Entre o Frio e o Fogo | Twilight Saga
12 Volterra
A luz tênue das tochas lambia as paredes de pedra com reflexos dourados e rubros. A sala era ampla, silenciosa, cheirando a tempo, sangue antigo e incenso. No centro, tronos de mármore escuro se alinhavam em um semicírculo irregular, como dentes de uma mandíbula à espreita.
Aro estava em pé diante de uma longa mesa com mapas e arquivos abertos, os dedos pálidos dançando sobre o tampo como aranhas pacientes. Marcus ocupava seu trono com o olhar perdido, sem se interessar muito no assunto, sempre achando uma completa perda de tempo. Caius, em contraste, estava tenso, o olhar cortante como lâmina exposta. Ele odiava lobisomens. Sabia que Jacob Black não era um desses, mesmo assim, o odiava. Qualquer ser que estivesse ao lado dos Cullen ele odiava.
Chelsea entrou na sala como uma sombra deslumbrante.
— Mandou me chamar, mestre? — Perguntou com a voz aveludada, mantendo a cortesia que sabia, no fundo, que era desnecessária.
Caius não a olhou, apenas gesticulou para que entrasse no pequeno espaço, onde eles passavam a maior parte do tempo quando não estavam no grande salão fazendo condenações. A sala na maior das torres do castelo — ao lado do quarto de suas esposas — era o local onde eles tomavam decisões importantes.
Aro levantou o rosto devagar, como se despertasse de uma visão antiga. Um sorriso levemente curvado apareceu nos lábios.
— Querida Chelsea, tão pontual quanto a lua. — Ele estendeu a mão em sua direção, quase como um convite. — Precisamos dos seus olhos e das suas correntes nos proximos dias ou semanas.
Chelsea se aproximou, silenciosa, parando ao lado dele.
— Nosso lobo chegará dentro de algumas horas — anunciou Aro, deslizando a ponta de um dedo pálido sobre o contorno de um mapa aberto à sua frente. — Como já sabemos, Jacob Black é um transmorfo, fruto de uma antiga magia tribal. Nós, vampiros, compartilhamos o mundo com inúmeras criaturas — algumas conhecidas, outras, nem tanto. Por enquanto. — Ele lançou um sorriso malicioso na direção da vampira loira, que o retribuiu com um brilho nos olhos.
— Temos planos futuros para Jacob — continuou, a voz carregada de satisfação. — E para isso, precisaremos de você.
— Isso o torna especial? — indagou Chelsea, com um tom entediado. — Ou apenas inconveniente?
Aro soltou uma risada baixa, quase afetuosa.
— É isso que iremos descobrir. Ou melhor, alguns de nós irão. — Ele fez um gesto suave com a mão, indicando a cadeira à sua frente. — Cassius nos informou que criaturas como Jacob escapam completamente da visão da nossa querida Alice Cullen. E como pedi a Jane que não o torture — um gesto simbólico de boa-fé —, ainda não sabemos até onde sua imunidade aos dons mentais vai.
Caius soltou um suspiro ruidoso e revirou os olhos, como quem assiste a um jogo de futebol americano humano com repulsa.
Aro voltou-se para Chelsea com um olhar mais firme.
— Quero que se aproxime dele. Com discrição. Teste seus vínculos. Veja se o seu dom encontra algum ponto de ancoragem. Quero saber se é possível plantar raízes.
— Ele é orgulhoso — comentou Marcus, sem emoção, como quem lê um relatório —, mas jovens sempre são. E o orgulho, às vezes, é apenas o disfarce mais frágil para o medo.
— E se não funcionar? — Chelsea perguntou, agora com um leve interesse.
— Ele passará por todos nós — respondeu Aro. — E por último, Jane e Alec. Jacob não desconfiará de nossas intenções se formos cuidadosos. Seremos generosos. Cordiais. Aqui será sua colônia de férias. Faremos com que acredite que estamos todos do mesmo lado da moeda.
— Ele é uma peça fundamental para alcançarmos os Cullen e sua destruição — rosnou Caius, com a voz carregada de ódio.
Aro o fitou brevemente, observando a raiva fervendo por trás da fachada de frieza.
— Precisamos entender cada aspecto da fisiologia e da mente de um transmorfo. Jacob é o primeiro passo. Depois, os Quileutes e os outros que Cassius acaba de nos revelar.
