Foi fácil para os lobos pegarem no sono novamente após uma boa refeição. As roupas novas serviram perfeitamente, a comida estava quente e saborosa, e o cansaço dos últimos dias ainda pesava sobre os corpos exaustos. O silêncio dentro da cabana era profundo, quebrado apenas pelo estalar ocasional da madeira na lareira e a respiração tranquila dos adormecidos.

Após a refeição, os gêmeos se revezaram na vigília. Alec ofereceu-se para ficar primeiro, enquanto Jane saiu para uma rápida caçada. Voltou pouco antes do amanhecer, satisfeita. Ao contrário dos Cullen, ela e Alec não esperavam ficar famintos para se alimentar — havia estratégia nisso. Jane mal se lembrava da última vez que seus olhos haviam ficado completamente pretos.

Quando Alec partiu para a sua vez de caça, Jane se afastou da cabana. Encontrou um velho tronco partido na borda da floresta e sentou-se ali. O lugar era um ponto estratégico: não tão distante da casa, mas longe o suficiente para observar com calma. Ela manteve-se em alerta, o olhar atento ao movimento da neve e ao som das árvores rangendo sob o vento. Seus pensamentos, por ora, estavam silenciosos.

Lá dentro, Jacob finalmente havia se rendido à exaustão. Seu corpo pesado afundava no sofá improvisado, o calor da lareira envolvendo-o. E foi nesse calor — não físico, mas emocional — que seu subconsciente o arrastou para um sonho que parecia mais real do que tudo que havia vivido nos últimos dias.

Ele se viu de volta à caverna, mas a cena era diferente. Jane estava lá, não a vampira fria e letal, mas uma mulher humana, frágil, seus cabelos loiros emoldurando um rosto pálido e assustado. Ela estava encolhida no chão, as roupas rasgadas, e seus olhos, agora de um azul profundo e humano, estavam fixos nele, implorando.

— Jacob! Me ajude! Por favor, me ajude! — Gritava. Sua voz familiar demais; doce demais. Se confundindo com outra que ele já conhecia.

Um desespero avassalador tomou conta dele. Ele correu em sua direção, uma força brutal impulsionando seus músculos, um desespero de perdê-la. Mas quanto mais corria, menos conseguia alcançá-la. O chão parecia se esticar, a distância entre eles aumentando a cada passo. Em um minuto, ele era um lobo, suas patas poderosas rasgando a neve, e no outro, era humano, correndo e gritando o nome dela, a voz rouca de tanto desespero.

Os lobisomens que a atacavam, antes criaturas selvagens, transformaram-se. Agora eram figuras imponentes, envoltas em mantos pretos, como os que ele vira na quase-batalha em Forks. Aro, Caius e Marcus. Os três líderes Volturi, seus olhos vermelhos brilhando com uma malícia fria, se aproximavam de Jane, que se encolhia, pedindo socorro para ele, para Jacob.

— Jake...

Ele se lançou, a adrenalina bombeando em suas veias, o desespero o impulsionando. Finalmente, ele conseguiu chegar perto dela, estendendo a mão, ansioso, desesperado para tocá-la, para protegê-la. Mas no instante em que seus dedos quase a alcançaram, Jane se transformou em Bella. Seus olhos castanhos, o rosto familiar, o sorriso que ele tanto amava e odiava.

E então, Jacob acordou. Ofegante, o coração batendo descontroladamente no peito, o suor escorrendo por sua testa. Confuso. Assustado. E, acima de tudo, irritado.

Irritado com o sonho, irritado com Jane, irritado com Bella, irritado consigo mesmo.

Passou as mãos no rosto, ainda respirando fundo. Os outros dois ainda dormiam profundamente, o barulho de seus roncos preenchendo a cabana. Jacob levantou-se, pegou uma toalha, e foi até a bacia com água morna perto da lareira. Se lavou com movimentos lentos, tentando afastar o que quer que fosse aquilo que ainda ecoava em sua mente.

Mas o rosto dela permanecia. O olhar. O nome sussurrado.

Era a voz dela e de Bella, sobrepostas, fundidas em uma só. Mas por quê? Por que aquele sonho? Por que Bella? E, mais ainda, por que Jane?

Jane Volturi.

Voltou ao sofá, mas não se deitou. Permaneceu sentado, encarando o fogo, os olhos distantes. Os primeiros sinais do amanhecer já começavam a surgir através da janela embaçada.

