O clima na carruagem era o oposto do luxo da despedida nos portões de Valerion. Após os abraços emocionados de Marissa e o aperto de mão firme de Sebastian, o silêncio se instalou entre as paredes de veludo do transporte real.


​A paisagem das flores de Valerion ia ficando para trás, substituída pelas montanhas rochosas e o ar cada vez mais cortante que anunciava a proximidade de Astúria. Dentro da carruagem, a tensão era palpável. Richard mantinha uma mão sobre a de Claire, mas seus olhos estavam fixos no irmão, sentado à frente deles.

​Gaspar estava em um silêncio absoluto, algo raríssimo para ele. Ele olhava pela janela, observando a estrada com uma expressão vazia, longe do brilho sarcástico habitual.

​— Você está muito quieto, Gaspar — Richard rompeu o silêncio, o tom carregado de desconfiança. — Desde que saímos do banquete, mal abriu a boca. Algum problema com a guarda ou com os suprimentos da sua "expedição"?

​Gaspar desviou o olhar da janela e soltou um sorriso lento, quase melancólico, que não atingiu seus olhos.

— Nenhum problema, irmão. Só estou organizando meus pensamentos. Uma viagem longa exige uma mente limpa.

​— E para onde exatamente você vai? — Richard insistiu. — Você foi vago sobre seus destinos no Norte.

​— Para onde o vento soprar e onde as responsabilidades de um trono não me alcancem — Gaspar respondeu com um dar de ombros displicente.

​Claire, que até então apenas ouvia, sentiu as palavras saírem de sua boca antes que pudesse filtrá-las:

— Por que agora? — ela perguntou, a voz soando mais suave do que pretendia. — Por que partir justamente no momento em que sua família está crescendo e retornando ao lar?

​Gaspar olhou para ela. Por um segundo, a máscara de deboche caiu, e Claire viu uma sombra de dor — ou talvez de renúncia — nos olhos azuis dele.

— Preciso de alguns meses sozinho, Majestade. O ar do castelo de Astúria pode ser muito sufocante para quem não usa coroa. Às vezes, para não quebrar algo precioso, é melhor se afastar.

​Richard franziu o cenho, tentando decifrar a charada do irmão, mas Claire sentiu o peso oculto daquelas palavras. Ela apertou a mão de Richard, buscando estabilidade.

​Horas depois, as imponentes torres de pedra negra do Castelo de Astúria surgiram no horizonte, desafiando as nuvens carregadas de neve. Quando a carruagem finalmente parou no pátio principal, os servos se curvaram diante dos novos soberanos.

​Richard desceu primeiro e estendeu a mão para ajudar Claire. Ela esperava que Gaspar descesse em seguida para as apresentações oficiais, mas ele permaneceu sentado, envolto em sua capa de viagem.

​— Você não vem, Gaspar? — Richard perguntou, parando na porta da carruagem. — O jantar de recepção será servido em breve.

​— Não tenho tempo para banquetes, Richard. O navio parte com a maré da noite e o porto de Mistral ainda está a algumas horas daqui — Gaspar fez um sinal para o cocheiro. — Leve-me ao porto. Agora.

​Antes que a porta se fechasse, Gaspar olhou uma última vez para Claire. Não houve sorrisos, nem provocações. Apenas um aceno de cabeça solene.

— Boa sorte com sua nova vida, Claire. Espero que Astúria lhe dê tudo o que você merece.

​A carruagem partiu ruidosamente, deixando Claire e Richard sozinhos diante do imenso castelo. Richard soltou um suspiro pesado, parte alívio, parte confusão.

— Ele sempre foi um espírito errante, mas essa pressa... parece que ele está fugindo de algo.

​Claire olhou para a carruagem que desaparecia na névoa da estrada, sentindo um vazio estranho no peito. Ela tinha o marido maravilhoso que o destino lhe dera ao lado, e um reino inteiro a seus pés, mas a partida súbita de Gaspar parecia o capítulo final de um sonho perigoso que ela ainda não estava pronta para esquecer.

​— Vamos entrar, minha rainha? — Richard convidou, oferecendo o braço. — O inverno está chegando, e temos muito o que construir.

​Claire assentiu e caminhou para dentro da fortaleza de pedra, enquanto o som das ondas do porto, longe dali, parecia sussurrar o nome do homem que acabara de partir.