— Se conseguirmos fazê-lo se sentir confortável aqui — acrescentou Marcus, olhando para as pedras do chão —, ele criará laços. E, com o tempo, trará os demais com ele. Voluntariamente.
Chelsea sorriu, um canto da boca se erguendo com graça perversa.
— Já avisaram a Corin?
— Falamos com ela há pouco — respondeu Aro, gentil. — Vocês duas terão dias muito produtivos.
Chelsea riu, maliciosa.
— Eu adoro quando a diversão tem sangue quente.
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O céu sobre Volterra era de um cinza denso e uniforme, como se o próprio tempo se recusasse a mudar. O inverno ali não trazia neve — apenas o frio úmido que se agarrava às roupas e aos ossos, e o vento que soprava entre as ruas de pedra com um sussurro contínuo e antigo.
Assim que Jacob desceu os degraus do jato, foi como se algo invisível e denso o envolvesse — o frio da Itália era diferente do da Rússia. Não era o tipo que cortava a pele ou adormecia os dedos. Era o tipo que se infiltrava, silencioso e constante. Um frio de pedra antiga, de muros que já viram demais e continuam de pé, como se zombassem dos vivos.
A sensação era como estar entrando num território marcado — e ele era a presa.
O estômago revirou. Não de medo, exatamente. Mas de alerta. O mesmo tipo de sensação que ele teve na primeira vez em que viu Bella entre os Cullen — só que agora, mil vezes mais forte.
Jane já estava ao lado dele antes mesmo que ele percebesse. Diferente do que acontecera nas missões, ela estava em silêncio absoluto. Seus passos eram suaves, precisos, e seus olhos vermelhos não olhavam para Jacob — mas ele sentia que ela o percebia em cada movimento. Do outro lado da pista, Alec conversava com um dos membros da guarda que os aguardava na frente de um carro, estacionado rente à calçada. Cassius não estava ali. Nem qualquer outro rosto familiar.
Jacob caminhava em silêncio, os passos firmes sobre o asfalto úmido. O vento frio que soprava dali era diferente. Sentia o peso da cidade sobre os ombros mesmo antes de adentrá-la.
Então, a alguns metros do veículo, quando sabia que ainda era seguro e não estavam sendo observados, ela parou. Sem olhar para ele, estendeu uma mão pequena e pálida, e tocou levemente o braço de Jacob — com a ponta dos dedos apenas, como se qualquer peso a mais pudesse quebrar algo.
O calor do corpo dele pareceu ferver sob a pele onde ela encostou, como se rejeitasse o contato. Um choque morno e súbito percorreu seus nervos, uma sensação estranha de atenção forçada — como se o mundo inteiro tivesse se reduzido àquele toque.
Jane sentiu rapidamente a textura de sua pele: firme e macia ao mesmo tempo. O calor invadindo cada centímetro de sua pele morta e fria, como uma onda silenciosa de vida que queimava. Um lembrete cruel de tudo que ela não era mais. Tocar aquela pele quente era como encostar num coração que ainda batia, mesmo sem som.
Ela falou tão baixo que o som parecia se dissolver no ar:
— Não confie em ninguém lá dentro.
Jacob não respondeu imediatamente. Os olhos fixos no carro que os esperavam.
— Nem em você. — Murmurou, com a voz grave e seca, não como uma dúvida.
Jane assentiu, sem hesitação. Sabia que era verdade. Assim que entrasse no castelo Chelsea a atacaria como uma leoa faminta e ela não sabe o que aconteceria entre ela e Jacob a partir dali. Ela sabia que se sentia modificada toda vez que estava ali, voltando a ser apenas um soldado. Eles mandam, ela obedece. Sua lealdade era ao irmão mas também estavam ligados à guarda e aos mestres.
Sabia, no fundo, que poderia fazer coisas contra Jacob.Coisas que não queria.
A mão dela escorregou para longe do braço dele, fria como a ausência que deixava no lugar. E então, sem mais uma palavra, voltou a andar. Jacob a seguiu, mas parte dele ficou ali, preso no espaço entre um toque e uma promessa silenciosa de traição.
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O carro avançava em silêncio pelas ruas estreitas de pedra, cortando o coração antigo de Volterra como uma sombra em movimento. Jacob manteve os olhos fixos na janela, embora não soubesse exatamente o que procurava lá fora. Talvez um aviso. Talvez um presságio. Mas a cidade só devolvia a ele reflexos do passado — muros cobertos de musgo, portas escuras fechadas demais, janelas vazias como olhos que já viram demais.
