Entre o Frio e o Fogo | Twilight Saga
10 Truques Silenciosos do Mestre
Jacob entrou na cabana com o rosto ainda marcado por pensamentos e silêncios, mas havia algo diferente em sua postura. Sentou-se no mesmo sofá de antes, agora já desperto, e observou Embry e Quil — que conversavam em voz baixa enquanto preparavam o café da manhã improvisado com as compras do dia anterior. A lenha estalava suavemente na lareira. Era um momento comum, quase pacífico. Mas para Jacob, cada detalhe parecia amplificado.
Ele não falou nada. Apenas aceitou uma caneca de café que Quil colocou ao lado, como um gesto silencioso de retomada da rotina. Não havia necessidade de palavras entre eles naquele momento. Era como se a presença de Jacob bastasse para manter o equilíbrio.
Quase uma hora depois, a porta rangeu devagar. Jane entrou.
A tensão foi quase imediata entre Quil e Embry. Eles se entreolharam, os ombros ficando rígidos, como se todo o ar tivesse sido sugado da cabana. Jane, no entanto, parecia alheia ao desconforto que causava — ou simplesmente escolhia ignorá-lo.
Ela parou perto da lareira, como se quisesse absorver o calor mesmo sem precisar dele.
— Ainda não consigo entender como vocês conseguem comer tantas coisas logo de manhã. — comentou, lançando um olhar breve para o prato de pão, ovos, pedaços de carne e frango sobre a mesa. O tom não era de crítica, soava quase como uma curiosidade sincera.
— Eu diria que estamos em fase de crescimento. — Jacob respondeu com um meio sorriso, olhando para ela. — Café quente, pão queimado, sobras do jantar... essas coisas mantêm a gente no eixo.
— A especialidade do Quil é pão queimado com carne dura. Ele é um chefe nisso. — Embry murmurou, tentando soar divertido.
Quil jogou uma migalha na direção de Embry, fingindo indignação.
— Minha culinária é rústica. Você não entenderia.
Jacob riu baixo, mordendo um pedaço de pão, mas seus olhos, mesmo enquanto sorria, voltavam para Jane. Ela continuava em pé, de braços cruzados, observando a interação com um olhar quase analítico — mas, pela primeira vez, não havia tanto desprezo. Só curiosidade.
Ela se aproximou devagar, ficando do lado oposto da mesa, de frente para Jacob.
— Vocês sempre fazem tanto barulho logo cedo? — perguntou, com aquele tom neutro, mas menos frio do que o usual.
— Só quando temos companhia internacional. — Jacob respondeu, apoiando os cotovelos na mesa. — Gente de fora traz um certo... glamour ao ambiente.
— Ou tensão. — murmurou Quil, sem encará-la diretamente.
O comentário pairou por um instante no ar. Jane desviou os olhos para Quil, mas ao invés de reagir, apenas arqueou uma sobrancelha. Era o tipo de provocação que antes ela teria usado como combustível. Mas agora se sentia diferente. Ela apenas observava, como se estivesse acima da necessidade de responder.
Embry, talvez tentando aliviar ou talvez só mantendo o humor ácido, murmurou com um sorriso torto:
— Achei que os italianos fossem conhecidos por serem muito barulhentos.
Jane desviou os olhos para ele, devagar, e por um segundo todos na sala ficaram em silêncio, esperando por alguma resposta cortante. Mas ela apenas virou o rosto de volta para Jacob, como se Embry fosse irrelevante demais para merecer uma réplica.
Jacob, que acompanhava tudo com um misto de tensão e divertimento, interveio:
— Ela não é italiana. É inglesa. E os ingleses fazem barulho só quando querem invadir o mundo ou tomar chá.
O comentário arrancou um riso abafado de Embry, que ergueu as mãos em rendição.
— Como sabe que ela é inglesa sendo que ela mora na Itália? — Quil perguntou, franzindo a testa, genuinamente confuso.
Jane virou os olhos lentamente para Jacob, o olhar carregado de provocação silenciosa. Queria ver como ele sairia daquela.
