Entre o Dever e o Desejo

19 O Peso da Coroa e o Valor do Sangue


A atmosfera nas masmorras era de uma melancolia profunda. O cheiro de pedra úmida e o silêncio pesado só eram quebrados pelo som metálico das botas de Richard ecoando pelo corredor. Ele dispensou os guardas com um gesto autoritário, querendo privacidade para o que sabia ser um dos momentos mais difíceis de sua vida.


​Richard parou diante da cela de Gaspar. O príncipe estava sentado no banco de pedra, as mãos ainda algemadas, observando o pouco de luz que entrava por uma fresta no alto da parede. Ao ver o irmão, Gaspar levantou-se lentamente.

​— Veio conferir se as correntes estão bem apertadas, Majestade? — provocou Gaspar, mas o tom habitual de deboche estava cansado, sem a força de antes.

​— Vim me despedir do meu irmão — Richard respondeu, a voz embargada. Ele aproximou-se das grades. — O que você fez lá fora... aquele teatro no tribunal... você salvou a vida dela, Gaspar. E salvou a paz deste reino.

​— Eu fiz o que precisava ser feito — Gaspar deu de ombros. — Você é um bom rei, Richard. Astúria precisa de você. E você precisa de Katrina. Se eu tivesse permitido que Claire fosse condenada, você nunca se perdoaria, e Valerion nos reduziria a cinzas.

​Richard estendeu a mão através das grades e apertou o ombro do irmão.

— Ouça-me bem. O exílio é a única forma de acalmar o clero e os nobres por agora. Mas eu juro pelo nosso sangue, Gaspar: eu farei de tudo para trazer você de volta. Vou mover céus e terra, encontrar brechas nas leis e negociar com Roma. Isso não é um adeus definitivo.

​Gaspar sorriu tristemente.

— Não prometa o impossível, irmão. Apenas cuide dela. E cuide de si mesmo.

​Richard assentiu solenemente. Ele respirou fundo e olhou para o corredor escuro atrás de si.

— Há mais uma coisa. Eu sei que o tempo é curto e que o mundo lá fora exige que eu seja o juiz, mas aqui embaixo... eu sou apenas o seu irmão.

​Richard recuou e fez um sinal. Das sombras, Claire surgiu, envolta em uma capa escura que escondia sua figura, mas não a dor em seus olhos. Ela parou ao lado de Richard, o corpo tremendo levemente.

​— Vocês têm uma hora — Richard disse, olhando de Gaspar para Claire. — Os guardas não descerão até que eu ordene. Aproveitem esse tempo. É o máximo que posso dar a vocês antes que o sol nasça e o navio parta.

​Sem dizer mais nada, Richard virou-se e subiu as escadas de pedra, deixando o som de seus passos desaparecer na escuridão, sacrificando o próprio protocolo para dar aos dois o que o destino havia lhes negado.

​Assim que o silêncio retornou, Claire correu para as grades. Gaspar enfiou os braços pelo metal, puxando-a para o mais perto que o ferro permitia.

​— Você é louco — ela soluçou, enterrando o rosto no peito dele através das grades. — Por que disse aquelas coisas? Agora o mundo inteiro pensa que você é um monstro.

​— Deixe que pensem — Gaspar sussurrou, beijando o topo da cabeça dela com um desespero contido. — Contanto que você esteja segura, eu aceito ser o vilão de qualquer história. Só me prometa uma coisa, Claire... não deixe que o brilho desses olhos se apague enquanto eu estiver longe.

​Ali, na penumbra da masmorra, o tempo pareceu parar. Não havia rainha, não havia príncipe, não havia traição. Havia apenas duas pessoas tentando colocar uma vida inteira de amor e arrependimento dentro de sessenta minutos, enquanto o navio que os separaria já balançava impaciente no porto de Mistral.