O silêncio dentro do carro era absoluto, mas não confortável. Era um silêncio feito de coisas não ditas, de pensamentos pesados demais para quebrar com palavras. Jane não falava. Alec também não. E Jacob, pela primeira vez em muito tempo, não queria ouvir sua própria voz.
O castelo surgiu ao final da colina, crescendo atrás de uma cortina de névoa baixa como um monstro ancestral que aguardava há séculos por sua presa. Era maior do que ele imaginava. Jacob sentiu a respiração prender no peito. O carro atravessou os portões externos e, pela janela, Jacob enfim teve a visão completa do castelo — se é que aquilo podia ser chamado assim.
A Fortaleza dos Volturi não lembrava os castelos românticos que ele imaginava das histórias europeias. Era uma prisão mascarada de realeza. Uma fortaleza de guerra. Um colosso de pedra erguido não para acolher, mas para resistir. A estrutura era massiva, de pedra amarelada e escurecida pelo tempo. As muralhas externas se erguiam com brutalidade sobre a colina, sem adornos, sem concessões. Apenas força e silêncio. Torres cilíndricas se projetavam dos cantos como sentinelas eternas, e pequenas aberturas circulares nas paredes revelavam janelas de observação — não para ver o mundo, mas para vigiá-lo.
O portão interno de ferro era grosso, decorado com lanças fincadas nas barras como dentes de uma mandíbula ancestral. Acima dele, escudos de pedra carregavam símbolos esquecidos e brasões apagados pelo tempo — como se até a história ali tivesse sido devorada pelo esquecimento.
Jacob sentiu o estômago revirar. Aquilo não era um lar. Nunca fora.
Era uma prisão. Uma jaula disfarçada de palácio, onde os gritos eram silenciados por paredes espessas demais para ecoar.
Jacob saiu do carro com os músculos tensos, como se o próprio corpo soubesse que não estava em solo seguro. O ar era frio, sim — mas não apenas por causa do inverno. Era um frio carregado do peso de séculos de julgamento, sangue e silêncio. Um frio que vinha das pedras, não do vento.
Sentiu vontade de olhar para trás, de ver Jane — que havia sido a última a descer. Mas conteve o instinto. Temeu que qualquer gesto em direção a ela fosse interpretado como proximidade. E ali, naquele lugar, proximidade podia ser fraqueza. Ele precisava acionar o que restava do seu modo de sobrevivência — e sabia que, por mais que quisesse confiar, não poderia contar com ela para isso.
Jane, mesmo antes de cruzar completamente os portões, sentiu o peso familiar descendo sobre ela como uma neblina espessa. A sensação a invadiu com violência silenciosa, embaralhando seus pensamentos, como se mãos invisíveis revirassem gavetas dentro da sua mente, remexendo pensamentos e emoções com a brutalidade suave de quem já sabe exatamente onde apertar. Uma costumeira pressão emocional que a fazia querer ficar, que sussurrava que ali era seu lugar. Durou apenas alguns segundos até se sentir bem novamente, em casa.
Um suspiro discreto escapou de seus lábios. Por um instante, desejou mesmo estar ali. Desejou tanto que, se Jacob não estivesse à sua frente, talvez tivesse corrido para dentro da fortaleza — como alguém que volta de um exílio, encontrando refúgio nos braços do algoz que conhece.
Ela observou ele em silêncio. A postura firme, o andar tenso. Perguntou-se, com uma estranha inquietação no peito, o que ele estaria achando de tudo aquilo. Se havia gostado de sua casa, se o assustava ou apenas o irritava. E o mais alarmante... sentia-se animada com a ideia de ele conhecer seu mundo. Assustadoramente animada. Como se Jacob fosse um convidado que ela esperava havia muito tempo — alguém que, sem saber, carregava consigo uma peça que faltava naquele cenário gélido e eterno.
A ideia a perturbou.
Eles seguiram em silêncio pelo caminho de pedra que levava à entrada da fortaleza. As portas colossais já estavam abertas, revelando o átrio escuro onde figuras os aguardavam. Cassius, ereto como uma escultura de mármore, estava à frente, ladeado por Demetri, Felix e Santiago — todos em posição, como se cada chegada fosse um espetáculo coreografado para agradar o trono.
Jane não mentiria para si mesma: ver Cassius não lhe causou o alívio habitual. E isso a desconcertou.
