Entre o Dever e o Desejo

20 O Horizonte das Cinzas


O porto de Mistral estava envolto em uma névoa densa e fria, como se o próprio céu de Astúria estivesse de luto. O som das correntes de Gaspar batendo contra a passarela de madeira do navio ecoava como batidas de um tambor fúnebre.


​No alto do cais, Richard e Claire observavam a cena. Richard estava com a postura rígida, a mandíbula tão travada que seus músculos faciais pareciam pedra. Ao seu lado, Claire segurava o braço do marido com tanta força que seus dedos enterravam-se no tecido pesado do manto real. Ela lutava contra cada soluço, mordendo os lábios até sentir o gosto de sangue, tentando manter a dignidade que o sacrifício de Gaspar lhe devolvera.

​Richard sentia o aperto de Claire e, pela primeira vez, não havia ciúme, apenas uma agonia compartilhada. Ele era o Rei, o homem mais poderoso do território, e ainda assim sentia-se um espectador impotente diante da destruição de sua própria família.

​De repente, um vulto atravessou a guarda real. Era Katrina. Ela carregava uma mochila de lona gasta nos ombros e um manto escuro que a protegia do vento. Ela parou por um breve segundo diante de Richard. Os olhos verdes do rei encontraram os dela, e naquele olhar houve um adeus silencioso que doeu mais do que qualquer espada.

​Richard abriu a boca para chamá-la, para ordenar que ficasse, mas as palavras morreram em sua garganta. Ele não podia protegê-la se ela ficasse; a fúria do clero e dos nobres se voltaria contra a "plebeia do rei" assim que Gaspar partisse. Deixá-la ir era o seu último ato de amor.

​Katrina não disse nada. Ela apenas assentiu levemente para Claire — um pacto final entre as duas — e correu em direção à passarela, embarcando segundos antes de ela ser recolhida.

​No porão escuro e úmido do navio, o cheiro de salitre e mofo era sufocante. Os guardas soltaram as algemas de Gaspar com um solavanco bruto e saíram, trancando a grade pesada. O príncipe caiu de joelhos, o peso da exaustão e da derrota finalmente o atingindo.

​— Gaspar!

​Ele sentiu braços pequenos e firmes envolverem seu pescoço. O calor de Katrina foi o primeiro sinal de vida que ele sentiu em horas.

​— O que você está fazendo aqui, sua tonta? — Gaspar sussurrou, a voz rouca, retribuindo o abraço com uma força desesperada. — Você deveria estar no castelo, segura... com ele.

​— O castelo não é meu lugar sem você, e Richard... Richard sabe que eu nunca o deixaria sozinho nesta escuridão — Katrina respondeu, afastando-se apenas o suficiente para limpar o rosto sujo de Gaspar com o avental. — Nós somos os desgarrados agora, lembra? Você me salvou uma vez. Agora, nós salvamos um ao outro.

​Gaspar encostou a cabeça na parede de madeira do casco. Naquele momento, um rangido profundo percorreu a embarcação. O navio deu um solavanco e começou a se mover. O som das águas batendo contra o casco anunciou que a terra firme de Astúria estava ficando para trás.

​— Acabou — Gaspar disse, fechando os olhos enquanto sentia o balanço do mar. — Deixamos tudo para trás. O trono, o dever... a Claire.

​— Deixamos as correntes, Gaspar — Katrina corrigiu, segurando a mão dele com firmeza. — O futuro é um mar desconhecido, mas pela primeira vez, não há ninguém nos dizendo para onde navegar.

​Lá no cais, Richard e Claire viram as velas negras do navio desaparecerem na bruma. Eles permaneciam parados, dois soberanos cercados por guardas e súditos, sentindo o vazio imenso de um castelo que, apesar de cheio de gente, nunca pareceu tão silencioso. O navio levava embora o pecado e a paixão, deixando para trás apenas o frio inverno de um reino que nunca mais seria o mesmo.