Jacob sustentou o olhar dela, a sombra de um sorriso nos lábios, e respondeu com naturalidade:
— Eu era muito bom em história na época da escola.
Jane abriu um sorriso largo — involuntário, quase inocente. Assim que se deu conta, virou o rosto discretamente e apertou os lábios, tentando conter a expressão antes que os garotos percebessem.
Jacob observou aquele gesto, facinado por ver ela sorrir, e o quão humano e comum parecia aquele sorriso. Estava quase maravilhado por ver essa parte dela, mesmo que sem querer. Ela riu pra ele. Riu da cumplicidade silenciosa dos dois.
Embry, sentado mais ao canto, deu uma mordida distraída no pão que queimara minutos antes — mas seus olhos estavam atentos. Ele observou a troca silenciosa entre os dois. Sem dizer nada, seus olhos se moveram devagar de Jacob para Jane, e de Jane de volta para Jacob. Não precisou de palavras para registrar que havia algo diferente ali.
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O sol já havia iniciado sua lenta descida no céu, tingindo a floresta de tons âmbar e acinzentados. Um silêncio calmo pairava sobre a cabana, quebrado apenas pelo som das vozes baixas de Quil, Embry e Jacob na mesa de madeira envelhecida. Os três conversavam sobre algo qualquer de futebol.
Jane, afastada do grupo, estava se distraindo com um livro que estava relendo, sem prestar muita atenção.
E foi nesse momento que a porta se abriu, deixando entrar uma lufada de ar gélido e uma figura conhecida.
Jane ergueu os olhos lentamente, fechando o livro com suavidade, mas sem pressa. A postura do irmão era firme, a expressão carregada de algo que ela reconheceu de imediato: tensão. Não era comum vê-lo assim.
Ele não falou com ninguém. Seus olhos foram direto para os dela.
— Demorou. — comentou Jane, tentando soar indiferente, embora seu corpo já estivesse em alerta.
Alec não respondeu de imediato. Se aproximou com passos calmos e parou a poucos metros dela. A voz veio baixa, quase imperceptível aos outros — mas cortante:
— Precisamos conversar.
A frase foi dita sem rodeios, sem sequer um olhar na direção dos lobos, como se eles não estivessem ali. Como se nada mais importasse naquele momento.
Jane sentiu os dedos apertarem levemente o livro em seu colo. O tom do irmão era claro. Algo importante havia acontecido.
Ela se levantou, mantendo o olhar fixo no dele. Por instinto, Jacob também ergueu os olhos, atento ao modo como Alec se comportava. Seu corpo ficando também em alerta, mas não disse nada.
Eles sairam rápidos como fantasmas porta afora.
Jacob trocou um olhar rápido com Embry, que franzia a testa, desconfiado. Quil apenas mastigava devagar, claramente tentando entender se aquilo era sério ou mais uma das esquisitices do convívio com vampiros. Mas Jacob já sabia: era sério.
Quando sentiram que estavam longe o suficiente dos lobos, Alec parou. Jane ao seu lado.
— Aro entrou em contato. — A voz de Alec saiu baixa, como se falasse com a própria névoa.
Jane sentiu o corpo ficar ainda mais tenso.
— Está satisfeito. Mais do que isso, está... encantado com o desfecho. Disse que poucos resultados, nos últimos séculos, o agradaram tanto quanto esse. — Jane manteve os olhos fixos nos troncos à frente, sem responder. — Está impressionado com a trégua. Acha que há um "potencial estratégico delicado" nessas alianças improváveis. Suas palavras, não as minhas.
Jane girou levemente o rosto em sua direção, estreitando os olhos.
— Mas...
— Ele quer que Jacob volte conosco para Volterra. — Alec hesitou um pouco, falando mais lentamente do que o costume, observando as reações de Jane.
A gêmea ficou em silencio por um longo tempo, olhando para o nada. Sua mente fazendo uma varredura em todos os séculos que esteve ao lado dos Volturi e tentando pensar em uma única situação onde isso ocorreu, e não conseguiu lembrar de nada.
— Por que? — Sua voz falhou minimamente.