Ali, dentro da fortaleza, ao lado dele, sempre se sentira confortável. Segura.
Cassius era seu parceiro ocasional, seu igual em missões e rituais, alguém que não precisava de sorrisos — apenas de presença. Mas agora, algo nela havia mudado. A presença dele a incomodava como se estivessem na Rússia ainda. Algo que sempre acontecia quando estavam fora, mas nunca quando estavam dentro.
Jacob sentiu o corpo tremer em alerta, ou talvez em raiva, por ver os outros vampiros da guarda, mas principalmente por ver Cassius. Alto, esculpido em mármore pálido e arrogância, com as mãos cruzadas nas costas e o queixo erguido como se esperasse reverência. Cassius o encarava como se analisasse um espécime. Como se esperasse ver selvageria, descontrole, algum traço que justificasse o desprezo que claramente escorria do seu olhar. E Jacob o devolveu da mesma forma: como se observasse algo podre coberto de ouro.
O ar entre eles se tornou mais pesado. Jacob sentiu os músculos do maxilar travarem. A pele da nuca formigava com o impulso de avançar — não para atacar, mas para mostrar que não se curvaria. O confronto já acontecia em silêncio. Era a disputa de dois predadores que não aceitariam o mesmo território.
Demetri desviou os olhos rapidamente de Cassius para Jacob, como se percebesse a tensão e já calculasse as possibilidades. Felix pareceu se preparar instintivamente, abrindo levemente os ombros. Santiago manteve a postura, mas seus olhos acompanharam Jacob com atenção redobrada.
Jacob e Cassius se encaravam como dois mundos que jamais deveriam se encontrar.
E ainda assim, ali estavam. Jacob quase sorriu. Não de simpatia, mas de desafio. Porque sabia que, se Cassius o odiava, era porque temia o que ele representava. Isso fazia seu ego ser elevado acima da torre mais alta daquele lugar.
Ele podia ouvir a respiração de Jane — silenciosa, mas presente — às suas costas. Por um instante, quis que ela dissesse algo. Qualquer coisa que cortasse a tensão com uma palavra.
— Sejam bem vindos de volta, irmãos. — Félix saudou. — Jacob Black. Aro irá recebe-lo no grande salão para as boas vindas.
Jacob assentiu. Alec, que estava a frente dele, parou e se virou para olhar a irmã, que se aproximava. Ela sorriu afetuosa para ele e foi direto para perto de Cassius, que lhe deu um beijo no topo da cabeça. Ela parecia mais confortável com ele aqui. Jacob se perguntou se era isso o que o dom de Chelsea fazia com ela. Se era essa a aliança que uniao os dois.
Eles seguiram em frente, como se já fosse costume, mas um pouco mais afastados. Antes de seguir pela entrada escura, Jane olhou rapidamente para Jacob, seus olhos ainda iguais aos da última conversa deles, tranquilos e ao mesmo tempo apreensivos por razões diferentes. Depois lançou um olhar mais demorado para Alec, quase cumplice. Então Alec se voltou para Jacob, com o mesmo olhar da irmã. Ele gesticulou para que Jacob seguisse em frente.
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O saguão principal da fortaleza era silencioso como uma cripta. Paredes de pedra bruta se erguiam em curvas severas, adornadas por tapeçarias que pareciam mais esconder do que decorar. Candelabros antigos pendiam do teto como garras de ferro congeladas no tempo, espalhando uma luz amarelada que não aquecia nada.
Jacob sentiu o cheiro do lugar antes de qualquer outra coisa. Era seco, velho, quase estagnado — como um quarto que jamais foi aberto, onde o tempo se acumulava nos cantos e escorria pelas frestas. O cheiro de vampiro era extremamente incômodo. Percebeu o quanto sentia falta dos Cullen nesse momento, por já ter se acostumado ao cheiro deles. Até Jane tinha um cheiro melhor.
Jacob caminhava em linha reta, mas seus olhos analisavam tudo: saídas, sombras, o número de vampiros visíveis. Os passos ecoavam demais. Sentia-se observado em cada músculo. Não com curiosidade, mas com cálculo. Apenas Alec estava ao seu lado. Todos os outros vampiros já estavam em suas posições no salão.
Conseguiu, forçosamente, conter sua curiosidade de olhar ao redor assim que passou pela porta. Por sua visão periódiaca conseguiu perceber que era enorme e muito alto. E com uma claridade surpreendente.
