é impossível!
–Eu prometo, responder todas as suas perguntas. Mas agora, eu tenho que tirar você daqui.
Um dos demônios estava vindo na direção de Andrew, mas antes que eu precisasse avisar, algo que parecia um punhal voou nas costas dele. Gabriel havia arremessado, ele retirou o punhal do demônio, e então olhou para mim e Andrew.
–Vamos! Mais deles estão vindo.
Em seguida Gabriel entrou na floresta, eu o segui, sem nem olhar para Andrew. Não sabia se podia confiar nele, muito menos em Gabriel, mas ao menos eles não haviam me apontado facas ou armas, talvez eu estivesse segura junto com eles.
Gabriel parecia conhecer aquela floresta como a palma de sua mão, assim como Andrew, hora eles andavam, hora corriam, hora paravam e se escondiam. Eu seguia os dois, imitando cada passo. Então nós conseguimos sair da floresta, chegamos a uma estrada. O carro de Andrew estava parado nela, todos nós entramos. Olhei pelo vidro para trás, haviam vários daqueles demônios correndo atrás do carro. Mas não demorou para que eles nos perdessem de vista.
Andrew dirigia extremamente rápido, tentei perguntar para onde íamos mas ele e Gabriel falavam alto demais para me ouvir. Porém não demorou para que Andrew parasse o carro.
–Porque parou aqui!? Eu quero ir pra casa.
–Lá vai ser o primeiro lugar em que vão procurar você. -Andrew respondeu.
–Vai decidir minha vida por mim agora? Eu nem sei o que está acontecendo!
–Eu explico lá dentro, agora venha.
Ele abriu a porta do carro, eu desci e entrei na casa. Todos olharam para mim, talvez fosse pela raiva explícita no meu rosto. Mas era estranho, Annelise estava lá também, eu não conseguia entender o que ela tinha haver com tudo isso.
–Matt! -Eu disse e corri na direção dele, o abraçando tão forte quanto eu podia -Você... Você está bem!?
–Porque não estaria? -Ele me olhou com dúvida.
–Eles não te contaram, não é?
–Hum... Annelise disse que você saiu com Jezabel, e que ligou para Andrew te buscar...
–Foi isso que disseram pra ele!? -Eu questionei encarando Annelise, e Albert -Eu podia ter morrido! E agora... Eu nem se quer sei onde minha mãe está!
–Em Nova York, junto com seu pai. -Disse Gabriel -Eu deixei os dois em um lugar seguro antes de te procurar.
Eu estava pronta para um ataque de nervos, mas Andrew segurou minhas mãos, ele olhou para mim, de um modo que me passou toda a confiança necessária.
–Se acalme, vai ficar tudo bem. Eu prometo.
Eu acenti, no mesmo momento, parte minha nem havia entendido como ele conseguiu me acalmar. Porém fiquei em silêncio enquanto ele, Gabriel e Annelise saiam pela porta. Eles precisavam ver se tudo estava seguro na rua... Ou seja, livre dos... Demônios.
*
Depois de sair do banho e me trocar, fui até um dos quartos, onde Matt dormia como uma criança. Ele parecia nem se importar com tudo, ou talvez apenas não soubesse o suficiente para se importar. Fechei a porta, e andei até o quarto de Andrew, ele ainda não havia voltado.
Eu estava confusa sobre ele, porém não sobre o que eu sentia por ele. Eu o amava assim como antes, mas parte de mim continuava pensando que era arriscado demais ama-lo. Só que eu não ouvi essa parte, eu estava decidida a saber da história toda antes de tomar uma atitude.
Passei pelo quarto e fui para a sacada. Tudo o que havia lá fora eram as estrelas, embelezando o céu. Eu não parava de pensar em como minha mãe estava... Ainda era difícil entender os acontecimentos de hoje. Alguém bateu na porta, me virei rapidamente. Era Andrew, ele andou até a metade do quarto. Sai da sacada, e andei até ele, estávamos a alguns passos de distância.
–Você está bem? -Ele perguntou.
–A essa altura... Eu nem sei qual a resposta sincera pra essa pergunta.
–Eu sei, foi muito pra apenas um dia.
–Sim, foi. -Me sentei na cama -Mas eu preciso saber, ainda hoje Andrew... Não posso mais esperar. O que você é?
–Sou um anjo. -Ele se sentou na cama. -O seu protetor Jade.
–Meu anjo da guarda... -Ele apenas continuava me encarando -Então é verdade, todos tem um anjo da guarda.
