​O quarto real em Valerion parecia vasto demais naquela noite. O silêncio era interrompido apenas pelo estalar da lenha na lareira, que lançava sombras dançantes pelas paredes cobertas de tapeçarias. Claire, agora sem o peso do vestido de noiva e vestindo apenas uma camisola de seda marfim, sentia-se vulnerável. O beijo de Gaspar ainda queimava em sua memória como uma cicatriz, mas o homem que entrava pela porta agora era seu marido.

​Richard retirou a capa pesada e a coroa, colocando-as sobre a mesa de carvalho. Sem os adornos de rei, ele parecia... humano. Mais jovem, menos impenetrável.

​— Você parece estar esperando por uma batalha, Claire — ele disse, sua voz soando suave na quietude do quarto.

​— Eu só... não sei o que esperar — ela confessou, as mãos unidas firmemente à frente do corpo.

​Richard aproximou-se devagar. Ele não tinha a urgência predatória de Gaspar; havia uma reverência em seus movimentos que Claire não previu. Ele parou diante dela e, com uma delicadeza surpreendente, tomou suas mãos nas dele.

​— Eu sei que este casamento foi um acordo. Sei que você foi arrancada da sua vida para ser minha rainha — ele começou, olhando-a nos olhos com uma sinceridade que desarmou as defesas dela. — Mas eu não quero que você seja uma prisioneira em Astúria. Eu a escolhi não apenas pelo seu reino, mas porque vi em você uma força que o meu povo precisa. E que eu também preciso.

​Claire sentiu o coração falhar uma batida.

— Richard, eu pensei que você só se importasse com mapas e tratados.

​— Os mapas mantêm o reino vivo, Claire. Mas a beleza... a vida que você traz... é o que faz o reino valer a pena — ele levou a mão ao rosto dela, o polegar acariciando sua bochecha. — Eu prometo a você, aqui e agora: serei seu escudo. Nunca deixarei que nada lhe falte. Se você me der uma chance, talvez possamos construir algo que seja mais do que apenas um contrato.

​Quando ele a beijou, não houve a eletricidade perigosa de Gaspar, mas algo diferente: uma segurança profunda, um calor que começou nos lábios e se espalhou pelo peito dela. Richard era um amante atento, focado em cada reação de Claire, guiando-a com uma paciência que a deixava sem fôlego.

​A entrega aconteceu de forma natural, entre lençóis de linho e o calor da lareira. Claire notou, com um choque de realidade, que Richard era maravilhoso. Ele era forte, mas sensível; firme, mas protetor. Pela primeira vez, ela não se sentiu uma peça de tabuleiro, mas uma mulher sendo verdadeiramente vista.

​Mais tarde, com a cabeça descansada no peito largo de Richard, ouvindo o pulsar constante do coração dele, Claire fechou os olhos.

​— No que está pensando? — Richard sussurrou, acariciando o ombro dela.

​— Que o mundo é muito mais complicado do que eu imaginava — ela respondeu sinceramente.

​Richard a apertou mais contra si.

— Vamos enfrentar as complicações juntos. Em Astúria, o inverno é longo, mas dentro do nosso castelo, eu farei questão de que sempre seja primavera para você.

​As palavras dele eram bonitas, curativas. Claire sentiu uma onda de afeto por ele, uma gratidão que começava a se transformar em algo mais profundo. Mas, ao fundo de sua mente, como uma sombra que se recusa a partir, o aviso de Gaspar ecoava: "Quando se sentir sozinha naquela cama fria... me procure."

​Claire estava dividida. Richard era o porto seguro onde ela queria ancorar, mas Gaspar era a tempestade que ela ainda não tinha certeza se queria evitar. Pela primeira vez, ela temia não pelo seu reino, mas por si mesma.

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