Entre o Frio e o Fogo | Twilight Saga
11 Nomeando os Perigos
O dia se arrastava, cada minuto esticado em uma eternidade torturante. O tempo, um carrasco silencioso, parecia ter conspirado para que Jacob tivesse tempo demais para pensar. E pensar era um luxo que ele não podia se dar, um abismo que ele vinha evitando a todo custo.
Desde que a voz gélida de Alec pronunciara a palavra "Volterra", um nó de chumbo se instalara no fundo do peito de Jacob. Não era apenas medo, mas uma corrente elétrica de adrenalina, um senso de urgência que se chocava com uma desconfiança visceral. Uma voz teimosa, um sussurro insistente em sua mente, repetia sem cessar: Você não deveria ir.
Mas ele iria. A inevitabilidade era um grilhão invisível, mais forte que qualquer corrente. Não havia escolha. Recusar significaria a ira dos Volturi se voltando contra La Push, contra os Cullen, contra seu pai, suas irmãs. E Jacob, com a alma marcada pela responsabilidade, sabia que seu destino era ser o escudo, o sacrifício, antes que o mundo desabasse sobre aqueles que amava.
Ele passou a maior parte da noite do lado de fora da cabana, um vulto solitário contra a imensidão branca. O vento russo, uma lâmina afiada e constante, chicoteava seu rosto, mas não lhe causava desconforto. Era uma anestesia bem-vinda, um lembrete físico de que ele ainda estava ali, ainda respirava. Sentado no tronco gelado que, horas antes, testemunhara as estranhas conversas com Jane, Jacob encarava o vazio da floresta, a mandíbula trincada, os músculos do pescoço tensos.
Tentava, em vão, organizar a tempestade de sentimentos em camadas distintas, como peças de um quebra-cabeça impossível. Mas tudo dentro dele era um turbilhão caótico: a raiva borbulhante, o orgulho ferido que queimava, o medo gélido pela matilha, e, estranhamente, uma pontada de curiosidade.
Curiosidade sobre Volterra. Não sobre o que Aro pediria, mas sobre o que ele exigiria. Porque Jacob sabia que a gratidão era uma moeda barata para os Volturi. Haveria um preço, sempre. Uma ordem disfarçada de pedido, um jogo de poder onde ele seria, no mínimo, uma peça.
E, claro, havia Jane. Ela ainda era um enigma pulsante, uma interrogação viva em sua mente. Um contraste violento entre a criatura cruel e implacável que ele conhecera anos atrás e a figura pálida que, pela primeira vez, havia se permitido despir de uma ínfima porcentagem de seu orgulho diante dele. Aquele sorriso quase inocente, a vulnerabilidade momentânea, eram como rachaduras na armadura de gelo que ela usava.
Jacob se perguntou quantas verdades se escondiam por trás daqueles olhos vermelhos, tão antigos e perigosos. Ou, talvez, quantas mentiras. Quantas máscaras ela ainda vestia, camada sobre camada, protegendo o que quer que fosse que se escondia por baixo? E se todas caíssem, se a fachada desmoronasse, o que sobraria? O que restaria da essência de Jane Volturi? A pergunta pairava no ar gélido, sem resposta, enquanto a noite avançava, levando-o para um destino incerto.
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As horas seguintes foram um borrão de preparativos silenciosos. Quil e Embry, embora relutantes, aceitaram a decisão de Jacob. Havia uma compreensão silenciosa entre eles, a aceitação de que certas batalhas precisavam ser travadas sozinho. Eles o ajudaram a organizar o pouco que ele levaria, suas expressões sérias, os olhos fixos em um futuro incerto. Jacob sentia o peso de suas preocupações, mas também a força de sua lealdade. Era por eles que ele faria isso.
Jane e Alec mantiveram-se distantes, uma presença fria e observadora. Eles eram a ponte para o abismo que Jacob estava prestes a cruzar. Ele os via como guias, mas também como carcereiros. A ironia não passou despercebida. Ele, um lobo livre, estava prestes a se submeter à vontade de vampiros, seus inimigos naturais.
