Entre o Dever e o Desejo

4 Segredos Entre Estantes e Veludo




​Os dias que antecediam o casamento eram uma sucessão interminável de medições de tecidos, provas de joias e conselhos que Claire preferia não ouvir. O palácio de Valerion fervilhava com a chegada de tecelões e floristas de todos os cantos.

​No aposento real, a Rainha Marissa e Selina observavam Claire enquanto as costureiras ajustavam a cauda de seda branca, bordada com fios de prata de Astúria.

​— Você está deslumbrante, Claire — disse Marissa, aproximando-se para ajeitar uma mecha do cabelo ruivo da filha. — Mas precisa relaxar os ombros. Uma rainha carrega sua coroa com orgulho, não com medo.

​— É difícil não sentir medo quando o futuro parece um salto no escuro, mamãe — Claire murmurou, olhando seu reflexo.

​Selina, que sempre fora mais pragmática, fez um sinal para que as costureiras saíssem. Ela se aproximou de Claire, baixando a voz.

​— O medo é normal, Claire. Especialmente sobre a noite de núpcias. Richard é um homem sério, mas não é um monstro. Ele será gentil, à sua maneira. O dever de uma esposa é encontrar conforto na segurança que o marido provê.

​— Segurança não é a mesma coisa que paixão, Selina — Claire retrucou, o pensamento voando involuntariamente para o olhar azul de Gaspar no jardim.

​— Paixão é para os contos que você lê na biblioteca — Marissa interrompeu, firme. — O casamento é um pacto. Richard lhe dará proteção e um herdeiro. Com o tempo, o respeito se transformará em algo sólido. É assim que nossa linhagem sobrevive.

​Sufocada pelas expectativas das mulheres de sua família, Claire buscou refúgio no único lugar onde o silêncio era garantido: a Grande Biblioteca de Valerion. Entre o cheiro de pergaminho antigo e madeira encerada, ela se sentia um pouco mais dona de si.

​Ela percorria os dedos pelas lombadas dos livros quando uma voz, carregada de ironia, ecoou por trás de uma prateleira de carvalho.

​— "A Arte da Guerra"? Um tanto agressivo para uma noiva, não acha?

​Gaspar estava sentado em uma escada de correr, um livro aberto sobre os joelhos. Ele parecia perfeitamente à vontade, como se a biblioteca fosse seu domínio pessoal.

​— O que você está fazendo aqui, Gaspar? — Claire perguntou, o coração disparando. — Pensei que preferisse os campos de caça ou as tavernas.

​— Gosto de saber o que meus inimigos pensam — ele disse, descendo da escada com uma agilidade felina. — E o conhecimento é a única arma que Richard não pode me tirar.

​Ele parou diante dela, bloqueando o caminho entre as estantes. O espaço era pequeno, íntimo demais.

​— Ouvi dizer que estão discutindo seus "deveres" reais lá em cima — ele sussurrou, aproximando-se. — Eles estão ensinando você a ser uma estátua ao lado de um rei de pedra. Mas olhe para você, Claire... suas mãos estão trêmulas. Você não foi feita para o silêncio de Astúria.

​— Você não deveria falar assim do seu irmão. E nem comigo.

​— Eu falo a verdade que você não quer admitir — Gaspar levou a mão ao rosto dela, mas antes que pudesse tocá-la, um som de passos pesados e metálicos ecoou na entrada da biblioteca.

​Gaspar se afastou milimetricamente, mas sua expressão de deboche não vacilou. Sebastian, o irmão de Claire, apareceu no corredor. Sua mão estava no punho da espada e seus olhos queimavam de fúria.

​— Claire, sua mãe a está procurando — Sebastian disse, sua voz um trovão contido. — Vá agora.

​Claire olhou de um para o outro e, sem dizer uma palavra, saiu apressada, sentindo o peso do confronto que deixava para trás.

​Sebastian deu um passo à frente, encurralando Gaspar contra a estante. Sebastian era seis anos mais velho que Claire e conhecia muito bem os jogos de poder — e de alcova.

​— Eu conheço sua fama, Heraldrick — Sebastian sibilou. — Sei o que dizem de você nas cortes do Norte. Sei que você coleciona corações partidos e escândalos como se fossem troféus.

​Gaspar sorriu, sem se abalar.

— A reputação costuma ser um exagero da inveja alheia, meu caro cunhado.

​— Não tente ser esperto comigo. Claire é uma criança comparada ao seu cinismo — Sebastian o segurou pela gola da camisa, empurrando-o contra os livros. — Richard pode ser seu irmão e pode ter a paciência de um santo, mas eu não tenho. Se eu vir você a menos de dez passos da minha irmã novamente, eu não vou me importar com alianças ou tratados. Eu vou enterrar você nos jardins de Valerion.

​Gaspar manteve o sorriso, embora seus olhos estivessem frios.

— Você protege bem sua propriedade, Sebastian. O problema é que Claire não é um objeto. E quanto mais vocês a prendem, mais ela vai querer voar.

​— Fora daqui — ordenou Sebastian, soltando-o com desprezo. — Antes que eu mude de ideia e resolva resolver isso aqui mesmo.

​Gaspar limpou a poeira invisível de sua camisa e fez uma reverência curta e debochada.

— Como desejar, Príncipe Herdeiro. Mas lembre-se: as paredes deste castelo têm ouvidos, e os corações... bom, os corações têm vontades que nem mesmo uma espada pode controlar.

​Gaspar saiu da biblioteca com sua habitual arrogância, deixando Sebastian sozinho com o pressentimento de que o casamento de sua irmã seria o estopim de uma tragédia que nenhum deles poderia evitar.