— Aro quer agradecê-lo pessoalmente. Conhecê-lo. "Estreitar os laços de confiança", como ele disse.
Jane soltou uma risada seca, sem humor.
— Nem ele mesmo acredita nessa mentira. — Sua irritação era evidente, mais afiada que o habitual. — Nunca deixamos um inimigo atravessar os portões de Volterra. Por que agora?
— Talvez Aro tenha visto algo em Cassius e queira verificar com os próprios olhos.
Jane bufou, descrente. Sentia sua raiva se alastrar pelo seu corpo. Uma fúria crescendo sem que ela conseguisse conter. Se quer sabia o porquê.
— E você confia em Cassius?!
— Não importa o que eu acho ou em quem eu confio. Aro não pediu nossa opinião. Só quer que o lobo vá junto. — Alec ainda estava calmo, mas demonstrava desconforto também.
Jane ficou em silencio. Deu alguns passos para longe, prendendo o cabelo de volta no coque rígido de sempre, como se precisasse daquela ordem externa para conter o caos interno.
— E se ele não quiser ir? — perguntou por fim, ainda de costas, a voz baixa, controlada demais.
Alec hesitou antes de responder.
— Então Aro vai considerar um insulto, um sinal de deslealdade.
— Uma ameaça. — Jane corrigiu, voltando-se lentamente para encará-lo. — E Aro não tolera ameaças.
O silêncio entre os dois ficou denso. A neve continuava a cair em flocos preguiçosos, indiferente ao turbilhão que crescia ali.
— Por séculos, eles nos ensinaram que os lobos eram bestas primitivas e agora ele quer um deles dentro do castelo? Perto de Chelsea? De Corin?
— Talvez seja exatamente por isso — disse Alec. — Para ver o que resta da fera quando cercada de controle sobrenatural.
Jane o encarou, os olhos estreitos, afiados como lâminas.
— Ele quer mais poder. Quer usá-lo, como faz com todos nós. — Constatou.
— Você se surpreende? — Alec usou de sua irônia para dizer o quanto estava insatisfeito com aquela situação também.
Ela desviou o olhar, e por um instante, Alec viu a sombra daquilo que Jane lutava tanto para esconder: o medo.
Jane estava imóvel por fora, como sempre. Mas ele a conhecia em cada fibra. Cada tensão no maxilar, cada sutil enrugar da testa, cada silêncio prolongado — tudo nela gritava. A forma como apertava a base do coque recém-preso, os dedos pálidos quase trêmulos. Ela estava tentando manter o controle. E falhando.
Ele deu um passo mais próximo, a voz baixa, mas firme:
— O que aconteceu enquanto eu fiquei fora?
Jane virou o rosto lentamente. O encaro foi breve, mas o suficiente para que Alec visse o conflito nos olhos dela.
Ela confiava nele — com tudo que tinha. Mas havia algo ali que parecia maior do que o orgulho, maior até do que a lealdade. Ela considerou falar sobre a conversa com Jacob, mas não conseguiu. Dizer em voz alta era tornar real, e ela não estava pronta para isso.
Seu silêncio foi resposta suficiente para Alec entender que algo havia mudado entre Jacob e a irmã. Ele respeitaria isso. Por enquanto.
— Quais são as nossas opções? — perguntou Jane, por fim, com a voz neutra demais para ser sincera.
— Poucas. Na verdade, quanto à ida dele, nenhuma. Não é um convite. É uma convocação.
Jane apertou os lábios. Os olhos fixos em um ponto qualquer no vazio da floresta.
— E lá? Quais opções teremos dentro do castelo?
Alec a observou por um momento. Quando respondeu, sua voz vinha mais baixa, mais cuidadosa.
— Você quer mantê-lo a salvo?
Foi uma pergunta simples. Mas carregada de significado. Não era uma acusação.
Jane não respondeu. Não negou. Apenas caiu novamente no silêncio, refletindo — e isso, por si só, já dizia tudo.
Passaram-se alguns minutos até que Alec voltasse a falar, o olhar perdido entre os galhos cobertos de neve.