À medida que o crepúsculo tingia o céu de tons de roxo e laranja, Jacob sentiu a necessidade de uma última conversa. Não com Quil ou Embry, pois as palavras já haviam sido ditas. Mas com Jane. Ele precisava de respostas, de qualquer migalha de informação que pudesse lhe dar uma vantagem no covil dos Volturi. Ele a encontrou sentada perto da lareira, lendo um livro, a imagem da tranquilidade, quase etérea contra o brilho das chamas. Notou que ali poderia ser seu lugar favorito de estar.
Ele se aproximou, o som de seus passos abafado pelo tapete de pele no chão. Jane não ergueu os olhos do livro imediatamente, mas ele sabia que ela estava ciente de sua presença. A tensão no ar era quase palpável, uma corda esticada entre eles.
— Podemos conversar? — A voz de Jacob soou mais firme do que ele esperava.
Jane finalmente ergueu o olhar, seus olhos vermelhos encontrando os dele. Não havia surpresa, apenas uma fria indiferença calculada, controlada. Ela fechou o livro com um clique suave e o colocou ao lado, a postura ereta, as mãos cruzadas no colo. Era a personificação da guarda baixa, mas com uma barreira invisível de gelo ao redor.
Ela não queria responder mais perguntas pois não saberia as respostas, e também sabia que não poderia falar grandes coisas. Não poderia arriscar demais pois se Aro quisesse ler sua mente, tudo estaria ali.
— Sobre o quê? — A voz dela era neutra, desprovida de emoção, um contraste gritante com a tempestade que se agitava dentro de Jacob.
— Volterra. Os dons. Eu preciso saber. — Jacob foi direto ao ponto. Não havia tempo para rodeios. — Eu vou para lá. Não como um convidado, mas como... uma curiosidade. E eu não vou cego.
Jane o observou por um longo momento, como se estivesse avaliando cada palavra, cada nuance de sua expressão. Um leve sorriso, quase imperceptível, brincou em seus lábios, mas não alcançou seus olhos. Era quase ingênuo demais Jacob pensar que isso resolveria seus problemas quando estivesse lá. Mas sua curiosidade intrigou a vampira.
— Você quer uma aula sobre os dons dos Volturi? — Ela perguntou, a voz ainda fria, mas com um tom de brincadeira sutil. — Acha que isso o preparará para o que o espera?
— Acha que não? — Jacob retrucou, o desafio em sua voz. — Conhecimento é poder, Jane. E eu preciso de todo o poder que puder conseguir.
Ela suspirou, um som quase inaudível, como se a conversa fosse um fardo. Mas havia algo em seu olhar, uma faísca de algo que Jacob não conseguia identificar, que o fez acreditar que ela falaria. Talvez fosse a estranha cumplicidade que se formara entre eles, ou talvez ela apenas gostasse de exibir seu conhecimento.
— Muito bem. — Ela começou, a voz agora mais baixa, quase um sussurro, mas cada palavra era clara e precisa. — Aro, como você deve saber, pode ler todos os pensamentos e memórias de uma pessoa com um único toque. Não é telepatia, é mais como uma viagem através da sua mente, revivendo tudo o que você já experimentou. É por isso que ele é tão perigoso. Ele conhece seus segredos, seus medos, suas fraquezas. E ele os usará contra você.
Jacob sentiu um arrepio. Ele já sabia disso, mas ouvir Jane descrever o dom de Aro com tanta frieza o fez perceber a verdadeira extensão do perigo. Ele não podia esconder nada de Aro. Seus pensamentos, suas memórias de Bella, de Renesmee, de sua matilha... tudo estaria exposto.
— Caius e Marcus? — Jacob perguntou, tentando manter a voz firme. Ele havia decorado todos aqueles horríveis nomes enquanto se preparavam para enfrentá-los a anos atrás.
