Jacob a seguiu em silêncio, seus passos largos tentando acompanhar o ritmo acelerado de Jane, que caminhava à frente com uma pressa quase palpável.

Os corredores de pedra ecoavam o som preciso e frio de seus saltos, um contraste marcante com o caminhar pesado e atento de Jacob. Ele tentou quebrar o silêncio com um comentário simples, talvez para aliviar a tensão. Mas antes que terminasse a primeira palavra, Jane virou ligeiramente o rosto por sobre o ombro e sussurrou, ríspida, um "cala a boca".

Não foi alto, nem gritado. Foi seco. Uma ordem afiada, disfarçada de conselho. Jacob mordeu a língua, optando por obedecer — por enquanto. Não por medo, mas porque sentia que ela não estava com humor para qualquer interação, por mais inofensiva que fosse.

Desceram vários andares em um elevador estreito e antigo, que deslizava lentamente pelas paredes de pedra viva. Jane permaneceu à frente, imóvel e tensa. A proximidade silenciosa entre eles era desconfortável para Jacob. Estar tão perto dela e, ao mesmo tempo, tão distante, o deixava inquieto.

Quando as portas se abriram, revelaram mais corredores — compridos, silenciosos, labirínticos. Caminhavam em zigue-zague por passagens idênticas, virando por portas pesadas e cruzando pequenos arcos de pedra. Jacob tentou memorizar o trajeto, mas era inútil. O caminho parecia mudar a cada curva, como se o castelo escondesse seus próprios segredos. Mesmo que quisesse fugir, sabia que não conseguiria. Talvez, pensou, esse fosse o real motivo pelo qual Jane ofereceu aquele quarto: não havia como sair sem ser levado.

Ela finalmente diminuiu o passo, parando diante de uma porta de madeira escura com um entalhe discreto no centro — nada imponente, mas elegante em sua sobriedade. Jane se virou lentamente, o rosto ainda carregando a mesma tensão de antes.

— É aqui. — disse, seca, sem rodeios.

Jacob permaneceu parado por um segundo, olhando para ela, como se esperasse um gesto, um aviso, qualquer sinal de que realmente podia cruzar aquele limiar. Mas Jane não se moveu. Quando finalmente entrou, a surpresa o atravessou como um impacto silencioso.

Não era o que ele imaginava.

Nada de câmaras de pedra, paredes com espinhos, correntes, tapeçarias sombrias ou relíquias vampirescas. Nenhuma decoração gótica, nenhum tom de sangue nas paredes. Pelo contrário. O quarto diante dele não era apenas um espaço comum; era um refúgio moldado por mãos que conheciam a beleza e a delicadeza. A luz era morna, dourada. As arandelas nas paredes lançavam chamas suaves que não queimavam, apenas aqueciam o ar com uma calma silenciosa, quase cerimonial.

Seus olhos foram direto para a cama sustentada por quatro colunas robustas, entalhadas com precisão e reverência. O dossel, em tons de marfim e bege lavado pelo tempo, era coroado por um entalhe floral sutil, quase uma heráldica esquecida. Luzes miúdas, como vaga-lumes imortais, contornavam sua estrutura superior. Os tecidos que cobriam a cama pareciam ter sido escolhidos não apenas com gosto, mas com memória. Cada camada — do cobre rosado ao tom de chá seco — se dobrava com peso e elegância, como se repousar ali fosse um privilégio concedido, não adquirido. Havia almofadas demais para alguém prático como ele, mas nada ali parecia excessivo. Pelo contrário: tudo tinha sua razão, seu lugar, seu gesto.

Aos pés da cama, o banco estofado em veludo claro parecia esperar alguém que acabara de tirar os sapatos. Tinha a mesma tonalidade suave da cama, os pés torneados como pequenas colunas gêmeas, e o mesmo ar de silêncio antigo. À esquerda, uma mesinha guardava vasos com flores secas e livros com capas antigas, porém muito bem conservadas.

As paredes de pedra clara tinham ranhuras que ele não soube dizer se eram naturais ou esculpidas. O tempo parecia ter vivido ali dentro também — não como ruína, mas como bênção.