— Alice não pode ver o futuro dele, certo? — Jane assentiu. — Se os lobos são imunes a certos dons, não há como prever o que vai acontecer com Corin e Chelsea. Mas há chances.
Ele fez uma breve pausa, como quem calcula cada palavra.
— Corin ficará com as esposas, como sempre. Aro nunca as deixa sem ela por perto. Já Chelsea... ela só pode manipular sentimentos que já existem. E se houver algo, vai ser a primeira vez que ela o verá. Ou seja, quando ele sair de perto dela, aquilo se dissipa. É temporário.
— Diferente de nós — murmurou Jane.
— Sim. — Alec a olhou. — Estamos sob a influência dela há séculos. Por isso demora tanto para enfraquecer mesmo quando estamos longe. Mas com ele será diferente.
Jane assentiu lentamente, a mente costurando cada uma das possibilidades. Era como se estivesse construindo um quebra-cabeça de riscos e medos — e cada peça tinha o rosto de Jacob gravado.
Jane permaneceu em silêncio por um longo momento. Cada célula de seu corpo parecia tensa, como se conter uma explosão iminente exigisse esforço físico. O nome de Chelsea pulsava em sua mente como um alerta vermelho. Ela conhecia bem os efeitos do dom da vampira. Sabia como ele corroía a vontade própria, amarrando os sentimentos até que se confundissem com obediência cega.
Ela deu um passo à frente. A voz saiu como um sussurro abafado, baixo o suficiente para não alcançar nem as árvores.
— O que você faria por mim?
Alec arqueou uma sobrancelha, surpreso pela pergunta — e pela forma como ela foi feita. Riu, sem humor, e respondeu com a mesma suavidade:
— Você não precisa de uma resposta pra essa pergunta, Janie.
Ele ergueu a mão, segurando o rosto da irmã com delicadeza rara, como se ela fosse feita de vidro e lava ao mesmo tempo. Com a ponta dos dedos, fez um leve carinho em sua bochecha, como costumava fazer sempre.
— Minha lealdade é a você, não a eles. Você sabe até onde Chelsea consegue chegar em mim, assim como eu sei onde ela toca em você. Mas o que você fizer, decidir ou sentir... estarei ao seu lado.
Jane manteve os olhos fixos nos dele, e por um instante parecia que ia ceder. Que deixaria cair todas as defesas. Mas, como sempre, ela apenas assentiu uma vez, breve, firme, e recuou um passo. Não por desconfiança — mas por sobrevivência.
— Quando partimos? — perguntou, com a voz baixa. Estava cansada. Cansada demais de tudo aquilo.
— Amanhã à noite.
Jane suspirou, os ombros afundando levemente com o peso da resposta.
— Não vou contar isso a ele.
— Tudo bem. Eu sempre fico com a pior parte mesmo. — Alec sorriu, tentando quebrar o clima pesado, esperando arrancar ao menos um meio sorriso da irmã. Mas não teve sucesso. — Vem cá.
Ele a puxou para um abraço apertado, e, para sua surpresa, Jane não resistiu. Aceitou o gesto de bom grado, encostando o rosto contra o ombro dele. Por um breve instante, era como se o tempo tivesse parado. Como se fossem apenas os dois de novo, como sempre foram.
— Você é tudo o que eu sou — disse Alec, num tom mais suave. — Se proteger o lobo é o que você quer... não vou questionar seus gostos duvidosos.
Jane lhe deu um tapa leve nas costas, com a força exata entre repreensão e carinho.
— Estou brincando! — Alec riu, apertando o abraço antes de soltar. — Eu te amo, Janie.
— Eu também. — Ela respondeu, num sussurro quase imperceptível, mas sincero.
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Os gêmeos voltaram para a cabana sem pressa. O frio cortava o ar, mas Jane sentia como se seus pés estivessem grudados ao chão. Cada passo exigia mais do que ela queria admitir. Não era o cansaço físico — era o peso de algo que não conseguia nomear.
Estava irritada. Com tudo. Com ela mesma, principalmente. A vida de um inimigo nunca deveria ser preocupação sua. Jacob deveria ser irrelevante. Um obstáculo, no máximo. Mas agora ele não era. Não só para ela — mas também para Alec. E isso mudava tudo.