— Caius não possui um dom ofensivo. Sua força reside em sua crueldade e em sua capacidade de instigar o medo. Ele é a face da lei, o executor. Marcus, por outro lado, tem o dom de ver os laços emocionais entre as pessoas. Ele pode ver a força e a fraqueza de cada conexão. É por isso que ele é tão apático. Ele vê o fim de todos os laços, a inevitabilidade da separação. É um dom melancólico, mas útil para Aro, que o usa para manipular as relações dentro do clã e com seus inimigos.
Jacob absorveu as informações, sua mente trabalhando rapidamente. O dom de Marcus era preocupante. Se ele pudesse ver os laços que Jacob tinha com qualquer um que ele se importava, Aro poderia usar isso para manipulá-lo. Ele precisava ser cuidadoso, manter suas emoções sob controle.
— Acho que já tive ótimas experiências com você e Alec para saberem como vocês funcionam. — Ironizou Jacob.
Jane sorriu. Um sorriso doce, quase inocente, fazendo o coração de Jacob acelerar algumas batidas e bombear mais sangue para seu rosto, corando-o.
Ela observou essa mudança sutil de coloração, sem entender muito bem, mas também sentindo o calor do corpo ao seu lado aumentar. Um tremor passou por seu corpo rapidamente.
— Somos as maiores armas de Aro. Mas não precisa se preocupar com isso. — Disse ela, dando de ombros.
— Não vai aproveitar a oportunidade da minha vulnerabilidade para me torturar? — Brincou Jacob, também sorriso.
— Tentador... mas não. — Seu sorriso continuava ali, como se ela quisesse estar sorrindo pra ele. — Sinto muito em te tirar esse prazer de ser torturado por mim.
Jacob encenou uma breve frustração, mas se sentia aliviado por não precisar sentir aquela dor. Apesar de que não confiava totalmente que ela não o machucaria. A ideia de ser privado de todos os seus sentidos por Alec era ainda mais assustadora. Ele percebeu a extensão do poder dos Volturi, a razão pela qual eles eram tão temidos.
— E os outros? — Jacob perguntou, lembrando-se que haviam muito mais.
— Chelsea pode manipular os laços emocionais. Ela pode fortalecer ou enfraquecer as conexões entre as pessoas. É por isso que a guarda Volturi é tão leal. Ela os mantém unidos. Corin... — Jane hesitou por um momento, seus olhos desviando. — Corin pode induzir uma sensação de contentamento e felicidade. Ela é usada para manter as esposas de Aro e os membros mais antigos do clã em um estado de bem-estar constante. É um dom sutil, mas eficaz para manter a ordem e a complacência.
Jacob franziu a testa. Os dons de Chelsea e Corin eram mais traiçoeiros, mais perigosos de uma forma diferente. Eles não causavam dor física, mas manipulavam a mente e as emoções. Ele precisava estar ciente disso, proteger sua mente, seus sentimentos.
— Renata é o escudo do Aro. É bem provavel que você veja ela escorada nele como um bichinho de estimação, mas ela só está protegendo ele. Na verdade ela só é útil pra isso. Se você for atacar fisicamente, ela irá confundir sua cabeça e desviar o ataque. — Jane continuou, a voz sem qualquer alteração, como se estivesse recitando fatos de um manual. — Há também Heidi, a isca. Ela não tem um dom ofensivo, mas sua beleza é tão avassaladora que ela pode atrair qualquer um para a morte. É a responsável por trazer o 'alimento' para Volterra. Afton, ele tem um dom de camuflagem mental, pode se tornar invisível para a mente, o que o torna um espião e assassino perfeito. E Demetri, o rastreador. Ele pode sentir a localização de qualquer mente, em qualquer lugar do mundo. Não há como se esconder dele. É por isso que ele é tão valioso para Aro.
Jacob sentiu um calafrio. A guarda Volturi era uma coleção de habilidades aterrorizantes. Cada um deles, uma arma letal. Ele precisava memorizar cada detalhe, cada fraqueza potencial.
