Entre o Frio e o Fogo | Twilight Saga
8 O Que Sobra de uma Guerra
O silêncio não era apenas exaustão — era peso. Peso de corpos no chão, peso da morte que pairava no ar, peso do que cada um sentia, mas não dizia.
Todos ainda imóveis, como se precisassem de um tempo para pensar em tudo o que havia acontecido antes de voltarem a vida normal. Jane estava com o casaco destruído e o vestido com vários rasgos, expondo parte de sua barriga e coxas pálidas e manchadas de sangue de seus inimigos. Seus cabelos estavam presos, ainda que desgrenhados, e havia um corte no canto de sua boca. Uma porcelana trincada. Dava para ver o buraco em sua pele, e parecia fundo. Ela não sangrava como um humano, mas seu corpo deixava marcas do combate. Onde faltava os panos do vestido dava para ver os arranhões das garras dos lobissomens. Cassius e Alec também estavam coberto deles.
Jacob sacudiu a cabeça, limpando o sangue de sua pelagem. Seus olhos castanhos varreram o cenário, procurando por seus amigos, verificando se estavam bem. E estavam. Exaustos, mas ilesos. E então, seus olhos pousaram em Jane.
Jacob a observou. A pele lisa demais, beirando a perfeição naquele cenário horrendo de morte. A palidez constrastava ainda mais com as roupas escuras rasgadas. Sua mente cansada tentou desviar o foco, mas ele se viu observando cada centímetro dela, dando atenção demais para as coxas arranhadas, a forma como seus músculos se moviam mesmo naquele corpo aparentemente frágil.
Ele se pegou imaginando como seria tocá-la, sentir a frieza de sua pele contra a sua. Era um pensamento perturbador, uma traição à sua raiva e ao seu desprezo. Ele balançou a cabeça novamente, tentando afastar a imagem, mas ela persistia.
— Jake... — Começou Embry, atraindo sua atenção. — Tudo bem? Parece atordoado?
Ele olhou para o amigo e percebeu que Quil também o encarava. Embry piscou pausadamente. Jacob sabia que ele estava tentando limpar sua barra, sabia que tinha ultrapassado um limite importante em seus pensamentos.
— Não sei se alguém está bem depois disso aqui. — Deu se ombros, fingindo descaso.
Cassius surgiu logo atrás, seu rosto ainda manchado de sangue escurecido, o olhar analisando cada movimento dela com uma intensidade que beirava a posse.
— Está ferida? — perguntou, se aproximando e tocando onde havia a rachadura em seu rosto.
Jane o olhou com uma fúria excessiva. O mesmo olhar que dava à seus inimigos antes de fritá-los em plena dor. Ela segurou em sua mão e lhe afastou com uma rigidez necessária. Estava estampado em sua cara que sentia ódio.
Alec a olhou dos pés a cabeça, tirou sua capa e a cobriu, tampando qualquer vestígio rasgado que havia ali. Ele a abraçou e sussurrou quase inaldível um pedido de desculpas. Se sentia culpado por não conseguir ajudar a irmã quando foi solicitado. Ela não respondeu, apenas se permitiu ser abraçada, um raro momento de vulnerabilidade. O gêmeo olhou para os lobos, seus olhos vermelhos encontrando os de Jacob,. Ele acenou com a cabeça, um agradecimento de forma silenciosa. Jacob desviou o olhar com dificuldade.
Não sabia o que dizer ou sentir, ao passo que não queria dizer nem sentir nada. Ainda estava digerindo o que sentiu ao ver Jane caída, e o que sentiu depois. Havia salvado a vampira que odiava, a mulher que representava tudo o que ele desprezava. E agora, o irmão dela estava agradecendo. Era tudo muito confuso.
Cassius observou a cena em silêncio, seus olhos fixos em Jacob. Não havia gratidão em seu olhar, apenas um desprezo frio e calculista. Ele não disse uma palavra, mas a mensagem era clara: ele não aprovava a intervenção de Jacob, nem a proximidade entre o lobo e Jane. Era um olhar que prometia consequências, um lembrete de que a aliança era frágil e que a hierarquia Volturi ainda estava em vigor.
Jane, sentindo o olhar de Cassius, enrijeceu novamente. A breve fenda em sua armadura se fechou, e a máscara de frieza voltou, mais impenetrável do que nunca. Ela se afastou de Alec, sua postura ereta, seus olhos vermelhos fixos em nada em particular.
— Queime tudo. — Ela ordenou olhando para Cassius. Rapidamente Alec lhe lançou a caixinha de fósforos. Também sentia raiva do vampiro. Era ele quem mais estava próximo da irmã e não se esforçou para ajudá-la. — Quero ir pra casa.