Vestido com túnicas negras, Aro estava ao centro, sentado com a compostura de um imperador em tempos de paz artificial. Os cabelos escuros caíam em ondas suaves até os ombros, e seus olhos, vermelhos e cintilantes, pousaram sobre Jacob como se já soubessem cada parte dele — como se o conhecessem antes mesmo de vê-lo.
Jacob parou, instintivamente. Não por respeito, mas por puro impulso defensivo. Era como se o ambiente ao redor se encolhesse diante daquele trono, como se tudo ali existisse para servi-lo — ou para queimar diante dele.
Aro levantou-se com uma lentidão medida, ensaiada, como se cada movimento seu fosse parte de uma coreografia antiga.
— Jacob Black — ele falou, e sua voz ecoou como o sussurro de uma corda de violino sendo afinada. Acolhedora, mas incômoda. — Um símbolo vivo de tempos em que jurávamos jamais nos misturar. Que honra tê-lo conosco.
Jacob não respondeu. Seu queixo estava erguido, os ombros retos. A tensão em seus músculos o impedia de relaxar. Seu corpo inteiro pulsava com energia reprimida, como se, a qualquer momento, pudesse explodir para fora de si.
Jane, do outro lado do salão, percebeu sua tensão. Seu instinto era estar ao seu lado, substituindo Alec. Ela dissera — não só para ele, mas principalmente para si mesma — que iria protegê-lo, e sua vontade era essa acima de qualquer coisa naquele momento. Estava extremamente apreensiva com a possibilidade de Aro descobrir que contara a Jacob sobre seu passado, sobre como haviam se aproximado além do que seria considerado normal entre dois inimigos — e, principalmente, por tê-lo avisado para tomar cuidado. Não saber como Jacob havia interpretado aquilo fazia seus músculos também ficarem tensos. Ela não queria que Aro a visse como uma traidora, pois não era.
Aro deu alguns passos à frente. Não se aproximou demais — ainda não. Caminhou em círculos sutis, como quem aprecia uma obra rara e perigosa.
— E não o culpo por estar em alerta — Aro prosseguiu. — Este lugar é um teste para qualquer alma, até mesmo aquelas que já não a possuem.
Jacob permaneceu calado. Seus olhos encontraram os de Jane por um instante. Ela estava ao fundo, parada ao lado de Caius, o corpo imóvel, mas os olhos presos nele com algo que beirava o desassossego.
— Vocês fizeram um trabalho excelente nas terras russas. Ficamos extremamente satisfeitos com o desfecho da história. As imagens nas memórias de Cassius sobre você e sua pequena alcateia foram impressionantes. — A falsidade em sua voz era notória, e fazia Jacob querer vomitar.
— Agradecemos a você e aos demais por colaborarem tão abertamente conosco — murmurou Marcus, de seu trono.
Aro riu com uma urgência contida, batendo palmas suavemente.
— É claro. Vocês formaram um grupo esplêndido. Mande meus agradecimentos aos seus irmãos também.
Jacob sentia como se suas palavras estivessem travadas. Não conseguia mexer um músculo.
— Vou avisá-los. — Foi tudo o que conseguiu dizer, grato por sua voz não ter falhado e ter saído da forma como desejava: firme.
Aro estendeu uma das mãos.
— Posso?
Jacob hesitou. Quase rosnou. A ideia de permitir que Aro invadisse sua mente, assim como Edward fez por anos, era insuportável. Mas também sabia que, ali, recusar significaria confronto direto.
Seus olhos buscaram os de Jane uma última vez, como se ela pudesse, de alguma forma, dizer o que fazer.
Ela moveu a cabeça em negativa. Um movimento quase imperceptível. Apenas quem realmente estivesse prestando atenção nela — como ele — poderia ter percebido. Ela havia dito que não era para confiar nela, mas agora estava lhe dizendo o que fazer.
Jacob respirou fundo, avançou dois passos e estendeu a mão com relutância.
Aro a segurou com leveza, mas seus olhos brilharam com uma intensidade quase febril. Por alguns segundos, não houve som. Apenas a troca invisível entre mente e mente.
Jane prendeu a respiração e apertou a manga de seu casaco com uma força que quase a rasgaria. Estava extremamente tensa. Não apenas por ela, mas também por Jacob.
E então, Aro soltou a mão de Jacob e recuou um passo. Seus olhos estavam mais sombrios.
