O salão de festas de Valerion era um turbilhão de cores e sons. A cerimônia havia terminado, mas a verdadeira encenação começava agora. Como manda a tradição, Richard e Claire abriram a valsa real. Richard conduzia com precisão, mas seus movimentos eram rígidos, como se ele estivesse contando cada passo para não cometer erros diante dos convidados.

​— Você está tensa — Richard murmurou, a mão firme na cintura dela. — O pior já passou, Claire.

​— O pior ou o começo, Richard? — ela respondeu, tentando manter a cabeça erguida enquanto sentia o olhar de centenas de pessoas sobre si.

​A música mudou para um tom mais fluido e alegre, o sinal para que os outros membros da corte se juntassem à dança. Foi nesse momento que o círculo se abriu e Gaspar surgiu. Ele caminhou com uma elegância predatória em direção ao casal. Com um sorriso que não chegava aos olhos, ele estendeu a mão para o irmão, um pedido silencioso para trocar de par.

​Richard hesitou. Seus dedos apertaram o braço de Claire por um segundo a mais do que o necessário. O ar entre os irmãos ficou gélido.

​— Richard? — Gaspar provocou, a voz alta o suficiente apenas para os três ouvirem. — O que é isso, irmão? Vai travar no meio do salão? Não vá passar essa vergonha e fazer um vexame diante de dois reinos por causa de uma dança de cortesia. É apenas o protocolo... ou você tem medo de mim?

​Richard, sentindo o peso dos olhares do Rei Dominic e de Sebastian, soltou Claire lentamente. Sua mandíbula estava tão travada que parecia prestes a quebrar.

— Apenas uma dança, Gaspar.

​No momento em que a mão de Gaspar tocou a de Claire, uma faísca pareceu saltar entre eles. Ele a puxou para mais perto do que o protocolo exigia, sua mão descendo perigosamente pelas costas dela até o limite do permitido.

​— Você mentiu no altar, sabia? — Gaspar sussurrou no ouvido dela, sua respiração quente fazendo Claire arrepiar-se inteira. — Eu vi o seu "sim" sair como um suspiro de derrota.

​— Cale-se, Gaspar — Claire sibilou, embora seu rosto estivesse em brasa.

​— Você está corada, Princesa... ou devo dizer, Rainha? — Ele a girou com força, fazendo as saias de seda voarem. — Mas seus olhos dizem que você está pegando fogo por dentro. Richard vai lhe dar um trono de gelo, mas eu... eu posso lhe dar o incêndio que você procura.

​Claire sentia que o chão ia sumir. O toque de Gaspar era urgente, faminto, e as palavras dele derrubavam todas as defesas que ela tentara construir. Antes que ela pudesse responder, uma mão firme tocou o ombro de Gaspar.

​Sebastian interveio, o rosto fechado como uma tempestade.

— Minha vez com minha irmã, Heraldrick.

​Gaspar soltou Claire com uma reverência zombeteira.

— Ela é toda sua, Príncipe. Já tive o prazer que precisava.

​Enquanto Sebastian levava Claire para longe, protegendo-a com seu corpo, Gaspar caminhou até o buffet de bebidas, onde Richard o esperava, observando tudo de longe com uma expressão sombria.

​— Precisamos conversar, agora — Richard disse, sua voz vibrando de fúria contida. — O que você pensa que está fazendo provocando minha esposa e o irmão dela em público?

​Gaspar tomou um longo gole de vinho, olhando para o teto do salão com tédio.

— Relaxa, Richard. O mundo não vai acabar por causa de uma valsa. Mas, se serve de consolo para sua paranoia de rei, eu tenho uma notícia que vai te agradar.

​Richard arqueou uma sobrancelha, desconfiado.

​— Vou sumir por um tempo — Gaspar continuou, o tom subitamente sério, mas ainda irônico. — Assim que cruzarmos a fronteira de volta para Astúria, vou partir em uma "viagem de exploração" pelas províncias do norte. Vou ficar longe do seu castelo e da sua rainha por uns bons meses.

​Richard piscou, pego de surpresa. O alívio foi imediato, mas veio acompanhado de uma estranha sensação de desconfiança. Gaspar nunca cedia tão fácil.

​— Por que isso agora? — Richard perguntou, tentando ler as intenções do irmão.

​— Digamos que o ar de Astúria vai ficar rarefeito demais para nós dois com Claire por lá — Gaspar deu um tapinha no ombro do irmão e sorriu de lado, um brilho enigmático nos olhos. — Aproveite sua lua de mel, irmão. Se você conseguir.

​Richard ficou parado, observando o irmão se afastar. Ele deveria estar feliz, mas a partida repentina de Gaspar o deixou pensativo. Ele não entendia se aquilo era uma trégua ou se o irmão estava apenas preparando o terreno para um golpe muito mais doloroso no futuro.