Entre o Dever e o Desejo
17 Promessas no Escuro
O silêncio das masmorras de Astúria era interrompido apenas pelo gotejar constante da umidade nas paredes de pedra fria. O luxo do banquete parecia agora uma alucinação distante.
Claire estava encolhida em um canto da cela, o vestido de seda agora manchado de poeira e desespero. Suas mãos, que antes carregavam o peso das joias de Valerion, tremiam violentamente. Ela não era mais uma rainha; era uma prisioneira do próprio desejo.
— Claire... — a voz de Gaspar soou baixa, vinda da cela adjacente.
Ela se arrastou até as grades de ferro que os separavam. Gaspar estava de pé, as mãos agarradas ao metal, os nós dos dedos brancos. Ele não parecia abatido; seus olhos queimavam com uma fúria protetora que Claire nunca vira antes.
— Olhe para mim — ele ordenou suavemente. Quando ela ergueu os olhos marejados, ele continuou: — Você não vai cair por isso. Eu não vou permitir.
— Gaspar, o Cardeal quer nossas cabeças... Richard não pôde fazer nada! Estamos perdidos. Meus pais virão com exércitos e a Igreja nos queimará vivos.
— Richard não é um tolo, ele só é um rei. Ele está jogando o jogo deles para ganhar tempo — Gaspar esticou os dedos através da grade, conseguindo apenas tocar as pontas dos dedos dela. — Eu prometo a você, Claire, pelo meu sangue e pela minha vida: você ficará bem. Nada de mal vai acontecer com você. Se alguém tiver que pagar o preço desse beijo, serei eu. Mas você sairá daqui com a coroa e a honra intactas.
— Não sem você — ela soluçou, encostando a testa contra o ferro frio. — Eu não quero uma coroa se o preço for o seu fim.
Enquanto isso, nos aposentos reais, o caos era de outra natureza. Richard estava parado diante da lareira apagada, a imagem da impotência. A porta se abriu e Katrina entrou, sem pedir licença, com o rosto banhado em lágrimas e a respiração entrecortada.
— Richard! — ela gritou, caindo de joelhos diante dele, as mãos agarrando a túnica do rei. — Você não pode deixar que façam isso! Eles vão matá-los! Gaspar é o meu único amigo, o único que me estendeu a mão quando eu não era nada... e a Rainha... ela é uma boa mulher, Richard!
Richard a segurou pelos ombros, tentando levantá-la, mas suas próprias mãos tremiam.
— Katrina, escute-me... o clero tem o apoio dos nobres. Se eu desembainhar minha espada agora contra o Cardeal, eu perco o trono em um minuto e eles serão executados por heresia no minuto seguinte!
— Então faça algo como o Rei que você é! — Katrina exclamou, em prantos, os olhos fixos nos dele. — Você os ama! Você sabe que a culpa não é apenas deles... nós também estamos pecando, Richard! Se eles são culpados por um beijo, o que somos nós por desejarmos um ao outro sob o seu teto?
As palavras de Katrina foram como um chicote. Richard a puxou para um abraço apertado, escondendo o rosto no pescoço dela.
— Eu sei — ele sussurrou, a voz quebrada. — Eu sei. E é por isso que eu vou tirá-los de lá. Mas eu preciso que você confie em mim. O Cardeal pensa que me encurralou, mas ele esqueceu que eu fui treinado para a guerra desde os dez anos. Eu não vou lutar com espadas no pátio, Katrina. Vou lutar com segredos nas sombras.
Richard a afastou e limpou as lágrimas dela com os polegares, a expressão subitamente transformando-se naquela pedra fria e estratégica que o tornara um rei respeitado.
— Vá para a ala de cura. Prepare o que for necessário para uma viagem longa. Se o plano falhar, precisaremos fugir. Se funcionar... precisaremos de toda a coragem que você possui.
Katrina assentiu, engolindo o choro, vendo o brilho perigoso voltar aos olhos do rei. O tempo de lamentar havia acabado; o tempo de agir começava agora.
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