Ele inspirou fundo. Não havia perfume algum no ar, e mesmo assim sentiu a presença de algo — como se a essência de Jane estivesse impregnada em cada dobra do tecido, em cada trinca da parede, em cada centelha daquelas pequenas luzes fixas.

Era tudo humano demais.

Jane observava da porta, imóvel, como se esperasse pela reação dele. Jacob, por sua vez, sentia que acabara de invadir um segredo — não só o quarto de alguém, mas uma parte de quem ela era, que ninguém parecia conhecer.

— Tem certeza que esse é o seu quarto?! — Jacob perguntou, num sussurro entre a provocação e o espanto verdadeiro.

Jane soltou um meio sorriso. Curto. Quase tímido.

Ninguém jamais havia cruzado aquela porta. Aquele quarto era sua muralha, sua redoma particular. Ali, ela não precisava parecer uma arma — não precisava manter a postura, os olhos frios ou a voz afiada. Aquele espaço era o único lugar em que Jane não era parte dos Volturi. Era apenas ela.

Nem mesmo Cassius havia entrado ali. Não porque ela o proibira — mas porque ele nunca se interessou. Vampiros da guarda não ligavam para essas coisas. Não se visitavam, não partilhavam espaços pessoais.

— Você é o primeiro a entrar aqui. — disse, mais para o ar do que diretamente para ele.

Jacob se virou na direção dela, ainda de pé no meio do quarto. Sentia o contraste entre o mundo de pedra lá fora e aquele refúgio silencioso. Era como se tivesse encontrado um lugar escondido dentro de uma prisão — não apenas um quarto, mas um segredo. Um que Jane deixava escapar agora, por vontade própria.

— Isso não combina com você. — disse ele, voltando o olhar para os detalhes. — É calmo demais. Quase sereno.

— E o que você esperava? — ela rebateu, cruzando os braços. — Algemas nas paredes?

— Algo mais mortal. — respondeu com um sorriso enviesado.

Jane o encarou, mas não havia irritação no olhar. Apenas algo indefinido — um tipo de reconhecimento estranho, desconcertante, como se vê-la por ele a fizesse se lembrar de si mesma.

Ela caminhou lentamente até a lareira e acendeu o fogo com um movimento ágil. As chamas iluminaram seu rosto por um instante, revelando feições mais suaves, mais cansadas. Ficou de costas para ele por um momento, como se precisasse da distância para recuperar o autocontrole.

— Por que está fazendo tudo isso? — perguntou ele depois de um tempo observando-a.

Jane demorou alguns segundos para responder. Estava concentrada demais nas chamas da lareira dançando em um ritmo lento. Ou, pelo menos, era isso o que estava tentando fazer.

— Eu não sei — respondeu, quase num sussurro.

Jacob respirou fundo, impaciente, mas não elevou o tom.

— Sabe, pelo menos, por que me deixou ficar no seu quarto?

Ela se virou para encará-lo, os olhos carregando algo que ele ainda não sabia nomear.

— Porque é o mais silencioso — disse. — Você vai poder ficar mais à vontade. E o quarto do Alec é o da frente. Imaginei que se sentiria melhor estando perto de pessoas conhecidas.

As últimas palavras vieram mais baixas, quase inaudíveis. Ela desviou o olhar ao dizê-las.

— Eu estou preso aqui. Não vou me sentir mais confortável — rebateu ele, com aspereza.

Jane manteve os olhos sobre ele, impassível. Por fora, não demonstrava nada. Mas por dentro, algo ardia. Sentia-se culpada — e odiava sentir isso. Não queria Jacob ali. Queria que as coisas voltassem a ser como antes. Que ele tivesse voltado para a reserva, para o mundo dele, e ela continuasse isolada no seu. Mas ali estavam, diante um do outro, sem saber como haviam cruzado tantos limites invisíveis.

— Me desculpe — disse Jacob, sua expressão suavizando um pouco. Não sabia ao certo pelo quê pedia perdão. Talvez por ter sido rude. Talvez por existir ali.