Jane nunca teve medo dos Volturi. O que sentia era respeito — e, antigamente, até uma forma distorcida de admiração. Sabia, no fundo, que eram eles que deveriam temê-la. A ela e a Alec. E o fariam, se não fosse pela certeza implacável da lealdade dos dois.
Lealdade mantida, é claro, por Chelsea.
O que Aro não sabia — por não tocar suas mentes há muitos anos — é que eles estavam exaustos. Fartos daquela estrutura, daquela máquina fria que os usava como lâminas silenciosas. Só não haviam saído ainda porque nunca houve uma opção real, uma chance concreta de ruptura.
Chelsea garantia que o vínculo se mantivesse forte. Mas as missões a distância estava criando rachaduras, se tornando perigosas, reveladoras.
Cassius, Demetri e os outros eram parte do problema. Jane nunca quis enfrentá-los. Não por medo — mas por puro tédio. Sabia que, se começasse essa guerra interna, não haveria volta. E talvez, até pouco tempo atrás, ela ainda achasse que não valia a pena.
Quando Jane e Alec voltaram ao cômodo principal, a luz da lareira ainda crepitava suavemente, lançando sombras quentes nas paredes da cabana. Quil e Embry conversavam em voz baixa, rindo de algo que só fazia sentido entre eles. Jacob estava de pé, encostado à beira da janela, de costas para a porta dos fundos. Seu corpo relaxado, mas os sentidos sempre atentos.
Todos se viraram. Jacob olhou primeiro para Alec e, depois, para Jane. Os olhos dele se demoraram nos dela, como se buscassem alguma resposta silenciosa. Mas tudo o que encontrou foi o rosto inexpressivo dela. Um escudo.
— Recebi uma mensagem de Aro. — A voz dele cortou o ambiente com firmeza. — Ele está satisfeito com o que fizemos aqui. A missão está oficialmente encerrada.
Embry e Quil trocaram olhares rápidos. Jacob permaneceu imóvel, atento.
— E então? — Jacob perguntou, já prevendo que aquilo não era tudo.
— Ele quer te ver. Pessoalmente. — Alec continuou. — Solicitou que você vá até Volterra com a gente.
O silêncio que caiu foi espesso como a névoa da floresta. Embry franziu o cenho, desconfiado. Quil arregalou um pouco os olhos.
Jacob encarou Alec por um segundo e depois olhou para Jane.
Ela não desviou o olhar — mas também não disse nada. Nem um único movimento. Nenhuma negação. Nenhum aviso.
Jacob engoliu seco.
— Por quê?
— Ele não disse. — respondeu Alec, sem hesitação. — Apenas que é importante. Que está interessado em conversar com você diretamente. E que confia em nós para levar você em segurança.
Jane continuava imóvel. Jacob sentiu como se a resposta real estivesse ali, no meio do silêncio dela — em tudo o que ela não estava dizendo. Havia algo não dito, algo que queimava por trás daquele olhar calado, mas ela se mantinha irredutível. Como sempre.
Ele deu um leve passo para o lado, desviando o olhar dela, tentando recuperar o controle do próprio raciocínio. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Embry se adiantou, sua voz firme quebrando a tensão:
— Por que deveríamos confiar em vocês?
Alec sequer vacilou. Sua postura, como sempre, era precisa, e seu tom se manteve calmo:
— Porque salvamos a vida de vocês várias vezes.
Embry mordeu a parte interna da bochecha, prestes a rebater, mas foi Quil quem falou primeiro:
— Jacob também salvou a vida da Jane. Nem por isso ela confia nele.
A frase pairou no ar como um soco.
Jane abaixou os olhos, finalmente deixando de olhar para Jacob. O corpo dela estava gritando. Gritando inúmeras coisas. Coisas que a mente tentava silenciar — orgulho, confusão, medo, culpa... Tudo em guerra dentro de si.