Depois de um tempo, sentiu a necessidade de sair. O ar fresco talvez ajudasse.

O vento frio bateu em seu rosto assim que cruzou a porta. O céu estava tingido de azul escuro, prenúncio de um novo dia. O ar era limpo, cortante. Parecido com Forks, mas ainda assim diferente.

Ficou ali por alguns minutos, deixando o frio invadir seu corpo. Parte dele queria congelar por dentro. Talvez assim silenciasse o tumulto em sua mente.

Seus pensamentos eram uma revisitação dolorosa de tudo o que o havia levado até ali. Bella. Sempre Bella. A imagem dela, radiante e feliz ao lado de Edward, ainda o assombrava. A dor de vê-la casada, a gravidez inesperada que a consumiu, a quase-morte que ele testemunhou, impotente. A briga com a matilha de Sam, a divisão que só se curou quando Seth encontrou seu imprinting em Renesmee.

Ele se sentia profundamente sozinho, como se tivesse perdido tudo o que um dia teve.

Estava tão imerso em suas memórias que não percebeu sua presença até que o cheiro, agora menos repulsivo, chegou às suas narinas com um vento forte vindo da parte mais próximas das árvores que ficavam em frente a cabana. Jane estava ali, uma figura esguia contra a neve, envolta em um casaco de neve escuro.

Ela parecia mais normal assim, sem a capa Volturi, sem a aura de letalidade que a envolvia. Sua expressão era tranquila, quase serena.

— Você é o maior inimigo do sono que eu conheço. — A voz de Jane chegou baixa, quase um sussurro. Vinha de longe, mas Jacob captou cada sílaba como se ela estivesse ao seu lado.

Ele deu de ombros, sem olhar diretamente para ela. De todas as criaturas que queria encontrar naquele momento, ela talvez fosse a última — e, ainda assim, sua presença lhe parecia estranhamente familiar. Quase... reconfortante. Talvez pelo simples fato de não estarem se ameaçando. Talvez porque, por um segundo, ela parecia de bom humor — o que, para Jane, era uma raridade quase mítica.

— Ainda acho estranho ficar perto de algo vivo — continuou ela, agora com a voz um pouco mais firme, cruzando os braços enquanto se aproximava devagar. — Um humano. É fora da minha realidade.

— Eu não sou humano — retrucou Jacob com secura, ainda com os olhos na floresta.

Jane notou o tom irritado, e como era impulsionada por uma vontade de provocá-lo quase cruel, decidiu manter a conversa.

— É, eu percebi isso. — disse com leveza. — Sua transformação é bem... incomum.

Jacob virou lentamente o rosto em sua direção, finalmente encontrando seus olhos. O olhar dela permanecia sereno, como se fosse apenas uma conversa entediante entre dois colegas — e não entre inimigos naturais.

A roupa preta e o cenário branco da neve constrastava violentamente com a palidez quase fantasmagórica de sua pele. E, no entanto, nada chamava mais atenção do que seus olhos vermelhos. A cor do perigo, da saciedade, da morte. Mas ali, no rosto jovem e aparentemente calmo, pareciam menos uma ameaça e mais um detalhe hipnótico. Uma contradição viva entre delicadeza e destruição.

Jacob sustentou o olhar por mais tempo do que deveria. Algo dentro dele pulsava, confuso. Mas não desviou.

E, por ora, Jane também não.

— Não era sua obrigação fazer aquilo. — Ela continuou. Ficar em silencio com ele era desconfortável pra ela. Mas o peso de dizer uma sombra de um "obrigada" era demais, fazendo com que Jane não conseguisse nem continuar sustentando seu olhar, caindo para a neve que estava ao seus pés.

Jacob manteve o olhar nela por um instante, antes de responder, sem drama, sem hesitação:

— Eu sei.

A voz saiu baixa, firme, carregada de significados que nem ele compreendia completamente.

Jane não esperava uma justificativa. Mas também não sabia exatamente o que esperava. Algo nela queria entender. Queria saber o porquê.

Ela odiava essa sensação. O gosto de estar devendo algo a alguém. A vulnerabilidade implícita em agradecer. Era um desconforto que não combinava com quem ela era — ou com quem precisava continuar sendo.

Então, sem avisar, mudou de assunto.

— Por que os lobos não sentem frio como os humanos? — perguntou, com o tom levemente mais descontraído, como se a conversa anterior nunca tivesse existido.