Jane ensaiou um sorriso discreto.

— Eu sei o quão horrível é ter que ficar aqui.

Ela se surpreendeu com a própria sinceridade. Nunca havia conseguido dizer isso em voz alta ali. Nunca sequer tinha tido esse pensamento em sua mente dentro dos muros do castelo. Isso era algo inédito e estranho ao mesmo tempo.

Jacob a observou em silêncio. Havia algo diferente nela, algo beirando o estranho para a imagem sombria que ele criou dela e do irmão.

— Não é culpa sua que eu esteja aqui — ele murmurou. — Bom, pelo menos eu acho que não é...

Jane ergueu uma sobrancelha, sem humor.

— Eu ainda não quero você aqui — respondeu, direta.

— Você me odeia — disse ele, rindo, talvez para disfarçar o desconforto.

— Não tanto quanto você me odeia — ela respondeu com um sorriso curto, quase cúmplice.

O silêncio que veio em seguida não foi desconfortável. Olharam-se por alguns instantes, como se tentassem decifrar um ao outro por completo. Jane se perdeu na maneira como os olhos de Jacob pareciam atravessá-la, não com violência, mas com algo que lembrava curiosidade. Ela não entendia como conseguia ser tão honesta com ele. Aquilo a assustava. Já Jacob, observava os pequenos gestos dela — a forma como mexia os dedos, a maneira como hesitava antes de falar — e se perguntava por que alguém que dizia odiá-lo se preocupava tanto em tornar a sua estadia ali menos insuportável.

Jane desviou o olhar, como se algo lhe pesasse nos ombros. Caminhou até a porta, mas antes de sair, se virou para ele mais uma vez.

— Tenho que ir ver Aro — disse, com a voz firme, mas contida. — Quero explicar por que emprestei meu quarto de bom grado.

Jacob apenas assentiu com a cabeça, surpreso com a iniciativa dela. Não havia necessidade de se justificar — não com Aro — e ainda assim ela o faria.

— O banheiro é por aquela porta, à esquerda da estante — continuou, apontando com um leve inclinar de cabeça. — Tem toalhas limpas no armário ao lado da pia. A roupa de cama é nova.

Ele olhou para a cama, sem conseguir imaginar Jane deitada ali, fosse lá o motivo pelo qual uma vampira precisaria de uma cama.

— Alec vai trazer sua mochila em alguns minutos — ela completou, com a mão já na maçaneta. — Ele vai ficar no quarto da frente. Se precisar de qualquer coisa pode chamá-lo.

Jacob ergueu uma sobrancelha, surpreso.

— Vocês estão sendo estranhamente prestativos. Eu devia me preocupar?

Jane arqueou um canto dos lábios, um meio sorriso carregado de ironia.

— Talvez. Mas não com a gente.

Então saiu, deixando para trás um rastro de silêncio. Jacob ficou ali, sozinho no quarto de Jane, cercado por vestígios do que ela era longe dos olhos da guarda: uma organização meticulosa, uma paleta de cores frias e neutras, uma rigidez que ocultava uma inquietação silenciosa. E agora, ele também fazia parte daquele espaço.

Sem pressa, foi até a porta indicada. Girou a maçaneta com cautela e encontrou um banheiro tão impecável quanto o restante do quarto. As toalhas brancas estavam dobradas com precisão cirúrgica. No espelho, o reflexo dele parecia deslocado, como se pertencesse a outro mundo — o que, de fato, era verdade.

Ali, naquele local involuntário, ele começava a perceber que as linhas entre inimigo e aliado estavam se tornando cada vez mais borradas.

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A sala onde Aro fazia pequenas reuniões parecia ainda mais vasta sob o peso das presenças reunidas. As paredes de pedra escura abafavam os sons, mas não conseguiam conter a tensão que impregnava o ar. As tochas fixadas entre colunas maciças lançavam sombras vacilantes que dançavam sobre os rostos estáticos de Aro, Marcus e Caius — sentados em suas cadeiras de pedra esculpida, cada um uma estátua viva da autoridade que sustentava séculos de domínio.

