Entre o Dever e o Desejo
3 Sombras e Promessas Proibidas
A música do banquete tornara-se um zumbido abafado, filtrado pelas grossas paredes de pedra. Claire precisava respirar. O ar pesado de perfumes caros, segredos sussurrados e o olhar possessivo de Richard haviam se tornado sufocantes. Ela escapou por uma porta lateral, adentrando o labirinto de sebes do Jardim das Rosas de Valerion.
O frescor da noite a envolveu. A lua cheia banhava as pétalas brancas e os espinhos com uma luz prateada, transformando o jardim em um santuário de silêncio. Claire respirou fundo, fechando os olhos por um momento, imaginando uma vida onde suas escolhas fossem realmente suas.
— Fugindo dos seus deveres, Princesa? Ou apenas de si mesma?
A voz de Gaspar cortou o silêncio, vindo de uma sombra projetada por um arco de trepadeiras. Claire estremeceu. Ela não o ouvira se aproximar.
Gaspar emergiu da escuridão. Ele não usava mais o gibão de veludo sufocante; sua camisa de seda estava com os primeiros botões abertos, e a jaqueta estava jogada displicentemente sobre o ombro. Ele parecia ainda mais perigoso sob a luz da lua.
— Eu estava... buscando ar fresco — Claire gaguejou, recuando um passo.
— O ar lá dentro é viciado. Todos parecem estar usando máscaras, mesmo sem ser um baile à fantasia — Gaspar parou a poucos centímetros dela. Ele não tocava nela, mas sua presença era uma invasão silenciosa. — Você, inclusive.
— Eu não uso máscara — Claire defendeu-se, sua voz falhando.
— Ah, usa sim. Você finge estar feliz com esse noivado. Finge que Richard é o homem que incendeia sua alma. Mas eu vejo o fogo em seus olhos, Claire. E ele não é para o meu irmão.
Ele se aproximou ainda mais. A tensão era elétrica. A mão de Gaspar moveu-se lentamente, como se fosse tocar uma mecha do cabelo ruivo dela, mas parou no meio do caminho. Claire estava paralisada, oscilando entre o medo e um desejo avassalador que a assustava.
Crack.
O som de um galho quebrando quebrou o feitiço.
— Claire? Onde você se meteu?
A voz de Richard veio do corredor de sebes principal.
Em um piscar de olhos, Gaspar mudou sua postura. A tensão elétrica desapareceu, substituída por uma expressão de tédio exagerado. Ele se afastou de Claire, apoiando-se casualmente em uma estátua de mármore próxima, e pegou uma rosa branca, girando-a entre os dedos com um sorriso irônico.
Richard apareceu no arco do jardim. Sua expressão era uma mistura de preocupação e suspeita. Seus olhos verdes faiscaram quando ele viu Gaspar.
— O que vocês dois estão fazendo aqui? Sozinhos? — a voz de Richard estava baixa, tensa, como uma corda prestes a arrebentar.
— Eu estava apenas mostrando à Princesa Claire a qualidade superior das rosas de Valerion, irmão — Gaspar disse, sua voz transbordando um deboche sedoso. — Ela parecia prestes a desmaiar com o seu discurso sobre rotas comerciais. Achei que precisava de uma distração mais... orgânica.
Ele estendeu a rosa branca para Claire com uma reverência exagerada.
— Sua flor, Majestade. Para que não se esqueça de que a beleza também tem espinhos.
Claire aceitou a rosa com as mãos trêmulas. Ela olhou para Richard, que a encarava com uma intensidade fria.
— Eu estava cansada, Richard. Gaspar apenas... apareceu.
— Volte para o salão, Claire. O Rei Dominic está procurando por você — Richard ordenou, sem tirar os olhos do irmão.
Claire assentiu rapidamente, a rosa branca apertada contra o peito. Ela passou por Richard e correu de volta para a segurança relativa do palácio, seu coração batendo como um tambor de guerra.
Assim que a porta se fechou atrás dela, a atmosfera no jardim mudou drasticamente. Richard deu um passo em direção a Gaspar, sua mandíbula travada.
— O que você pensa que está fazendo, Gaspar? — Richard sibilou, sua voz cheia de uma fúria contida.
— Admirando a paisagem, irmão. Você deveria tentar. Valerion tem belos jardins — Gaspar respondeu, seu tom de voz permanecendo leve e provocativo, enquanto olhava para a rosa que acabara de entregar.
— Fique longe dela. Ela é minha noiva. Ela será a Rainha de Astúria. O seu comportamento é uma ofensa a mim, a Astúria e à Casa Heraldrick.
Gaspar soltou uma risada curta, sem humor.
— "Dever", "Honra", "Astúria". Essas são as únicas palavras que você conhece, Richard? Você é tão previsível que até as sebes do jardim sabem o que você vai dizer.
— Eu sou o Rei, Gaspar! Eu carreguei o peso da nossa família quando você estava ocupado gastando o tesouro real em tavernas e mulheres! — Richard explodiu, agarrando o colarinho da jaqueta de Gaspar.
Gaspar não recuou. Seus olhos azuis encontraram os verdes de Richard com um desafio gélido.
— E você se tornou tão rígido que esqueceu como é estar vivo. Você acha que pode comprar a alma dela com um anel e um contrato de paz? Eu vejo como ela olha para você, Richard. Ela vê um contrato. Eu vejo o que ela realmente quer.
Richard o empurrou violentamente.
— Se eu te pegar perto dela novamente, Gaspar... Eu vou te banir. Eu juro pela memória de nossos pais.
— Você não faria isso — Gaspar respondeu, endireitando a jaqueta com um sorriso de lado arrogante. — Você precisa de mim. Quem mais vai lembrá-lo de que você é um homem, e não uma estátua de mármore? Mas fique tranquilo, irmão. Eu sei o meu lugar. Eu sou apenas o irmão... por enquanto.
Gaspar piscou para Richard e começou a caminhar em direção à saída do jardim, assobiando uma melodia despreocupada, deixando Richard sozinho sob a luz da lua, consumido por uma fúria que nada tinha a ver com o dever.
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