— Fascinante — murmurou, encarando Caius e depois Marcus. — Só consigo ver as memórias do lobo. Não do humano. — Ele se virou novamente para Jacob. — Mas não posso negar que suas habilidades são extraordinariamente perfeitas.
Jane soltou a respiração com cautela, sentindo seu corpo relaxar. Eles se olharam novamente. Jacob demorou demais com os olhos nos dela, procurando qualquer coisa que fosse uma resposta silenciosa.
— Você bloqueia sua mente, lobo? — falou Caius, ríspido, como se Jacob fosse um pedaço de carne podre e nojenta.
— Seria um grande prazer se eu controlasse quem entra na minha mente ou não. Isso tornaria mais fácil minha convivência com Edward.
Aro soltou uma risada gutural, como se Jacob tivesse acabado de dizer a coisa mais prazerosa que ouvira em dias.
— Edward Cullen. Um telepata esplêndido também. Mas imagino que eu seja menos invasivo que ele, então suponho que nossa convivência possa ser, de fato, mais fácil.
Jacob o observou por um tempo, medindo as palavras. Contendo os inúmeros comentários irônicos que gostaria de realmente fazer.
— Eu espero que sim, majestade. — Foi a única coisa que conseguiu dizer. Irônico, porém não desrespeitoso.
Aro continuou sorrindo.
— Querido Jacob, estamos todos em família aqui. Pode nos chamar pelo nome.
Aro deu mais alguns passos pelo salão, as mãos cruzadas à frente como um monarca satisfeito com o espetáculo. Seu olhar recaiu novamente sobre Jacob, agora menos analítico, mas ainda cheio de intenções ocultas.
— Teremos assuntos a tratar, Jacob Black — disse ele, com aquele tom melodioso que soava como seda cobrindo lâminas. — Mas não esta noite. Imagino que a viagem tenha sido exaustiva.
A pausa foi medida. Como se quisesse observar a reação de todos à sua próxima frase.
— Vamos providenciar um quarto para que possa descansar com conforto. Queremos que se sinta... em casa.
Jacob não respondeu de imediato. Parte dele queria rir da ironia. Em casa. Como se isso fosse possível naquele mausoléu de pedra e manipulação.
Mas antes que qualquer resposta pudesse ser dita, uma voz se ergueu. Firme, clara — e, para todos os presentes, inesperada.
— Ele pode ficar no meu.
Todos se viraram para Jane. A própria parecia levemente surpresa por ter dito aquilo em voz alta, mas seus olhos não hesitavam. Estavam fixos em Aro, como um lembrete silencioso de que ainda tinha sua autonomia. E, talvez, seu jogo.
Aro estreitou os olhos levemente. Uma desconfiança polida em seu rosto pálido.
— No seu? — repetiu, a voz ainda doce, mas agora revestida de cautela.
Jane sustentou o olhar dele com firmeza. O mesmo olhar travesso, calculado e perigoso que ele conhecia desde os primeiros séculos de convivência. O olhar de alguém que estava escondendo uma peça no tabuleiro, mas que fazia isso com elegância suficiente para parecer parte do jogo.
— É o quarto mais afastado da ala principal — ela explicou, com naturalidade. — Mais silencioso. Acredito que será o mais confortável para ele. Eu posso ficar com Alec por um tempo.
Aro manteve o olhar nela por longos segundos. Parecia medir suas intenções com balanças invisíveis. E então, com um pequeno sorriso e um meneio de cabeça:
— Uma excelente ideia. — Ele virou-se para Jacob. — Siga com ela. Descanse bem esta noite.
Jacob assentiu, sem uma palavra. Sentia seu corpo pedir por descanso, mas sua mente continuava em guerra. Seguir Jane era seguro? Mas também era exatamente o que Aro permitira. E isso, por si só, o deixava em alerta. Seu instinto dizia para confiar. Sua razão, para fugir.
Mas de uma coisa ele tinha certeza: Cassius o odiava mais agora do que antes, e isso lhe gerava um prazer inenarrável. Teve que conter forçosamente um sorriso divertido ao olhar para ele.
Jane se virou e começou a andar, e ele a seguiu. Em silêncio. Seus olhos observaram as costas dela, a firmeza dos passos, a forma como nem olhava para trás. Queria sair correndo dali, mas ao mesmo tempo o fato de poder estar mais próximo dela, em seu quarto, fazia ele, inconscientemente, querer ficar.
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