O clima de festa lá fora contrastava violentamente com o silêncio fúnebre dentro dos aposentos de Claire. O vestido de noiva, uma obra-prima de seda branca e fios de prata de Astúria, parecia pesar toneladas. Claire encarava seu reflexo no grande espelho de moldura dourada, sentindo-se como um sacrifício pronto para o altar.

​A porta rangeu. Ela esperava ver sua mãe ou uma serva, mas o reflexo que apareceu atrás dela fez seu fôlego travar.

​Gaspar estava impecável em seu traje de gala negro, mas seus olhos carregavam aquela mesma chama rebelde de sempre. Ele caminhou lentamente até parar logo atrás dela, observando-a pelo espelho.

​— Você está perigosamente bonita, Claire — ele sussurrou, a voz vibrando rente ao ouvido dela. — É um desperdício ver tanta vida sendo trancada em uma armadura de prata.

​Claire tentou dizer algo, mas as palavras morreram. Gaspar virou-a para si com uma lentidão torturante. Ele não pediu permissão. Suas mãos, firmes e quentes, envolveram o rosto da princesa, e ele a beijou. Foi um beijo faminto, proibido, que carregava o sabor do perigo e da liberdade que Richard jamais prometera.

​Quando ele se afastou, seus lábios estavam a milímetros dos dela.

​— Um pequeno presente de despedida da sua vida antiga — ele disse com um sorriso sombrio. — E um lembrete para a nova: meu irmão conhece o reino, as leis e o dever. Mas ele não conhece você. Quando Richard a ignorar pelas pilhas de documentos... quando você se sentir sozinha naquela cama fria de Astúria... me procure. Eu a servirei de bom grado, Claire. Em todos os sentidos.

​Sem dar tempo para uma resposta, ele saiu, deixando o perfume de sândalo e o caos instalados no coração da noiva.

​As trombetas ecoaram por toda Valerion. A catedral estava lotada, um mar de nobres e plebeus ansiosos pela união que selaria a paz. Claire caminhava pelo tapete longo, os olhos fixos no altar onde Richard a esperava. Ele parecia um rei lendário, imponente e seguro, mas para Claire, ele era apenas o homem que a levaria para uma prisão dourada.

​Ao lado de Richard, Gaspar permanecia como padrinho, com uma expressão de tédio perfeitamente calculada, embora seus olhos queimassem Claire a cada passo.

​O sumo sacerdote começou a cerimônia. As palavras sobre "união eterna" e "sacrifício pelo reino" pareciam distantes, como se estivessem sendo ditas debaixo d'água.

​— Claire Mackenzie — a voz do sacerdote a trouxe de volta. — Você aceita Richard Heraldrick como seu legítimo esposo, para reinar ao seu lado em Astúria e Valerion?

​O silêncio que se seguiu foi constrangedor. Richard franziu o cenho levemente, seus olhos verdes buscando os dela com uma mistura de preocupação e uma pontada de insegurança que Claire nunca vira nele. Sebastian e Selina trocaram olhares tensos na primeira fila.

​Claire sentiu o toque de Gaspar em sua mente, as palavras dele na biblioteca, o beijo no quarto. Ela olhou para Richard. Ele era o caminho certo. Gaspar era o abismo.

​— Sim... — ela finalmente murmurou, a voz quase sumindo. — Eu aceito.

​Richard relaxou os ombros, mas o hesitar de Claire não passou despercebido. Enquanto ele colocava a aliança no dedo dela, seus olhos se estreitaram. Ele sentiu que, embora estivesse levando a noiva, o coração dela não estava naquele altar.

​O beijo selado diante de todos foi casto e formal, mas os pensamentos de Claire já estavam longe, cruzando a fronteira do que era permitido. A cerimônia terminara, mas a verdadeira guerra dentro de Claire Mackenzie estava apenas começando.