Ela saiu, tão silenciosa quanto sua expressão. Alec atrás. Por instinto, Quil e Embry também foram, mas Jacob se demorou um pouco mais. Olhava para Cassius como se pudesse aniquilá-lo. E deveria. E queria muito! Mas não fez nada. Seguiu adiante, saindo também da caverna, deixando um vampiro botando fogo em dezenas de corpos mortos de lobissomens.
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O refúgio, antes um porto seguro contra o frio implacável da Rússia, agora parecia um casulo de exaustão e pensamentos não ditos. A batalha na caverna havia deixado marcas, não apenas nos corpos, mas nas almas. Os lobisomens estavam erradicados, mas a vitória veio com um preço, um que se manifestava na tensão palpável entre os membros daquela aliança improvável.
— Quero que você volte para a Itália imediatamente. — Jane ordenou à Cassius assim que chegaram na pequena casa. — Aro precisa saber o que ocorreu aqui e nos avisar de quais são os próximos passos.
Cassius virou-se lentamente para encará-la, os olhos semicerrados, a expressão sombria, ainda contaminada pela frustração da caverna.
— É pra isso que existe a tecnologia. Pegue o celular e ligue. — A voz era baixa, mas carregada de veneno contido.
Jane o encarou, a raiva transparecendo a quilômetros de distância. Não disse nada. Apenas olhou.
Cassius instantaneamente caiu. Uma das mãos foi direto à cabeça, os dedos crispados, cravando o couro cabeludo, enquanto o restante do corpo começava a tremer discretamente em uma dor sufocante. Ele não gritou. Era orgulhoso demais para isso. Mas era visível o esforço brutal que fazia para conter qualquer ruído, qualquer fraqueza.
Alec não se moveu, mas acompanhava a cena com os olhos, demonstrando uma familiaridade com o ato. Para ele, é como se a irmã estivesse dando "bom dia" para alguém.
Jacob, por sua vez, observava com uma mistura de surpresa, alerta... e divertimento sombrio. Ele conhecia o poder de Jane, já havia testemunhado sua crueldade em ação. Mas não assim. Não contra alguém dos próprios Volturi. Aquilo era diferente. Era pessoal. Era um recado.
E ele teve que se esforçar muito para conter o sorriso que ameaçava surgir em seu rosto. Porque, apesar de tudo, detestava Cassius com uma intensidade silenciosa. Ver aquele vampiro orgulhoso sendo humilhado daquela forma despertava nele uma satisfação que não fazia a menor questão de esconder de si mesmo. Era como se Jane estivesse fazendo — com crueldade calculada — algo que ele mesmo gostaria de fazer com as próprias mãos.
— É a segunda vez que me desafia em menos de 24 horas — disse ela, entredentes, a voz cortante como navalha. — Você não é nada aqui. Não é nada perto de mim. E não é nada sem mim.
Jane falou cada sentença com uma pausa estratégica, deixando que cada palavra se infiltrasse como veneno.
— Ponha-se no seu lugar... ou da próxima vez, não terá lugar nenhum. Você me entendeu?
Seu tom era o mesmo de sempre: frio, preciso. Mas havia raiva em sua voz, uma raiva contida, meticulosamente dosada, como se ela escolhesse exatamente quanto Cassius merecia sofrer.
Jacob continuava parado, os olhos fixos nela. E, por um instante, perdeu o fôlego. Não era medo. Não era desejo. Era... fascínio. A frieza dela, o controle absoluto, o modo como esmagava alguém com o olhar e fazia parecer fácil. Ninguém ali se atrevia a desafiá-la, nem Alec. Nem Cassius. Ninguém vinha acima de Jane — e ela fazia questão de lembrar isso com sangue, se necessário.
Um arrepio percorreu a espinha de Jacob. Não porque ela o assustava, mas porque havia algo em toda aquela cena que o atingia profundamente. Ele não sabia explicar — e odiava isso.
Cassius caiu para frente, os braços falhando sob o próprio peso. Estava ofegante, o rosto contraído em dor silenciosa. E foi esse som abafado, quase humano, que arrancou Jacob de seus pensamentos.
Ele piscou, respirou fundo e desviou o olhar.
O que diabos tá acontecendo comigo? — pensou, irritado consigo mesmo.
— Sim. — respondeu Cassius, ainda ofegante. — Eu entendi. Me desculpe.
Sua expressão era impassível. Nenhum traço de dor ou arrependimento, mas também nenhuma arrogância. Estava simplesmente... neutro. Frio. Indecifrável.