— Quil... — Jacob o repreendeu com um tom calmo, mas firme. Sabia que Jane não precisava ser exposta daquela forma. Não ali. Não agora.
— É a verdade. — rebateu Quil, irritado, a voz carregada de frustração. — Estamos aqui porque eles precisaram de nós. Arriscamos nossas vidas por um problema que não era nosso. E agora querem que você vá se enfiar numa jaula de leões famintos e você é o pedaço de carne mais suculenta que existe?! Eu não confio em nenhum de vocês. — Olhou para Jane e Alec como se a qualquer momento fosse se lançar sobre os dois. Seu corpo irradiava calor, o tipo de calor que prenunciava uma transformação.
— Quil, se acalma. — Embry colocou a mão em seu ombro, sentindo a vibração do corpo do amigo prestes a perder o controle.
Mas não adiantava. Quil já estava tremendo, os punhos cerrados, a respiração descompassada. A raiva não encontrava mais espaço para ser contida.
Alec fez um movimento sutil com as mãos. A névoa começou a se formar devagar, flutuando ao redor de seus dedos como um aviso silencioso. Ele se manteve imóvel, atento, mas pronto.
Jane se focou em Alec. Um gesto bastaria, e ela também se moveria. Não queria causar dor. Mas também não hesitaria.
— Quil, fica na sua. — Jacob lhe chamou a atenção. Sua voz soando como um trovão. Como um alfa. — Isso é uma ordem.
O silêncio que se seguiu foi denso e cortante. Quil segurou o olhar de Jacob por alguns segundos, a mandíbula travada. Mas, por fim, abaixou a cabeça. Passou por Alec com força, esbarrando propositalmente no ombro dele antes de sair da cabana.
Jacob lançou um olhar para Embry, um pedido silencioso. Embry entendeu e saiu logo atrás do amigo, sem dizer uma palavra.
A porta bateu devagar, deixando um eco discreto no ambiente.
O silêncio voltou, espesso como neblina.
Alec desfez a névoa com um simples gesto, e só então Jane respirou com mais profundidade. Ela ainda não havia se movido.
Jacob estava com os olhos fechados, massageando as têmporas. O cansaço, o peso da responsabilidade e o conflito interno o esmagavam.
— Isso foi desnecessário. — murmurou ele.
Jane respondeu com a voz baixa, mas firme:
— Ele não está completamente errado.
Jacob olhou para ela com intensidade, mas não rebateu. Ela o fitava agora com uma estranha mistura de dureza e vulnerabilidade. Por mais que a máscara dela tentasse se manter intacta, ele conseguia enxergar as rachaduras.
— O que Aro realmente quer comigo? — Jacob quebrou o silêncio, encarando Jane diretamente. Sua voz era firme, carregada de desconfiança.
Jane sustentou o olhar, mas seu corpo pareceu murchar levemente. A resposta escapou num sussurro quase inaudível:
— Eu não sei.
A sinceridade na voz dela o atingiu de forma estranha. Mas ele ainda estava tenso, furioso, e não conseguia — ou não queria — ceder à parte de si que acreditava nela.
— E por que eu deveria confiar em você? — ele rosnou, a mandíbula travada. Mesmo tão perto dela, não conseguia mais conter o ressentimento e a raiva.
Jane hesitou. As palavras pareciam queimá-la por dentro.
— Porque eu sou a última pessoa que quer ver você em Volterra. — disse, por fim. Sua voz estava baixa, mas cheia de verdade.
— Ótimo! Voltamos a nos odiar, então?! — Jacob a encarou, como se pudesse atravessar a muralha invisível que ela estava reconstruindo entre os dois.
— Eu achei que você fosse um pouquinho mais esperto. — Jane respondeu, com um sorriso irônico que não alcançava os olhos.
— Jacob, sabemos que Volterra não é o melhor lugar para alguém como você estar — interveio Alec, mantendo a voz controlada.
— Acha que quase morremos aqui? — Jane continuou, ignorando o irmão. — Lá é muito pior.
Ela apoiou as duas mãos na mesa, inclinando-se para frente, repetindo o gesto de quando discutiram na casa dos Cullen. Os olhos dela estavam intensos, como se quisessem forçá-lo a entender.
