Entre o Dever e o Desejo
7 Entre o Gelo e o Fogo
O quarto real em Valerion parecia vasto demais naquela noite. O silêncio era interrompido apenas pelo estalar da lenha na lareira, que lançava sombras dançantes pelas paredes cobertas de tapeçarias. Claire, agora sem o peso do vestido de noiva e vestindo apenas uma camisola de seda marfim, sentia-se vulnerável. O beijo de Gaspar ainda queimava em sua memória como uma cicatriz, mas o homem que entrava pela porta agora era seu marido.
Richard retirou a capa pesada e a coroa, colocando-as sobre a mesa de carvalho. Sem os adornos de rei, ele parecia... humano. Mais jovem, menos impenetrável.
— Você parece estar esperando por uma batalha, Claire — ele disse, sua voz soando suave na quietude do quarto.
— Eu só... não sei o que esperar — ela confessou, as mãos unidas firmemente à frente do corpo.
Richard aproximou-se devagar. Ele não tinha a urgência predatória de Gaspar; havia uma reverência em seus movimentos que Claire não previu. Ele parou diante dela e, com uma delicadeza surpreendente, tomou suas mãos nas dele.
— Eu sei que este casamento foi um acordo. Sei que você foi arrancada da sua vida para ser minha rainha — ele começou, olhando-a nos olhos com uma sinceridade que desarmou as defesas dela. — Mas eu não quero que você seja uma prisioneira em Astúria. Eu a escolhi não apenas pelo seu reino, mas porque vi em você uma força que o meu povo precisa. E que eu também preciso.
Claire sentiu o coração falhar uma batida.
— Richard, eu pensei que você só se importasse com mapas e tratados.
— Os mapas mantêm o reino vivo, Claire. Mas a beleza... a vida que você traz... é o que faz o reino valer a pena — ele levou a mão ao rosto dela, o polegar acariciando sua bochecha. — Eu prometo a você, aqui e agora: serei seu escudo. Nunca deixarei que nada lhe falte. Se você me der uma chance, talvez possamos construir algo que seja mais do que apenas um contrato.
Quando ele a beijou, não houve a eletricidade perigosa de Gaspar, mas algo diferente: uma segurança profunda, um calor que começou nos lábios e se espalhou pelo peito dela. Richard era um amante atento, focado em cada reação de Claire, guiando-a com uma paciência que a deixava sem fôlego.
A entrega aconteceu de forma natural, entre lençóis de linho e o calor da lareira. Claire notou, com um choque de realidade, que Richard era maravilhoso. Ele era forte, mas sensível; firme, mas protetor. Pela primeira vez, ela não se sentiu uma peça de tabuleiro, mas uma mulher sendo verdadeiramente vista.
Mais tarde, com a cabeça descansada no peito largo de Richard, ouvindo o pulsar constante do coração dele, Claire fechou os olhos.
— No que está pensando? — Richard sussurrou, acariciando o ombro dela.
— Que o mundo é muito mais complicado do que eu imaginava — ela respondeu sinceramente.
Richard a apertou mais contra si.
— Vamos enfrentar as complicações juntos. Em Astúria, o inverno é longo, mas dentro do nosso castelo, eu farei questão de que sempre seja primavera para você.
As palavras dele eram bonitas, curativas. Claire sentiu uma onda de afeto por ele, uma gratidão que começava a se transformar em algo mais profundo. Mas, ao fundo de sua mente, como uma sombra que se recusa a partir, o aviso de Gaspar ecoava: "Quando se sentir sozinha naquela cama fria... me procure."
Claire estava dividida. Richard era o porto seguro onde ela queria ancorar, mas Gaspar era a tempestade que ela ainda não tinha certeza se queria evitar. Pela primeira vez, ela temia não pelo seu reino, mas por si mesma.
Fale com o autor