— Ótimo. — disse Jane, com um aceno breve e impaciente. — Aro precisa saber o que aconteceu aqui, e você irá relatar tudo com detalhes. Ficaremos aguardando o contato dele com Alec. Enquanto isso, permaneceremos atentos. Pode haver outros lobisomens escondidos, esperando para atacar.
Cassius se levantou lentamente, endireitando a postura e ajeitando as roupas manchadas e desalinhadas. Depois, sem dizer mais uma palavra, virou-se e deixou a casa.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Ninguém ousou sequer respirar por alguns segundos. Quil e Embry mantinham as cabeças baixas, as mãos enfiadas nos bolsos, como se estivessem envergonhados por estarem ali, testemunhas daquela cena.
Jane foi quem quebrou o silêncio, com sua voz firme e porém mais relaxada. Sua expressão já não era tão séria e tensa.
— Agora que ele se foi, vocês podem descansar em paz. Tomem um banho e tentem dormir um pouco. Eu e Alec iremos até a cidade comprar mais comida.
— E se ele voltar? — perguntou Quil, ainda desconfiado.
— Acha mesmo que, depois do que ela fez com ele, ele teria coragem de voltar?! — retrucou Embry, a voz carregada de incredulidade e uma pontada de medo.
Alec e Jacob riram baixinho, cúmplices por um instante.
— Apenas descansem. — tranquilizou Alec, em um tom gentil e quase reconfortante. — Vamos garantir algumas horas de paz pra vocês.
Ele passou o braço pelos ombros da irmã, e os dois saíram da cabana em silêncio.
Foi só depois que a porta se fechou atrás deles que os meninos pareceram respirar de verdade. O ar pareceu mais leve. Tudo era mais fácil quando estavam sozinhos.
— Caramba, eu nem acredito em tudo o que aconteceu hoje. — comentou Quil, ainda assimilando o caos do dia.
— Pois é... nem eu. — murmurou Embry, balançando a cabeça.
— Você viu o que ela fez com o vampiro? — disse Quil, agora mais animado, quase divertido. — Achei que ela fosse matar ele.
— Deveria. — retrucou Jacob, sério. — Viu como ele agiu com ela? Tentou tirar a autoridade dela na frente da gente. Consegue pensar em algo mais humilhante pra alguém como a Jane?
— Eu é que vou ficar bem quietinho perto dela. — disse Embry, com um meio sorriso. — Se ela mandar eu tirar a roupa e correr pelado na neve, pode apostar que eu faço isso sorrindo.
Os três caíram na risada, abafada, mas genuína. Era o tipo de alívio que só vinha depois de muito estresse acumulado — e de ver alguém ainda mais assustador do que seus inimigos colocando outro monstro em seu devido lugar.
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A floresta ao redor era silenciosa, interrompida apenas pelo som da água corrente e o estalar ocasional de galhos sob os pés dos animais que passavam ao longe. O lago gelado refletia o céu nublado da Rússia, espelhando o mundo cinzento que os cercava. Jane retirou o vestido sujo de sangue e o jogou sobre uma pedra coberta de musgo. Respingos secos de tingiam sua pele clara de tons escuros. Alec fez o mesmo, tirando sua roupa e mergulhando sem receios na água.
— Você está bem? — perguntou Alec, sem olhá-la, esfregando o sangue ressecado que manchava o antebraço.
— Já estive melhor. — Jane respondeu, simples, limpando a lateral do pescoço com a palma mergulhada. — Mas estou inteira. O que já é mais do que eu esperava.
Alec a encarou então. Pela primeira vez em dias, seus olhos não tinham sarcasmo ou indiferença. Eram apenas olhos de irmão.
— Eu falhei com você.
Jane desviou o olhar, irritada.
— Não comece com isso. Você estava lutando também. Não dava pra fazer tudo ao mesmo tempo.
— Mas eu devia ter conseguido. — insistiu Alec. — Eu devia ter antecipado o ataque. Você caiu. E eu vi o medo. Isso não acontece com você.
O silêncio que veio depois foi pesado. Jane passou a mão molhada pelos cabelos, desfazendo parte do coque e soltando alguns fios para os lados do rosto. Depois ergueu os olhos, os vermelhos firmes, frios — mas não indiferentes.
— Eu tive medo, sim. E estou com mais raiva por isso do que por qualquer outra coisa. — admitiu. — Mas não foi você quem me deixou vulnerável. Foi ele.
Alec assentiu. Sabia de quem ela falava.
— Cassius.