Cassius, de pé ao lado de Caius, observava a cena com os braços cruzados e um meio sorriso irônico nos lábios. Seus olhos pousaram em Jane com um prazer cruel de quem mistura curiosidade e soberania.

— Ah, minha querida Jane... — disse Aro, a voz arrastada e afetuosa, enquanto ele emergia da penumbra com passos quase flutuantes. — O que a trouxe até mim tão cedo esta noite?

Ele parecia mais curioso do que preocupado, como um pai esperando que a filha confesse algo inofensivo — mas já prevendo o oposto.

— Vim esclarecer algo — respondeu ela, com um tom respeitoso, mas direto.

Jane se manteve ereta no centro da sala, as mãos cruzadas às costas, os olhos voltados para Aro. Seu rosto estava sereno, mas por dentro, cada palavra precisava ser cuidadosamente escolhida. Um deslize e sua decisão pareceria traição.

— Coloquei o lobo no meu quarto, pois é a ala mais isolada do castelo. Não há saídas próximas. E é o único aposento que fica exatamente de frente para outro quarto habitado: o de Alec.

Fez uma breve pausa, deixando que a lógica se assentasse.

— Nenhum outro cômodo oferece o mesmo nível de vigilância natural. E nenhum outro está tão afastado das áreas de maior movimentação. Se ele tiver qualquer ideia impulsiva não sairá de lá sem ser visto por nós dois.

Aro apoiou as pontas dos dedos umas contra as outras, os olhos semicerrados, ponderando. Seu semblante era curioso, quase brincalhão, mas Jane conhecia bem aquele tom: ele a estudava como quem gira uma peça de xadrez nas mãos antes de decidir onde colocá-la no tabuleiro.

— Uma escolha fria e eficiente — murmurou Aro. — Como sempre.

— Prefiro tê-lo onde posso ver. Onde não será um problema.

— Você poderia ter requisitado qualquer cela, qualquer espaço neutro — interveio Caius, com a voz cortante como gelo. — Preferiu abrir mão do seu refúgio pessoal?

— Eu sou uma vampira, não tenho refúgio pessoal. — Disse secamente. — E seja lá o que vocês planejem com ele, Jacob é esperto. Tratá-lo como prisioneiro não fará com que ganhem nada.

Marcus manteve o olhar perdido, como se sua mente estivesse longe dali, mas murmurou sem emoção:

— Curioso como os lugares se tornam prisões mais eficazes quando pertencem a quem não nos quer ali.

Jane não reagiu. Estava preparada para os comentários venenosos. Era assim que Volterra funcionava.

— Ele é instável e impulsivo. Não é bom ficar ao lado dele. — Provocou Cassius, a seriedade carregando suas feições.

— Eu não preciso de proteção. — Ela olhou diretamente para ele. — Ele será observado por mim e por Alec, sem descanso.

— Tem dezenas de guardas aqui. Não precisa ficar cuidando de um incômodo pessoalmente — insistiu Cassius, agora com a voz levemente irritada. — Isso é coisa pra subalterno, não pra alguém como você.

Jane cruzou os braços, como se cada palavra dita por ele estivesse prestes a evaporar.

— Eu já sou grande. Não estou pedindo permissão.

A resposta seca estalou no salão como um golpe.

— Olha só vocês dois, brigando novamente... — interrompeu Caius com um tom ácido, mas levemente divertido. — Tem alguma coisa acontecendo por aqui?

— Não — responderam Jane e Cassius ao mesmo tempo, a palavra escapando em uníssono, embora por motivos muito diferentes.

Aro riu suavemente, como se estivesse assistindo a uma peça de teatro que ele mesmo escrevera.

— Ah, como é bom ver juventude entre os séculos. Sempre tão impetuosa — disse, arrastando as palavras com gosto. — Mas agora que tudo está esclarecido, creio que podemos encerrar esta discussão. Jane já explicou sua escolha. E se ela garante que manterá a situação sob controle, confiaremos.