— Eu não sei o que Aro quer com você. Eu obedeço ordens, não as dito. Mas eu posso te dizer o que você vai encontrar lá: dons que podem te prender, ao lugar, às pessoas, para sempre. Se você for, talvez não volte. Aro pode querer te manter como arma, exibir um lobo sob seu controle para assustar outros clãs. Ou pode simplesmente decidir matar todos vocês. Começando por você.
Ela fez uma pausa breve, e sua voz desceu para um tom mais grave.
— Acha que eu sou cruel? Você ainda não viu do que ele é capaz. Aro é ardiloso, manipulador. Ele suga tudo o que há de bom em você até restar só uma casca.
Jacob soltou um riso seco.
— Desculpa, isso era pra me convencer?
— Isso é pra te fazer enxergar que isso não se trata do que aconteceu hoje de manhã — disse ela, firme — e sim do risco real que sua vida corre.
Alec observou a troca com atenção. Olhou de Jane para Jacob, e por um momento pensou em intervir, perguntar o que havia acontecido entre eles, mas percebeu que aquele não era o momento. Ainda não.
— Não parece que me foi dado um direito de escolha. — Jacob soltou, com ironia amarga.
— E não foi. — respondeu Alec, direto.
— Se eu me recusar e for embora, imagino que vocês não vão me impedir agora, mas isso não vai durar. Mais cedo ou mais tarde, vocês apareceriam na minha porta. E aí, eu estaria colocando em risco minha alcateia, a de Sam, minha família... e de quebra, os Cullen. Mas se eu aceitar ir com vocês, posso nunca mais voltar. Ou morrer por lá mesmo. E aí, todos esses que mencionei vão bater na sua porta atrás de vingança.
— Eu disse que você corria risco de morrer — murmurou. — Não que você vai morrer.
O silêncio que veio a seguir era denso, carregado de tudo o que não podia ser dito. Jacob sustentava o olhar em Jane, mas não encontrava mais a raiva de minutos atrás. Estava cansado demais para sentir ódio.
Por fim, ele desviou o olhar. Caminhou até a janela, observando a quietude das árvores. Embry e Quil estavam ali fora, sentados em silêncio — como se estivessem apenas esperando o próximo passo, o próximo golpe do destino.
— Quando? — Perguntou em um sussurro, quase sem força.
— Amanhã à noite. — Respondeu Alec, com aquele mesmo tom calmo e inquebrável. Como se nada jamais pudesse atingi-lo.
Jacob suspirou, sentindo o peso de tudo se acumular sobre seus ombros. Era como se sua vida estivesse sempre no fio da navalha. Antes, sentia que era Bella quem o arrastava para o caos, com sua humanidade frágil, sua incerteza cruel. Agora, a culpa ainda era de Renesmee. Tudo isso começou com ela. E, de novo... Bella.
Havia uma amargura incômoda naquele pensamento. Sentia-se ingrato por ter raiva da felicidade de Bella — de sua vida perfeita, de seu desfecho tranquilo — mas era impossível não pensar que tudo teria sido diferente se ele não tivesse se apaixonado por ela quando era só um garoto. Se não tivesse se deixado consumir por uma paixão adolescente. Aquela ingenuidade lhe custara tudo. E o estava custando de novo, de um jeito diferente.
— Preciso pensar um pouco. — Disse, finalmente.
— Jacob... — Alec começou, num tom de alerta, prestes a lembrá-lo que ele não tinha escolha.
— Eu não me recusei — interrompeu, ríspido. — Só disse que preciso pensar.
Jane foi a primeira a se mover. Seus olhos, que até então estavam fixos no chão, se ergueram apenas por um instante. E depois, desviaram novamente. Ela não disse nada. Apenas se afastou, como se o simples movimento bastasse para proteger o que ainda restava de sua muralha.
Jacob saiu logo em seguida. O frio do lado de fora era bem-vindo. Doía na pele, mas ajudava a clarear a mente. Ele precisava disso — de ar, de distância, de um instante sem olhares pressionando suas decisões.