— Felix e Santiago não têm dons, no sentido que estamos discutindo. A força deles é puramente física, mas é uma força que poucos podem igualar. Eles são os músculos, os executores brutos. Não se meta em briga com eles, Jacob Black. — Jane arqueou uma sobrancelha, um leve brilho de diversão em seus olhos vermelhos. — Você pode ser um lobo, mas eles são séculos de experiência em combate. Não há glória em lutar contra a força bruta quando se pode ser mais inteligente.
As palavras de Jane eram um aviso claro, e Jacob as absorveu. Ele não era tolo. Sabia que sua força física, embora impressionante, não se comparava à de vampiros milenares. A inteligência seria sua melhor arma em Volterra.
— E o que Aro quer de mim? — Jacob perguntou novamente, a pergunta que o atormentava desde o início, agora com uma nova urgência, munido de todo aquele conhecimento.
Jane sabia que essa pergunta poderia aparecer de novo, assim como da primeira vez. Ela passou horas pensando no que Aro realmente poderia querer com Jacob, vasculhando suas memórias para tentar se lembrar de qualquer mínima coisa que Aro havia falado sobre lobos, lobisomens, transmorfos... qualquer coisa. Mas nada lhe surgiu.
— Eu não menti quando disse que não sabia. — Jane o encarou, seus olhos vermelhos fixos nos dele. A frieza em sua expressão era absoluta, mas havia um brilho de algo mais, algo que Jacob não conseguia decifrar. — Imagino que ele queira te usar para algo. Ele sempre busca mais poder. E você é uma nova fonte de poder que ele ainda não compreende. E o que Aro não compreende, ele tenta controlar. Ou destruir.
As palavras de Jane ecoaram na cabana, pesadas e cheias de um presságio sombrio. Jacob sentiu o peso da verdade. Ele era uma peça no jogo de Aro, um experimento. Mas ele não seria um peão fácil de manipular. Ele era um lobo. E lobos lutam. Sempre.
O silêncio caiu entre eles, preenchido apenas pelo estalar da lareira. Jacob olhou para Jane, para a frieza em seus olhos, para a guarda que ela mantinha. Ele sabia que ela havia lhe dado informações valiosas, talvez mais do que ela deveria. E, por um breve momento, ele se perguntou o porquê. Mas a resposta não veio. Apenas a certeza de que a noite seria longa, e o caminho para Volterra, ainda mais incerto. A batalha, ele sabia, estava apenas começando. E ele estava pronto para ela. Tinha que estar.
Jacob digeriu as últimas informações, sentindo o peso de cada palavra. A guarda Volturi não era apenas um grupo de vampiros poderosos; era uma orquestra de habilidades letais, cada uma complementando a outra. A inteligência de Aro em reunir esses dons era inegável, e a forma como ele os utilizava para manter o controle era assustadora. Ele pensou em como os Cullen, com seus próprios dons, eram uma versão mais benigna e fragmentada do que os Volturi representavam em sua totalidade.
— Então, é isso? — Jacob perguntou, a voz um pouco rouca. — Uma coleção de aberrações, cada uma mais perigosa que a outra. E eu, o lobo que não se encaixa em nenhuma categoria, sou o novo brinquedo de Aro.
Jane não reagiu à provocação. Seus olhos vermelhos, que antes pareciam conter um leve brilho de diversão, agora estavam opacos, como vidro. Ela sabia que ele estava certo, querendo ou não, mas não era isso o que todos eram? Suas perigosas bonecas, sempre dispostas a colocar a vida em risco por ele, matando, queimando, punindo. E sorrindo por isso. Como marionetes governadas por Aro e Chelsea.