A curiosidade em sua voz era palpável. Era uma pergunta simples, mas que abriu uma porta.

Jacob ergueu uma sobrancelha, surpreso com a mudança repentina. Mas não comentou. Apenas aceitou. Sabia reconhecer quando alguém mudava de assunto para se proteger.

— Nossa temperatura corporal é bem mais alta. — respondeu, com um leve encolher de ombros. — Queimamos o frio por dentro.

Jane o observou com mais atenção, inclinando levemente a cabeça.

— Esse calor piora quando um lobo sente raiva? — Jane provocou. Teve que morder o lábio para não deixar escapar um sorriso.

Jacob virou lentamente a cabeça na direção dela, estreitando os olhos. A forma como ela disse aquilo, quase como se estivesse brincando com ele, testando-o.

— Piorar não é bem a palavra — ele respondeu, um tom arrastado, estudando sua expressão. — Mas fica mais forte, mais difícil de controlar. Meu corpo sempre se prepara para lutar quando sinto raiva.

— E é por isso que você passa boa parte do dia me evitando, porque tem que se controlar para não me matar. Ou o que você acha que conseguiria disso.

Um leve sorriso divertido finalmente surgiu nos lábios de Jane.

Pela primeira vez, ela sorriu, e Jacob reparou mais do que deveria. Não era o sorriso zombeteiro ou cruel que ele estava acostumado. Era um sorriso pequeno, quase tímido, que suavizava suas feições e a tornava, por um instante, incrivelmente bela. Ele sentiu um calor estranho se espalhar em seu peito, e rapidamente desviou o olhar, incomodado com a própria reação.

— Você se dá importância demais — respondeu, cruzando os braços, tentando manter o tom indiferente.

— Pode ser — ela respondeu, dando de ombros. — Mas não sou só eu, certo? Você nos odeia com tanta intensidade que às vezes parece pessoal.

Jacob soltou uma risada sem humor.

— Confiança não é exatamente fácil quando se está cercado por vampiros assassinos.

— Você passou meses com vampiros assassinos quando quis defender os Cullen. E convive diariamente com eles. Não deve ser tão difícil assim se adaptar a nós. — Jane rebateu, uma pontada de provocação intima em sua voz.

Jacob respirou fundo, sentindo a irritação subir pelo pescoço.

— Parece até piada de mal gosto você querer se comparar com os Cullen. — Respondeu com firmeza. — Eles não matam por prazer, não brincam com dor alheia e nem usam medo como forma de respeito.

Jane se aproximou um pouco mais, indo lentamente em sua direção. Como uma caçadora vendo pela primeira vez sua caça. Aquilo tudo estava excitando ela mais do que deveria. Havia algo entre raiva e orgulho em sua expressão.

— Então é isso o que você acha de mim?

Jacob hesitou por um segundo.

— É isso o que você sempre mostrou.

Jane parou a poucos passos dele, inclinando a cabeça de leve, como se o estudasse por um ângulo diferente. Seus olhos vermelhos não piscavam. Seu rosto estava sereno, mas havia um fogo silencioso queimando sob sua pele translúcida.

— Engraçado... — ela murmurou. — Você vê exatamente o que eu quero que veja.

— E você mostra o contrário do que é. — Ele rebateu. — Quantas pessoas te conhecem de verdade? Quantas pessoas conseguem te olhar e enxergar o medo que vi em seus olhos? — Ele provocou.

Sabia que ela estava jogando um joguinho mas nisso ele também era excelente quando desafiado.

Jane arqueou uma sobrancelha. Aquela provocação a tocou de um jeito inesperado. Por um instante, seus olhos vacilaram pelo incômodo.

— Cuidado, Jacob. Está começando a falar como se quisesse pisar no campo minado. — A voz dela era baixa, e carregava algo entre ameaça e curiosidade.

Ele cruzou os braços, firme.

— E você está começando a reagir como quem tem algo a esconder — ele devolveu, com um meio sorriso no canto dos lábios. — Me pergunto o que seria tão perigoso assim nesse terreno que você protege tanto.

Jane inclinou levemente a cabeça, os olhos estreitando como se pudesse despir cada camada dele com aquele olhar profundo, quase clínico.

— Por que acha que eu escondo alguma coisa? O que te faz pensar que eu não sou exatamente assim? — Sua voz era firme, mas carregava um veneno defensivo. — Um vislumbre de medo quando eu estava sendo quase devorada por várias criaturas juntas não deveria ser parâmetro pra você pensar que sou fraca.