Cassius não respondeu. Apenas desviou os olhos, o maxilar rígido, a contragosto vencido naquele debate silencioso.

Jane se preparava para sair, já havia se inclinado levemente em sinal de respeito, quando a voz grave e quase esquecida de Marcus rompeu o silêncio como um trovão contido.

— Querida Jane... o que está disposta a arriscar em sua vida por nós?

Ela parou no mesmo instante, erguendo os olhos com uma expressão surpresa e, por um breve segundo, vulnerável.

— Como assim? — perguntou, com um tom mais hesitante do que gostaria.

Aro e Caius também se voltaram para Marcus, visivelmente intrigados. Aquilo não havia sido combinado. E Marcus, há muito tempo, não tomava iniciativa em voz alta.

— O que está disposta a fazer por nós? — repetiu ele, o olhar vazio fixo nela, como se procurasse ver além do corpo, além da lealdade visível.

O salão mergulhou num silêncio mais denso que antes. Até o som das chamas pareceu recuar, como se o castelo também escutasse.

Jane engoliu em seco.

— Tudo que for necessário — respondeu, com cautela, mas firmeza. — O que sempre fiz.

Marcus inclinou a cabeça para o lado, como se escutasse algo que ninguém mais ouvia.

— Então se aproxime dele.

O impacto da frase fez o ar no salão estremecer. Um uníssono desconcertado irrompeu na mesma fração de segundo:

— O quê?! — exclamaram Cassius, Caius e Jane, em perfeita sincronia, mas por razões completamente diferentes.

A surpresa dos dois vampiros foi quase cômica em contraste com o peso da reação de Jane. O impacto da ordem bateu fundo nela — não sabia se aquilo era um teste, uma armadilha ou algum tipo de prenúncio que ela ainda não compreendia.

— Aproxime-se do lobo — repetiu Marcus, com o mesmo tom neutro e distante de sempre, os olhos fixos em algum ponto entre o presente e o além. — Você e Alec foram os que passaram mais tempo com ele. Vigiá-lo não será o suficiente. Ele terá que confiar em vocês.

— Por quê? — rosnou Cassius, avançando um passo, o rosto contorcido pela indignação. — Um inimigo nunca confiaria em nós e nem nós nele. Isso não é estratégia, é fraqueza!

— Fraqueza é ignorar o que se aproxima. — Murmurou Marcus, como se falasse apenas para o eco de sua própria voz — A proximidade pode ser a única maneira de controlá-lo.

O salão ficou em silêncio. Todos os olhares se voltaram para Jane, que ainda tentava compreender as entrelinhas daquela ordem. Ela estudava Marcus, mas era como tentar decifrar a quietude de uma montanha — nada se movia, mas tudo nela gritava com significado.

Aro, por sua vez, parecia encantado com a tensão se formando diante dele. Seus olhos brilhavam com fascínio, como se estivesse assistindo a um espetáculo que esperou séculos para ver.

— Que interessante... — murmurou, os dedos entrelaçados sobre o colo. — Tão poucos passos, e já tão próximos do abismo. Você está disposta, minha querida?

— Ela não vai fazer isso. — rosnou Cassius, agora visivelmente mais alterado, dando outro passo à frente.

Jane hesitou. Seu olhar se fixou em Cassius por um longo segundo. Pela primeira vez, uma parte dela queria concordar com ele. Por um instante, queria dizer "não". Mas sabia que não poderia.

Ela virou lentamente o rosto em direção a Aro e Marcus. Quando falou, sua voz saiu firme, mas havia tensão por trás da rigidez.

— Não seria exatamente um prazer conviver com ele. Por que isso é realmente necessário?

— Porque ele é uma variável que não podemos prever — respondeu Aro com sua habitual doçura calculada. — E as variáveis são as mais perigosas. Precisamos de olhos que ele confie.

— Quer que eu ganhe a confiança dele para depois destruí-lo? — perguntou ela, incrédula, tentando conter o tom.

— E isso é um problema para você desde quando? — debochou Caius, o desprezo escorrendo na voz.