— Aro é um colecionador. Ele valoriza o raro, o único. E você, aos olhos dele, é uma raridade. Em quantas lendas você já ouviu falar entre vampiros e lobisomens lutando juntos?! — Ela fez uma pausa. — Isso nunca ocorreu porque lobisomens é o que enfrentamos aqui, não você. E Aro nunca viu algo como você. Controlados, inteligêntes, ferozes e poderosos. E acima de tudo, humanos. E isso é um grande troféu para ele. É só com isso que ele se importa.
Ele se perguntou se Jane, em algum nível, sentia o mesmo peso da manipulação de Aro, ou se ela estava tão imersa na hierarquia Volturi que não via mais nada além dela.
— E se ele não conseguir me controlar? — Jacob desafiou, a adrenalina começando a borbulhar em suas veias. — E se eu não for o que ele espera? Eu não sou um vampiro, Jane. Não sou um peão no jogo de vocês.
Jane inclinou a cabeça ligeiramente, um gesto que poderia ser interpretado como curiosidade ou desdém. Admirava sua perseverança misturada com teimosia. Parecia muito mais com ela do que ela gostaria, mas de um jeito mais incontrolável. Mas não poderia culpá-lo, já que ela só era devidamente controlada pelos anos de experiência e incontáveis treinos diários que a mantinha no eixo longe da raiva constante.
— Você é um lobo. — Respondeu lentamente. — E lobos são criaturas de instinto. Aro sabe disso. Ele não espera que você seja um peão. Ele espera que você seja... interessante. E se você não for, ele encontrará uma maneira de torná-lo interessante. Ou de descartá-lo. A escolha, em Volterra, raramente é sua.
As palavras dela eram um lembrete brutal da falta de controle que ele tinha sobre a situação. Ele estava indo para a toca do leão, e o leão já sabia tudo sobre ele. Mas Jacob não era de se render facilmente. Ele era um lutador, um sobrevivente. E ele faria o que fosse preciso para proteger aqueles que amava.
— Por que está fazendo tudo isso por um simples lobo? Eu não passo de um inimigo pra vocês. Por que está me ajudando? Por que me contou sobre como foi transformada como se fossemos amigos de infância? — Jacob perguntou, a pergunta que o incomodava desde o início da conversa.
Um silêncio pesado caiu sobre a cabana, quebrado apenas pelo crepitar da lareira. Jane o encarou por um longo momento, seus olhos vermelhos fixos nos dele, uma expressão ilegível em seu rosto pálido. Por um breve instante, Jacob pensou ter vislumbrado algo em seus olhos, algo que se assemelhava a um cansaço profundo, uma sombra de arrependimento, mas desapareceu tão rapidamente quanto surgiu.
Ela não saberia responder sua pergunta com acertividade, pois a resposta era desconhecida para ela. Também se fazia as mesmas perguntas diversas vezes. Se questionou de forma dolorosa o motivo de ter contado sobre sua vida pra ele. Mas antes era mais fácil, ela achava que estariam cada um em seu devido território e não teriam que se ver mais. Mas agora, com Jacob indo pra Volterra, indo fazer parte de sua vida, ela sentia arrependimento de ter lhe contado sobre sua vida humana. Não poderia arriscar guarda baixa com ele lá, não era o local pra isso. Ela teria que ser ela mesma, a Jane que sempre fora, e havia começado essa transição desde já, pois enganar o Aro — mesmo depois de muitos anos aprendendo a como manipular suas visões — era extremamente dificil.
— Nós fomos uma dupla por alguns dias. — Começou ela, tentando ser cuidadosa com o que dizia. — Não desejo que nada de ruim aconteça a você. — Sua voz era baixa, quase um sussurro, mas com uma intensidade que o fez prender a respiração. — Você é novo, Jacob. Tem uma vida inteira pela frente. E pode viver como bem entender. Por isso não quero você em Volterra, fazendo parte disso tudo. — Jane abaixou ainda mais a voz, prendendo a atenção de Jacob para que conseguisse realmente ouvir. — Eu duvido que alguém que esteja lá queira realmente estar lá. Somos obrigados a ficar, por inúmeras circunstâncias. Não vou deixar que façam isso com você também.