Jacob não desviou o olhar, seu semblante calmo e direto.

— Eu não acho que você seja fraca. — Disse com sinceridade. — O que eu acho é que você não tem um motivo pra ser tão ruim assim.

— Fomos caçados e quase queimados vivos em uma fogueira enquanto assistíamos nossa mãe morrer bem na nossa frente. — Disse, firme. — Por humanos.

Por um segundo, o silêncio se instalou entre os dois como uma respiração presa.

Jane soltou o ar devagar, mas sem suavizar o rosto. A confissão saiu crua, como uma lâmina arrancada de dentro do peito. Seus olhos baixaram para o chão por um instante, e quando voltaram a encontrá-lo, estavam vazios. Não frios — vazios, como se contivessem uma dor antiga encapsulada.

Jacob arregalou um pouco os olhos, pego desprevenido pela revelação. Não disse nada de imediato. Apenas a observava, tentando captar cada detalhe do que havia por trás daquelas palavras. Não parecia uma mentira. Nada no tom dela indicava artifício.

Jane desviou o olhar novamente, quase como se estivesse arrependida. A vergonha não era por ter vivido aquilo — era por ter dito. Por ter mostrado, mesmo que só por um segundo, que existia algo quebrado dentro dela.

— Merda. — sussurrou Jacob, passando a mão na nuca.

Ela não respondeu. Mantinha os olhos fixos em algum ponto da floresta, o maxilar trincado. Não queria dizer mais nada, mas também não sairia dali como uma garotinha assustada. Isso não fazia parte de quem era.

O silêncio entre os dois se tornou mais denso do que qualquer briga que já tivessem tido. Era o tipo de silêncio que escancarava feridas — aquelas que ninguém sabia curar. Dois mundos diferentes, duas histórias opostas, e um instante vulnerável que os colocava no mesmo chão.

Jacob a observava. Tentava, com esforço, visualizar a cena. Jane, humana, frágil, acorrentada a um destino monstruoso antes mesmo de sua transformação. Sentiu um desconforto agudo, quase físico, ao imaginá-la tão impotente. Uma parte dele se revoltava com a injustiça daquilo. Outra, simplesmente não sabia como reagir.

A dor...

De repente, uma conexão se formou em sua mente, como um relâmpago partindo o céu. A descrição que os Cullen haviam dado do dom de Jane — a dor insuportável, como se o corpo estivesse sendo queimado vivo — soava agora de maneira diferente.

— Você faz as outras pessoas sentirem a dor que você sentiu — disse, sem tom de acusação. Não era uma pergunta, era quase uma conclusão. Mas estava carregada de curiosidade genuína, de um entendimento que finalmente se encaixava.

Jane o encarou. O incômodo ainda estava lá, latejando sob sua pele pálida. Mas havia algo mais: uma necessidade muda de continuar, talvez por já ter dito demais, talvez por não ter mais ninguém para ouvir.

Ali, tão longe de Volterra, os laços criados pelo dom de Chelsea — a ligação emocional forçada aos Volturi — estavam se desfazendo. A cada dia, Jane sentia sua lealdade aos mestres esvaindo. A única constante que permanecia era Alec. Cassius, agora menos influenciado também, começava a mostrar sua verdadeira face — e isso a corroía. Quando ele a deixou sozinha para ser despedaçada e Jacob foi quem a protegeu, algo em Jane rompeu.

Ela baixou os olhos por um momento antes de finalmente responder, com a voz cansada e amarga:

— Eu faço elas sentirem algo pior.

Foi até um tronco caído ali por perto e se sentou, como se o corpo pesasse mais do que o habitual. Os dedos entrelaçados sobre os joelhos, os olhos agora perdidos em lembranças.

— Eu só lembro de sentir raiva. — continuou ela, a voz baixa, quase ausente. — Não sei se havia dor. Talvez eu tenha bloqueado. Ou talvez... talvez eu tenha nascido com mais ódio do que medo.

Jacob se manteve em silêncio. Não sabia o que dizer, mas, de algum modo, também não queria que ela parasse. Havia algo naquela dor exposta que o fazia querer ouvir. Como se aquele momento fosse uma fresta em um muro que ele jamais imaginou que ela deixaria rachar.