— Jane não é manipuladora, é uma executora. Ela causa o caos, não o alimenta com sentimentalismo — protestou Cassius, os olhos ardendo de fúria.

— Tem alguma coisa que está lhe incomodando, querido Cassius? — indagou Aro, como quem joga lenha numa fogueira só para ver o incêndio crescer.

— É claro que tem! — Cassius respondeu com firmeza, elevando o tom. — Não quero um lobo, um inimigo, perto da mulher que eu amo.

As palavras dele poderiam revirar o estômago de Jane ao mesmo tempo em que, de maneira involuntária, a atingiam com certa intensidade. Era desconcertante. Confuso. Sabia que, quando estavam longe de Volterra, ele a incomodava profundamente. Mas aqui, dentro dessas paredes, Chelsea deveria suavizar esse incômodo, fazer com que ele parecesse suportável — desejável até. E, ainda assim, o feitiço parecia falhar naquele momento.

Ela também invejava a audácia de Cassius. Ele não temia enfrentar os mestres. Era um dos mais novos ali, com pouco mais de cento e vinte anos ao lado deles, e só começou a se aproximar de Jane nos últimos cinquenta, quando ela, contra todas as probabilidades, permitiu alguma brecha para isso acontecer. Apesar de sua recente história na guarda, ele era, sem dúvida, o mais ousado — desafiando regras nas entrelinhas sempre que podia.

— As intenções do lobo indicam que ele tentará machucá-la? — perguntou Aro, como se testasse a lógica da discussão.

— É óbvio que não! — Cassius respondeu com naturalidade, como se a hipótese fosse absurda. — Eu o mataria no instante em que pensasse nisso.

— Então não vejo problemas — murmurou Marcus, a voz pairando como um veredicto calmo.

A sala mergulhou num silêncio pesado.

— Jane? — Aro chamou, virando-se para ela.

Ela prendeu a respiração, o maxilar trincado de tensão. Queria Jacob fora dali. Queria se ver livre dele e ao mesmo tempo sabia que isso iria protegê-lo, e queria isso — de um jeito estranhamente incômodo. Mas havia feito uma promessa para si mesma. Precisava, de todas as formas, mantê-lo vivo.

Quanto mais rápido tudo aquilo terminasse, mais rápido Jacob poderia voltar para Forks. Para longe. Para um lugar seguro. E talvez, com sorte, ela também voltasse a ser quem sempre foi.

Jane olhou para Cassius por um longo segundo. Tentava decifrar o que havia naquele olhar dele — algo entre ira e revolta mal contida. Havia admiração também, e posse, e raiva da possibilidade de alguém estar tão próxima dela, alguém que ele odiava.

Ela assentiu lentamente.

— Eu nunca desobedeci uma ordem — disse, os olhos ainda presos em Cassius, como se aquela afirmação fosse mais para ele do que para os outros.

Aro bateu palmas, animado, quase jubiloso com o desfecho.

— Excelente. Conversaremos pela manhã sobre os próximos passos do plano.

Jane assentiu brevemente e se virou, deixando a sala sem olhar para ninguém. Queria sair dali o mais rápido possível. Era difícil manter a expressão controlada quando, por dentro, tudo se torcia em desconforto e revolta. Mas ela não era como Cassius. Não se dava ao luxo de explodir. Ainda que, se quisesse, fosse perfeitamente capaz de machucar ou até destruir todos ali.

Mas seu foco era outro.

Ela teria que passar mais tempo com Jacob agora — e isso exigiria mais paciência do que ela tinha. E talvez mais dela do que ela estava disposta a entregar.


Notas finais
Para imaginar como seria o quarto da Jane, criei uma imagem em IA para vocês. https://img.wattpad.com/e409452a8f7ea0241a11931a6176b542f0405f38/68747470733a2f2f73332e616d617a6f6e6177732e636f6d2f776174747061642d6d656469612d736572766963652f53746f7279496d6167652f7a3363514b7642797270555561773d3d2d313535363438313234342e313835303933613063306361316139653838333434383532323030312e706e67?s=fit&w=1280&h=1280