— Quando precisei, ele hesitou. Como sempre. — Ela cuspiu as palavras com desprezo. — E ainda teve a audácia de me confrontar. Na frente deles.
Alec apertou os punhos dentro d'água.
— Você fez o que tinha que fazer. Eu teria feito o mesmo se fosse comigo.
— Eu sei. — Jane respondeu. — Mas ele está cada vez mais instável. E Aro o protege demais.
— Até Aro tem limites. Quando souber o que aconteceu...
— Ele não irá mostrar.
— Mas eu vou — Alec sorriu, travesso.
— Faça isso com cuidado. — interrompeu Jane. — Aro ainda precisa dele. E se você for direto demais, pode parecer pessoal. Pode parecer que estamos agindo por ressentimento.
— E não estamos?
Jane esboçou um sorriso frio.
— Estamos. Mas ninguém precisa saber disso.
O silêncio voltou brevemente, mas agora era mais leve. Ambos já estavam limpos. Jane saiu, colocou a blusa de volta e o casaco por cima, ainda molhado nas bordas, e ajeitou os cabelos como pôde. Alec também se recompôs, e juntos começaram a caminhar entre as árvores.
— Precisamos de roupas novas também. E talvez... uma garrafa de vodka para os meninos relaxarem. — comentou Alec.
— Ou para embebedá-los e deixá-los vulneráveis. — ironizou Jane.
— Um presente de agradecimento, vai. Jacob salvou sua vida.
Jane o olhou de lado.
— Ele salvou a missão. O resto é circunstância.
— É. Claro que é. — Alec respondeu, sorrindo de canto. — E por acaso essa "circunstância" tem um metro e noventa, corpo quente como um forno e olhos que te seguem em silêncio?
Jane revirou os olhos.
— Você está insuportável.
Alec apenas riu, satisfeito. Ambos continuaram andando rumo à cidade, os passos sincronizados, as roupas ainda marcadas por vestígios da última batalha, mas com a postura firme de quem já estava pronto para a próxima.
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A água quente da bacia escorria devagar pelos ombros e costas de Jacob, lavando o sangue seco e a terra grudada em sua pele. O vapor subia devagar, misturando-se ao cheiro de sabão simples e madeira queimada. Mas nada era capaz de abafar o turbilhão em sua mente. Ele passou o pano pelo peito, depois pelo rosto, tentando apagar não só a sujeira da batalha, mas também as imagens que insistiam em se repetir atrás dos olhos.
Seus pensamentos, antes dominados por raiva e frustração, agora eram um emaranhado denso de imagens e sensações. A pele pálida de Jane, visível pelos rasgos em sua roupa após a luta. A forma como seus olhos se arregalaram — não em fúria, mas em medo. E o que ele sentiu ao vê-la daquele jeito. Um instinto primitivo que queimava dentro dele, gritando para protegê-la. Ele se viu revivendo aquele segundo: o salto, o impacto, o peso dos lobisomens sendo arremessados, a adrenalina pulsando como fogo em suas veias.
"Ela é uma Volturi. Não é uma de nós," ele pensou, enquanto mergulhava novamente o pano na bacia. "Ela é a inimiga."
Mas o corpo não mentia. Nem o que ele sentiu. E aquilo o desconcertava de um jeito que o deixava inquieto.
Depois de se enxugar com uma toalha seca, vestiu suas roupas e saiu do banheiro. Quil e Embry já estavam estirados em suas camas, rendidos ao cansaço, respirando pesadamente. O ronco baixo de um deles ecoava levemente pela cabana.
Jacob caminhou até o sofá e sentou-se com um suspiro pesado. Deixou o peso do corpo afundar no estofado gasto e recostou-se, encarando a lareira que crepitava suavemente, iluminando o ambiente com tons dourados e sombras dançantes.
Ele ficou ali por um longo tempo, os olhos fixos nas chamas, mas a mente longe. Ainda no chão da caverna. Ainda sobre ela. Sentindo o calor do corpo de Jane por baixo do seu, mesmo que por breves segundos. O jeito como ela se mexeu, como seus olhos procuravam desesperadamente por algo — ou alguém. Como, por um instante, ela não foi uma vampira. Foi apenas uma mulher em perigo.
"Isso não significa nada," ele tentou se convencer. "Foi só instinto. Nada mais."
Mas a confusão não cedia. O nó apertado no peito também não. E entre a raiva que ainda sentia por Cassius e o desconforto inquietante que Jane agora lhe causava, Jacob não sabia mais de onde vinha o verdadeiro perigo.