Levaram-se alguns minutos até que Jane decidisse se queria continuar. As palavras que Alec dissera tantas vezes ecoavam dentro dela — "vulnerabilidade enfraquece o domínio, rompe o elo do medo". E, ainda assim, ali, diante de Jacob, ela sentia o contrário. O olhar dele estava cravado no seu, intenso, porém sereno. Nada nela se acendia em alerta. Pelo contrário. Havia uma estranha vontade de continuar, mesmo sem saber o motivo.

— Alec e eu sempre fomos diferentes. — disse por fim. — Aro viu nosso potencial antes mesmo de completarmos dez anos. Quando fizemos treze, ele voltou. Nossa mãe... ela quase implorou para que ele esperasse que crescêssemos mais. Bondoso como sempre foi, ele atendeu. Ou melhor... a aldeia atendeu. Esperaram três anos. — sua voz carregava um sarcasmo amargo.

Ela dizia tudo isso sem encarar Jacob diretamente, os olhos perdidos entre a névoa da floresta e as memórias turvas.

Jacob, por instinto — e vontade — se aproximou lentamente. Cada passo foi dado com cuidado, respeitando o espaço dela, atento a qualquer sinal de recuo. Mas Jane não se moveu. Ele se sentou ao seu lado no tronco, próximo o suficiente para ouvi-la respirar, mas não perto demais para parecer invasivo. Ela lançou um olhar discreto de canto, mas ainda assim permaneceu imóvel.

O silêncio se estendeu por um momento, até que retomou:

— Fomos atacados várias vezes pelas crianças da vila. Diziam que éramos bruxos. Que nossas presenças acabavam com as plantações, atraíam doenças. — Sua voz vacilou, mas não parou. — Eu não sabia o que eu era. Só sabia que, quando ficava com muita raiva, machucava as pessoas. Não me lembro do que aconteceu naquele dia. Alec não estava por perto, elas me cercaram, me bateram até eu sangrar... e depois... depois elas sangraram.

Jane fechou os olhos por um segundo, como se revivesse cada fragmento.

— Eu não sei o que fiz. Não sei se matei aquelas crianças. Toda a cena é um borrão. Só me lembro de estar caída no chão, a dor misturada com raiva... o sangue deles se misturando ao meu. Minhas mãos estavam cobertas de sangue quando Alec me encontrou. Mas não era só meu.

Jacob não disse nada. O nó na garganta dele impedia.

— As crianças desapareceram. E então os pais vieram. Vieram com lanças e fogo. Invadiram nossa casa. Nos arrastaram até a praça central e nos amarraram a troncos de madeira. Nós imploramos tanto... Consigo escutar os ecos dos gritos de Alec até hoje na minha mente. Os da nossa mãe também. Mas para eles, ela não era a bruxa — nós éramos. E para nos punir mataram ela bem na nossa frente. Com uma lança.

A voz de Jane falhou. Um silêncio denso se instalou. Jacob sentia o peito apertado, uma raiva silenciosa e impotente borbulhando em seu estômago.

— Eu lembro do Alec gritando por ela. Eu gritei também. Com todos eles. Minha garganta doia de tanto gritar, como se alguém pudesse ouvir minha dor através disso. E quando acenderam a fogueira, o calor era tão intenso que parecia já queimar. Mesmo antes de nos tocar, doía. Eu me lembro de desejar que todos eles queimassem comigo. E então... Aro chegou. Ele e a guarda. Em segundos, todos estavam mortos.

Ela respirou fundo. Pela primeira vez em muito tempo, parecia humana.

— A dor do veneno... foi pior do que queimar viva. A gente sente tudo. Os órgãos falhando, o sangue congelando. E quando chega ao coração... sentimos a morte.

Ela o encarou então, pela primeira vez desde que começou a falar.

— E aqui estamos.

Jacob baixou os olhos por um instante. O silêncio era denso, quase sufocante, e ao mesmo tempo parecia sagrado — como se qualquer palavra pudesse quebrar algo frágil que, por milagre, Jane acabara de confiar a ele. Suas mãos se fecharam em punhos sobre os joelhos, como se buscasse conter a raiva que crescia dentro dele. Não por ela, mas por tudo que haviam feito com ela.

Ele respirou fundo, e quando finalmente falou, sua voz saiu rouca, baixa:

— Eu não sabia.

Jane soltou um riso sem humor, amargo e breve.

— Agora consigo entender melhor o motivo por trás desse abismo interno que você carrega. — Continuou, sua voz mais branda.

Jane virou o rosto para ele, levemente intrigada.

