O silêncio das masmorras de Astúria era interrompido apenas pelo gotejar constante da umidade nas paredes de pedra fria. O luxo do banquete parecia agora uma alucinação distante.


​Claire estava encolhida em um canto da cela, o vestido de seda agora manchado de poeira e desespero. Suas mãos, que antes carregavam o peso das joias de Valerion, tremiam violentamente. Ela não era mais uma rainha; era uma prisioneira do próprio desejo.

​— Claire... — a voz de Gaspar soou baixa, vinda da cela adjacente.

​Ela se arrastou até as grades de ferro que os separavam. Gaspar estava de pé, as mãos agarradas ao metal, os nós dos dedos brancos. Ele não parecia abatido; seus olhos queimavam com uma fúria protetora que Claire nunca vira antes.

​— Olhe para mim — ele ordenou suavemente. Quando ela ergueu os olhos marejados, ele continuou: — Você não vai cair por isso. Eu não vou permitir.

​— Gaspar, o Cardeal quer nossas cabeças... Richard não pôde fazer nada! Estamos perdidos. Meus pais virão com exércitos e a Igreja nos queimará vivos.

​— Richard não é um tolo, ele só é um rei. Ele está jogando o jogo deles para ganhar tempo — Gaspar esticou os dedos através da grade, conseguindo apenas tocar as pontas dos dedos dela. — Eu prometo a você, Claire, pelo meu sangue e pela minha vida: você ficará bem. Nada de mal vai acontecer com você. Se alguém tiver que pagar o preço desse beijo, serei eu. Mas você sairá daqui com a coroa e a honra intactas.

​— Não sem você — ela soluçou, encostando a testa contra o ferro frio. — Eu não quero uma coroa se o preço for o seu fim.

​Enquanto isso, nos aposentos reais, o caos era de outra natureza. Richard estava parado diante da lareira apagada, a imagem da impotência. A porta se abriu e Katrina entrou, sem pedir licença, com o rosto banhado em lágrimas e a respiração entrecortada.

​— Richard! — ela gritou, caindo de joelhos diante dele, as mãos agarrando a túnica do rei. — Você não pode deixar que façam isso! Eles vão matá-los! Gaspar é o meu único amigo, o único que me estendeu a mão quando eu não era nada... e a Rainha... ela é uma boa mulher, Richard!

​Richard a segurou pelos ombros, tentando levantá-la, mas suas próprias mãos tremiam.

— Katrina, escute-me... o clero tem o apoio dos nobres. Se eu desembainhar minha espada agora contra o Cardeal, eu perco o trono em um minuto e eles serão executados por heresia no minuto seguinte!

​— Então faça algo como o Rei que você é! — Katrina exclamou, em prantos, os olhos fixos nos dele. — Você os ama! Você sabe que a culpa não é apenas deles... nós também estamos pecando, Richard! Se eles são culpados por um beijo, o que somos nós por desejarmos um ao outro sob o seu teto?

​As palavras de Katrina foram como um chicote. Richard a puxou para um abraço apertado, escondendo o rosto no pescoço dela.

​— Eu sei — ele sussurrou, a voz quebrada. — Eu sei. E é por isso que eu vou tirá-los de lá. Mas eu preciso que você confie em mim. O Cardeal pensa que me encurralou, mas ele esqueceu que eu fui treinado para a guerra desde os dez anos. Eu não vou lutar com espadas no pátio, Katrina. Vou lutar com segredos nas sombras.

​Richard a afastou e limpou as lágrimas dela com os polegares, a expressão subitamente transformando-se naquela pedra fria e estratégica que o tornara um rei respeitado.

— Vá para a ala de cura. Prepare o que for necessário para uma viagem longa. Se o plano falhar, precisaremos fugir. Se funcionar... precisaremos de toda a coragem que você possui.

​Katrina assentiu, engolindo o choro, vendo o brilho perigoso voltar aos olhos do rei. O tempo de lamentar havia acabado; o tempo de agir começava agora.