O salão do tribunal eclesiástico estava gélido. O Cardeal Malachi ocupava o centro do estrado, cercado por bispos cujos rostos pareciam esculpidos em pedra. O povo e a nobreza se amontoavam nas galerias, um murmúrio voraz esperando pelo sangue da realeza. Richard assistia do trono, com uma expressão tão impenetrável que parecia uma estátua de mármore.

​Gaspar foi o primeiro a ser levado ao banco dos réus. Suas mãos estavam acorrentadas, mas ele caminhava com a cabeça erguida. Claire, sentada em um banco lateral sob guarda, estava pálida, as lágrimas secas em seu rosto.

​Antes que o Cardeal pudesse ler a primeira acusação de adultério, Gaspar interrompeu o silêncio com uma gargalhada seca e insolente que ecoou pelas naves da catedral.

​— Poupem suas gargantas, eminências! — Gaspar exclamou, sua voz projetando-se com uma clareza hipnótica. — Vocês querem um culpado? Pois olhem para mim!

​O Cardeal franziu o cenho. — Príncipe Gaspar, o senhor está diante de um tribunal sagrado...

​— Eu estou diante de um bando de hipócritas que fingem surpresa! — Gaspar deu um passo à frente, as correntes retumbando. — Todos neste reino conhecem o meu feitio. Sabem que nunca houve uma taverna que eu não frequentasse ou uma mulher que eu não galanteasse. Mas o que vocês não sabem é a extensão da minha obsessão.

​Ele virou-se para a plateia, apontando para Claire com um desprezo fingido que partiu o coração da rainha, embora ela soubesse que era parte do plano dele.

​— Desde o primeiro momento em que ela pisou em Valerion, eu a desejei. Não como uma irmã, mas como uma posse. Richard, meu irmão, foi traído, sim... mas por um único homem: por mim. A Rainha Claire nunca teve culpa. Eu a agarrei, eu a obriguei! Eu usei o meu conhecimento das passagens do castelo para cercá-la onde ela não podia gritar sem causar um escândalo que destruiria a paz entre nossos reinos.

​Um suspiro coletivo percorreu o salão. Claire cobriu o rosto, soluçando, enquanto Gaspar continuava sua performance desesperada para salvá-la.

​— Ela me repeliu todas as vezes! Mas eu sou um Heraldrick, e o sangue que corre em minhas veias é impetuoso. Aquele beijo que as suas "testemunhas" viram foi o ato final de um homem desesperado que não aceitava um "não" como resposta. Ela estava tentando se libertar quando os guardas apareceram! Ela é uma vítima da minha luxúria, não uma cúmplice do meu pecado. Se há um traidor aqui, sou eu. Se há um herético, sou eu. Condenem-me, mas não ousem tocar na honra de uma mulher cujo único crime foi ter um cunhado sem escrúpulos!

​O Cardeal Malachi ficou momentaneamente sem palavras. O plano de Gaspar era brilhante: ele estava transformando um caso de amor mútuo em um crime unilateral de agressão e desonra por parte de um príncipe já conhecido por sua má fama. Isso limpava o nome de Claire perante a Igreja e impedia que os pais dela, em Valerion, declarassem guerra contra Richard.

​Richard levantou-se lentamente. Ele olhou para o irmão e, por um breve segundo, houve um entendimento profundo entre eles. Gaspar estava se sacrificando para que Richard pudesse manter o trono, a paz e, talvez, a chance de ser feliz com Katrina.

​— Diante desta confissão pública... — Richard disse, a voz firme — as acusações contra a Rainha Claire perdem sua base eclesiástica. Ela foi vítima de uma tentativa de violação de sua honra.

​O Cardeal, sentindo o poder escorregar por entre os dedos, sibilou: — Mas ele confessou um crime contra a linhagem real! A pena para isso é a morte, Majestade!

​— A pena é o exílio perpétuo e a perda de todos os títulos! — Richard interveio, sua autoridade silenciando o clérigo. — Gaspar Heraldrick será levado para as masmorras até que o navio para as Terras do Além-Mar esteja pronto. Ele nunca mais pisará em solo de Astúria ou Valerion.

​Claire gritou, um som abafado, enquanto via Gaspar ser arrastado de volta. Ele não olhou para trás, mas um sorriso triste cruzou seus lábios. Ele havia cumprido sua promessa: ela estava salva, mesmo que o preço fosse nunca mais poder tocá-la.

​Nas sombras da galeria, Katrina assistia a tudo, as mãos unidas em prece. O sacrifício de Gaspar havia aberto uma porta perigosa, mas agora, com Claire "inocentada" e Gaspar partindo, o destino de todos estava nas mãos de um rei que teria que decidir entre o dever de sua coroa e a verdade de seu coração.