— Eu não sou um abismo. — respondeu com firmeza.

— Pra mim é. — Respondeu, sem hesitar. — Um abismo belo de ser contemplado mas mortal pra quem se aproxima demais.

Jane franziu a testa, surpresa. Um meio sorriso sarcástico se formou em seus lábios, os olhos estreitando em puro deboche.

— "Belo?!"

Jacob desviou o olhar. A palavra havia saído com mais peso do que ele imaginava. Em sua cabeça, tinha soado menos reveladora e íntima. Mas dita em voz alta, parecia admitir demais. E o pior era saber que ele não estava mentindo.

Ela era inquestionavelmente bela, como qualquer vampiro. Mas diferente dos outros, Jane tinha uma beleza que misturava autoridade e algo trágico. E ele percebeu que havia começado a ver isso de outro modo, principalmente depois daquela noite.

Lembrou-se dela na caverna. As roupas rasgadas, expondo parte de seu corpo, a fragilidade que ela jamais permitiria que os outros vissem. Seu cabelo quando solto, com o caimento perfeito para lhe deixar mais madura. O toque gelado de sua presença, que agora o deixava mais alerta do que ameaçado.

Sentiu o rosto esquentar. Não de raiva, mas de vergonha.

Era irritante o fato de Jane causar todo tipo de sensação nele, e ele detestava isso — ou pelo menos, dizia a si mesmo que detestava.

O silêncio entre eles voltou, mas desta vez, não era hostil. Era carregado de algo novo. De uma tensão que não vinha do ódio ou do medo, mas da possibilidade de se verem além das funções que o mundo havia imposto a cada um.

— É horrível não ter mais um bom motivo para te odiar. — Jacob disse, a voz baixa, quase um desabafo que escapou sem querer.

Jane o olhou de lado, surpresa. Os olhos vermelhos faiscando em sua direção.

— Então, arrume um novo. — Ela respondeu num tom calmo, mas sem nenhuma ironia. — Você parece bom em fazer isso.

Ele deu um meio sorriso, cansado.

— Prefiro guardar o ódio para nossos inimigos.

Jane também sorriu, levemente.

Por alguns instantes, ficaram apenas ali, lado a lado no tronco, em silêncio. Os ombros de Jane relaxaram, sinalizando que, mesmo depois de tudo isso, ela não estava erguendo o muro envolta de si mesma contra ele. Algo ali, entre os dois, estava mudando. Ainda era tênue. Frágil. Mas real.

Jacob apoiou os cotovelos nos joelhos, entrelaçando as mãos. Pensava em como aquilo tudo era insano — e ainda assim, parecia a conversa mais verdadeira que havia tido em muito tempo.

O sol finalmente nasceu por trás das árvores, tingindo a floresta com um dourado suave. A luz filtrava-se entre os galhos altos, lançando sombras longas e cintilantes sobre a terra coberta de neve.

— Embry está despertando. — disse Jane, olhando em direção à cabana. Jacob seguiu seu olhar, o rosto levemente tenso. — É melhor entrar. — sugeriu ela, sua voz voltando ao tom calmo e impassível de sempre.

Ele precisou conter o impulso de olhar para ela mais uma vez. Sabia que não devia. Que aquilo ultrapassaria uma linha tênue que, até agora, vinha lutando para manter intacta. Estar perto dela já era perigoso demais. O desejo de entendê-la, protegê-la, desafiá-la — tudo isso se misturava a uma urgência estranha. E aquilo o assustava mais do que qualquer batalha que já enfrentara.

Levantou-se em silêncio e começou a caminhar de volta para a casa, cada passo mais pesado do que o anterior. Quando passou pela porta e seu corpo desapareceu do campo de visão de Jane, ela suspirou — um suspiro longo e involuntário, como se estivesse sustentando, sozinha, o peso de um mundo inteiro.

Ela ficou ali parada por mais alguns instantes, os olhos fixos nas árvores à frente, mas sem realmente enxergar nada. Ainda não sabia o motivo de ter contado tudo aquilo. Não entendia por que fora justamente Jacob. Não havia pensado nas consequências — apenas havia feito.

Porque, por alguma razão que ela ainda não sabia nomear, algo dentro dela queria ser vista. Não como a arma dos Volturi. Não como a vampira cruel e impiedosa. Mas como o que sobrou daquela garotinha.

E, pela primeira vez em séculos, sentiu que talvez alguém pudesse a enxergar.