Alec observou a porta por alguns segundos antes de se virar para a irmã.
— Você precisa saber o que está fazendo. Você está vendo como ele é... se você entrar nisso, não vai ser ele que vai sair. — disse em voz baixa.
Jane o encarou, como se ele pudesse estar vendo algo a mais que ela não estava.
Do lado de fora, o frio apertava. A floresta parecia ainda mais silenciosa agora, como se também estivesse à espera da próxima decisão.
Embry seguiu Jacob em passos lentos, atento. Jacob caminhou em direção ao mesmo lugar onde, horas antes, estivera com Jane. Onde ela havia exposto o que talvez fosse a lembrança mais dolorosa de sua existência. Jacob fitava o tronco onde se sentaram, como se ainda pudesse vê-la ali, envolta em sombras e cicatrizes antigas.
Ela havia contado como foi transformada. Mas não como Aro a transformou naquilo. Que tipo de moldagem silenciosa havia acontecido depois que o veneno matou o que restava de sua humanidade?
Cada vez mais Jacob tinha certeza de que o Aro que conhecia — o que Bella conheceu — era só uma parte do verdadeiro monstro. A outra parte, a parte que não sorri, vivia escondida dentro dos corredores frios de Volterra.
— Jake... — Embry o chamou, parando a alguns metros. Sua voz era baixa, quase um sussurro. — Você não pode fazer isso. Não sozinho. Deixa eu ir com você.
Jacob balançou a cabeça, ainda olhando para o tronco diante dele.
— Eu preciso que você volte pra La Push com o Quil.
— E se eu recusar?
Jacob se virou devagar, os olhos firmes.
— É uma ordem. Eu sou seu alfa. Você não vai recusar.
— Mas sua vida está em risco. Como eu posso deixar meu alfa ir pra um lugar de onde talvez não volte?
Jacob suspirou. Sabia que Embry só queria protegê-lo. Mas era exatamente por isso que ele não podia deixá-lo ir.
— Olha, eu também não confio neles. Mas estamos sem saída. O Drácula real quer a minha cabeça como prêmio ou punição. Na melhor das hipóteses, eu faço o que ele quer e ele me libera.
— E na pior, você morre. — Embry disse sem rodeios, a voz trêmula de frustração.
Jacob o encarou por um momento longo.
— O que eu vou falar pro Billy quando eu chegar na reserva sem o filho dele?
Jacob sentiu o peso da pergunta. Billy sempre ficava aflito quando o filho se envolvia em qualquer conflito, mas também sabia — melhor do que ninguém — o que era viver para proteger os outros. Ele havia crescido vendo seu pai, Ephraim, carregar esse fardo.
— Diz pra ele que fui consertar a merda que os Cullen deixaram pra trás... e que já volto. — tentou sorrir, mas o humor não alcançou seus olhos. — Nada de novo.
Embry abaixou a cabeça. Ele sabia. Sabia que quando Jacob decidia algo, era praticamente impossível fazê-lo voltar atrás. Ainda assim, doía. Doía vê-lo partir para algo tão incerto.
— Você sempre liderou melhor do que eu. Sempre teve a cabeça no lugar. — Jacob continuou. — O Seth é bom... mas é novo, e a cabeça dele tá mais na Renesmee do que em liderança. Você fica no comando. Até que eu volte.
Embry soltou uma risada abafada, amarga.
— Você fala como se isso fosse só um passeio. Tipo: "Tô indo em Volterra resolver um probleminha, volto em dois dias..."
— Estou tentando ser otimista de que realmente é só isso. — Confessou Jacob.
Eles ficaram ali, em silêncio por alguns segundos. Embry então estendeu a mão, e Jacob apertou, firme.
— Se você não voltar, eu vou atrás de você.
— Eu sei. — respondeu Jacob. — Por isso mesmo, preciso que você fique.
Embry assentiu. Não havia mais o que discutir.
Jacob olhou mais uma vez para a floresta silenciosa, sentindo o vento frio cortar sua pele. Mas o que ardia mesmo era o que vinha depois.
O amanhã.
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