Depois de algum tempo, o calor da lareira, o silêncio e o peso da exaustão finalmente o venceram. Seus olhos fecharam, devagar. E ele adormeceu ali mesmo, envolto em lembranças que ainda queimavam sob a pele.
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O céu já estava tingido de cinza profundo quando Jane e Alec voltaram à cabana. A trilha de volta fora silenciosa, marcada apenas pelos estalos de galhos secos sob os pés e o som ocasional do vento cortando pelas árvores. Cada um carregava sacolas — algumas com roupas novas, outras com suprimentos cuidadosamente escolhidos para manter os lobos alimentados e em funcionamento por mais alguns dias.
Assim que a porta rangeu ao se abrir, o calor do interior os envolveu. Quil estava deitado de barriga pra cima na cama, completamente coberto com um cobertor grosso, enquanto Embry mexia no fogo da lareira. Jacob, sentado no sofá, estava com os olhos entreabertos, em silêncio. Ainda estava cansado, conseguiu dormir por, mais ou menos, cinco horas, até sentir o cheiro de vampiros se aproximando. Embry já estava acordado.
— Trouxemos comida. — Alec anunciou, soltando as sacolas sobre a bancada de madeira. — E roupas.
Jacob olhou na direção dos gêmeos, também estavam com roupas novas. Roupas que eram do estilo Russo de inverno, com casacos que imitavam pele de animal, todos aparentemente bem quentes — como se eles precisassem disso para se esquentar.
Quil se ergueu com dificuldade, ainda meio sonolento.
— Vocês trouxeram alguma coisa com gosto ou é tudo saudável e sem graça? — perguntou, fuçando as embalagens.
— Trouxemos carne, pão, doces, café e, a pedido do Alec... — Jane retirou uma garrafa escura de uma sacola. — Vodka.
Os garotos riram.
— Sabem que nosso organismo não nos permite ficarmos bebados, não é?! — Disse Jacob por cima do ombro, sem realmente olhar para ela.
— Droga! Lá se vai meu plano de te matar de overdose já que minha rodada de dor se esgotou por hoje — Respondeu Jane, sua voz carregada de um sarcásmo relaxado.
— Trocou mais de três palavras comigo e reviu minha sentença de morte. — Ele olhou para ela, dando um meio sorriso. — Acho que somos quase melhores amigos.
Jane sorriu. Era a primeira vez que Jacob percebia seu sorriso por algo que ele disse. Ela, por outro lado, não notou que sorriu, porque estava focada demais olhando suas olheiras e feição cansada. Sabia que fazia dias que ele não dormia de verdade e isso estava começando a afetá-lo.
A vampira começou a retirar os mantimentos restantes da sacola. Alec distribuiu as roupas novas — peças quentes e funcionais, todas em tons escuros, ideais para o ambiente gelado e para missões noturnas.
— Você está exausto. — Disse sem olhar para ele, reorganizando as coisas sobre a mesa, sem querer conter sua vontade de fazer aquele comentário. — Não conseguiu dormir?
— Um pouco. É difícil relaxar quando se quase morre todos os dias. — respondeu Jacob.
Ela se virou para ele, os olhos vermelhos atentos.
— Temos alguns dias de folga. Se Alice não disser nada, temos cerca de mais de dez horas até Cassius chegar em Volterra.
Jacob deu de ombros.
— Não me dou ao luxo de baixar a guarda. Principalmente com vocês por perto. — Não era uma afronta, estava cansadamente sendo sincero.
Jane o observou por mais um segundo antes de voltar sua atenção aos alimentos.
— Como quiser. — Disse apenas.
A tensão começava a se dissipar devagar. Pela primeira vez em dias, havia uma sensação quase familiar naquele lugar. Quase humana, apesar de ninguém ali ser humano.
A comida ficou pronta depois de alguns minutos. Os garotos comeram com extrema vontade, até ficaram completamente satisfeitos. Entre eles, conversavam relaxadamente sobre alguns momentos contra os lobissomens, como se estivessem falando de uma partida de futebol difícil.
Jane e Alec, após prepararem a comida, preferiram sair novamente. Não iriam se manter afastados demais — por segurança e controle — mas também achavam que os lobos precisavam de mais algumas horas de descanso, principalmente após uma bela refeição.
Eles não tinha necessidade de ficarem quentes e confortáveis, não estavam vivos, mas os aliados sim. E fazia parte do plano de Aro mostrar o quanto os Volturi eram cuidadosos e mantinham mais do que sua parte em um trato, proporcionando conforto à seus aliados. E sem Cassius isso ficavam muito mais fácil de ser conduzido.
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