Jane desviou o olhar, como se já tivesse dito mais do que pretendia. O livro que antes repousava em seu colo escorregou para o sofá sem que ela notasse. Com um movimento lento, quase hesitante, ela se levantou. Não encarou Jacob outra vez. O silêncio após suas palavras parecia pesar em seus ombros, mas ela manteve a postura ereta, firme, como se não quisesse deixar transparecer o tumulto que agitava seu interior.
Mesmo assim, era impossível não notar a forma como seus dedos tremiam levemente ao ajeitar o casaco. Ou a rigidez contida na sua nuca quando deu o primeiro passo para sair da sala. Foi embora com a mesma precisão de sempre — fria, silenciosa.
Jacob ficou parado, estático, encarando o espaço que ela deixara para trás. A voz dela ainda ecoava em sua cabeça como uma corrente morna atravessando o peito. Não era só o que ela disse, mas como disse. Aquilo não parecia uma ordem, nem uma manipulação. Era um recado de alguém que conhecia demais o lugar para onde ele estava indo — e que, contra todas as regras e intenções, parecia genuinamente se importar.
Ele engoliu em seco, e percebeu que não conseguia respirar direito. Sua cabeça girava em informações. Isso era diferente de tudo o que ele já havia se metido. Suas batalhas eram sempre barulhentas, sangrentas. Essa era como pisar em ovos. Jacob não poderia atacar ou fazer barulho, tinha que ser analítico, silencioso, ardiloso. Aprender a jogar com os jogadores e ao mesmo tempo competir em silencio com eles.
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No dia seguinte, o ar frio da Rússia parecia ainda mais cortante. O grupo se dirigiu ao pequeno aeroporto particular, uma estrutura discreta e luxuosa, longe dos olhos curiosos do público. Quil e Embry estavam lá, suas expressões sérias, os olhos fixos em Jacob. A despedida foi breve, carregada de uma emoção contida que não precisava de palavras. Um abraço apertado, um tapinha nas costas, a promessa silenciosa de que se veriam novamente. Eles embarcariam em um voo comercial de volta para os Estados Unidos, para a segurança de La Push, enquanto Jacob se lançava no desconhecido.
— Cuide-se, Jake. — A voz de Quil era rouca, os olhos marejados.
— Sabe o que fazer se precisar de nós. — Embry acrescentou, a voz embargada.
Jacob apenas assentiu, incapaz de falar. A garganta apertada, um nó de emoções que ele se recusava a deixar transbordar. Ele os observou se afastarem, seus passos pesados, até desaparecerem pela entrada do terminal principal. Aquele era o último elo com sua vida normal, com sua matilha, com tudo o que ele conhecia.
— Podemos ir? — A voz de Jane era um sussurro gélido, mas havia um brilho quase imperceptível em seus olhos, como se ela estivesse avaliando sua determinação.
Jacob não respondeu com palavras. Apenas caminhou em direção ao jatinho, cada passo uma afirmação de sua decisão. Alec o seguiu, a presença silenciosa e imponente. Ao entrar na aeronave, Jacob sentiu o cheiro sutil de couro e algo mais, algo antigo e frio, que ele associou aos vampiros. Ele se sentou em um dos assentos de couro macio, perto da janela, observando o mundo exterior diminuir à medida que começavam a se mover.
O motor ronronou suavemente, e em poucos minutos, eles estavam no ar. A paisagem russa, coberta de neve e árvores, transformou-se em um mosaico abstrato abaixo deles. Jacob encostou a cabeça no encosto do assento, o corpo relaxado, mas a mente em turbilhão.
Ele fechou os olhos, o rosto virado para a janela. A jornada para Volterra havia começado. E com ela, a incerteza de tudo o que viria. Ele respirou fundo, tentando acalmar o ritmo acelerado de seu coração. As perguntas ecoavam em sua mente, sem respostas. Por enquanto, tudo o que ele podia fazer era esperar.
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