Entre o Dever e o Desejo
18 O Julgamento
O salão do tribunal eclesiástico estava gélido. O Cardeal Malachi ocupava o centro do estrado, cercado por bispos cujos rostos pareciam esculpidos em pedra. O povo e a nobreza se amontoavam nas galerias, um murmúrio voraz esperando pelo sangue da realeza. Richard assistia do trono, com uma expressão tão impenetrável que parecia uma estátua de mármore.
Gaspar foi o primeiro a ser levado ao banco dos réus. Suas mãos estavam acorrentadas, mas ele caminhava com a cabeça erguida. Claire, sentada em um banco lateral sob guarda, estava pálida, as lágrimas secas em seu rosto.
Antes que o Cardeal pudesse ler a primeira acusação de adultério, Gaspar interrompeu o silêncio com uma gargalhada seca e insolente que ecoou pelas naves da catedral.
— Poupem suas gargantas, eminências! — Gaspar exclamou, sua voz projetando-se com uma clareza hipnótica. — Vocês querem um culpado? Pois olhem para mim!
O Cardeal franziu o cenho. — Príncipe Gaspar, o senhor está diante de um tribunal sagrado...
— Eu estou diante de um bando de hipócritas que fingem surpresa! — Gaspar deu um passo à frente, as correntes retumbando. — Todos neste reino conhecem o meu feitio. Sabem que nunca houve uma taverna que eu não frequentasse ou uma mulher que eu não galanteasse. Mas o que vocês não sabem é a extensão da minha obsessão.
Ele virou-se para a plateia, apontando para Claire com um desprezo fingido que partiu o coração da rainha, embora ela soubesse que era parte do plano dele.
— Desde o primeiro momento em que ela pisou em Valerion, eu a desejei. Não como uma irmã, mas como uma posse. Richard, meu irmão, foi traído, sim... mas por um único homem: por mim. A Rainha Claire nunca teve culpa. Eu a agarrei, eu a obriguei! Eu usei o meu conhecimento das passagens do castelo para cercá-la onde ela não podia gritar sem causar um escândalo que destruiria a paz entre nossos reinos.
Um suspiro coletivo percorreu o salão. Claire cobriu o rosto, soluçando, enquanto Gaspar continuava sua performance desesperada para salvá-la.
— Ela me repeliu todas as vezes! Mas eu sou um Heraldrick, e o sangue que corre em minhas veias é impetuoso. Aquele beijo que as suas "testemunhas" viram foi o ato final de um homem desesperado que não aceitava um "não" como resposta. Ela estava tentando se libertar quando os guardas apareceram! Ela é uma vítima da minha luxúria, não uma cúmplice do meu pecado. Se há um traidor aqui, sou eu. Se há um herético, sou eu. Condenem-me, mas não ousem tocar na honra de uma mulher cujo único crime foi ter um cunhado sem escrúpulos!
O Cardeal Malachi ficou momentaneamente sem palavras. O plano de Gaspar era brilhante: ele estava transformando um caso de amor mútuo em um crime unilateral de agressão e desonra por parte de um príncipe já conhecido por sua má fama. Isso limpava o nome de Claire perante a Igreja e impedia que os pais dela, em Valerion, declarassem guerra contra Richard.
Richard levantou-se lentamente. Ele olhou para o irmão e, por um breve segundo, houve um entendimento profundo entre eles. Gaspar estava se sacrificando para que Richard pudesse manter o trono, a paz e, talvez, a chance de ser feliz com Katrina.
— Diante desta confissão pública... — Richard disse, a voz firme — as acusações contra a Rainha Claire perdem sua base eclesiástica. Ela foi vítima de uma tentativa de violação de sua honra.
O Cardeal, sentindo o poder escorregar por entre os dedos, sibilou: — Mas ele confessou um crime contra a linhagem real! A pena para isso é a morte, Majestade!
— A pena é o exílio perpétuo e a perda de todos os títulos! — Richard interveio, sua autoridade silenciando o clérigo. — Gaspar Heraldrick será levado para as masmorras até que o navio para as Terras do Além-Mar esteja pronto. Ele nunca mais pisará em solo de Astúria ou Valerion.
Claire gritou, um som abafado, enquanto via Gaspar ser arrastado de volta. Ele não olhou para trás, mas um sorriso triste cruzou seus lábios. Ele havia cumprido sua promessa: ela estava salva, mesmo que o preço fosse nunca mais poder tocá-la.
Nas sombras da galeria, Katrina assistia a tudo, as mãos unidas em prece. O sacrifício de Gaspar havia aberto uma porta perigosa, mas agora, com Claire "inocentada" e Gaspar partindo, o destino de todos estava nas mãos de um rei que teria que decidir entre o dever de sua coroa e a verdade de seu coração.
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