–Não, nem todos... Apenas os que tem algo muito especial para ser guardado.
–E o que eu tenho?
–Você tem dons divinos... Gabriel acredita que você pode... Livrar o mundo do apocalipse.
Não havia nem comentários para tudo aquilo, porém eu estava tentando manter a mente aberta. Respirei fundo, mais uma das muitas vezes que eu já havia feito aquilo naquela mesma conversa.
–Porque eu vejo você? Você é meu anjo da guarda, tudo bem... Mas porque nunca vi você antes, porque só agora?
Ele levantou uma sobrancelha, parecia estar pensando em como responder. Não tirei meus olhos dos seus.
–Você não devia me ver.
–O que isso quer dizer?
–Não sou o primeiro anjo a proteger você Jade.
–O que houve com os outros?
–Foram todos mortos, eles morreram, para evitar que os demônios chegassem em você.
–E porque só vejo você? E nunca vi nenhum deles.
–Porque eles cumpriram todas as ordens que deram pra eles. -Eu o encarei confusa.
–E você não?
–Não. Eu... Me apaixonei por você.
Eu não sabia se era certo me sentir bem com aquilo, mas era como eu me sentia... Ele havia se apaixonado por mim, mesmo que isso tivesse custado desobedecer ordens.
–Então eu te vejo porque se apaixonou por mim? -Sorri brevemente. Mas ele ainda estava sério.
–Não. Anjos... Não devem se apaixonar Jade, quando isso aconteceu, me expulsaram do céu. Você me vê porque eu caí.
–Você... Caiu por minha culpa? -Não pude evitar me sentir triste.
–Não foi sua culpa. -Ele pôs a mão sobre a minha -Caí porque te amei, mas acredite, eu faria tudo de novo sem pensar duas vezes... Te amar é a melhor coisa que já me aconteceu.
Eu sorri, ele não era nada do que imaginei, era simplesmente melhor. Não podia existir uma prova de amor maior que aquela. Um anjo, abandonar o céu por alguém.
–E depois? Depois... Que você caiu, o que aconteceu?
–Assim como me amaldiçoaram a nunca mais voltar ao céu, você foi amaldiçoada a não ter mais nada que viesse do céu desde aquele dia em diante.
–Nossa... Nunca imaginei algo tão confuso. -Olhei pra ele -É engraçado como em um simples momento minha vida ficou de ponta cabeça. Hoje de manhã, eu me considerava uma garota comum... E agora... Sou uma garota amaldiçoada que pode salvar o mundo.
–Realmente é confuso. -Ele sorriu brevemente. -Mas você parece ter aceitado mais rápido do que pensei.
–É... -Abaixei os olhos.
–O que foi?
–Preciso que faça uma coisa. Pra eu aceitar completamente que você é um anjo, e que isto tudo não é paranóia da minha cabeça.
–Tudo bem, o que quer que eu faça?
Me levantei da cama, segurei as mãos dele, e o fiz levantar também. Ele estava parado bem na minha frente, eu precisava ver pra ter certeza, não podia evitar.
–Quero que me mostre suas asas. -Ele parecia não acreditar no que eu estava pedindo, mas eu precisava ser firme -Eu preciso ver.
Ele acentiu, então deu um passo para trás, fechei meus olhos, e então não sabia se estava pronta para abri-los. Porém criei coragem.
Abri os olhos, vi suas asas, não poderia existir algo mais bonito. Elas tomavam quase todo o quarto, eram brancas, pareciam brilhar, um brilho extremamente leve, que quase não se notava. Eu não disse nada, nem ele. Enquanto eu olhava para suas asas, sentia seus olhos em mim... Curiosos talvez.
Andei para mais perto dele. Encostei minha mão em uma de suas asas, era macio, pareciam penas, porém era incomum, eu nunca havia tocado em nada como aquilo. Deslizei minha mão para o lado, acompanhando a linha de sua asa. Então olhei para ele.
–Você... É lindo.
Ele sorriu, eu o abracei e ele guardou suas asas.
–Eu amo você. -Ele disse e me beijou.
Nos beijamos, ele me levantou do chão, me segurando no alto, eu sorri, com meus lábios ainda nos seus.
–Também te amo. -Falei quando ele me colocou no chão, então o abracei novamente, eu poderia fazer aquilo mil vezes... Abraça-lo era de longe uma das melhores sensações possíveis pra mim. Eu sabia que não seria fácil ficar com Andrew, porém por ele eu encararia qualquer coisa.
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