O castelo de Astúria, outrora um símbolo de poder, tornara-se para Claire um mausoléu de mármore e arrependimentos. A luz que ela tentara manter em seus olhos, como prometera a Gaspar, estava se apagando lentamente sob o peso da solidão e do desprezo.


​A visita dos monarcas de Valerion fora o golpe de misericórdia. Diante do olhar gélido de sua mãe, a Rainha Marissa, Claire não conseguiu sustentar a mentira que Gaspar criara. Em um momento de desespero e honestidade brutal, ela confessara aos pais que o amor era mútuo, que Gaspar a salvara de uma execução, mas não da própria verdade.

​A reação foi devastadora. Deserdada e oficialmente ignorada por sua linhagem, Claire agora era uma rainha sem reino de origem, mantida no trono de Astúria apenas pela proteção silenciosa e melancólica de Richard.

​Em uma tarde cinzenta, o som pesado de batinas arrastando-se pelo chão de pedra anunciou a chegada do Cardeal Malachi e do alto clero. Richard e Claire os receberam no Grande Salão, onde o vazio parecia ecoar mais do que as palavras.

​— Majestades — começou o Cardeal, com uma polidez que escondia uma adaga. — O reino de Astúria floresce em paz, mas a linhagem Heraldrick está em perigo. Já se passaram cinco anos de união e o berço real permanece vazio. O povo e a Igreja começam a se perguntar: quando veremos um herdeiro para este trono?

​Richard apertou o braço do trono com força. Claire sentiu um nó na garganta. Como dar um herdeiro a um homem cujo coração batia por uma mulher que atravessara o oceano? Como Richard poderia tocá-la sabendo que o fantasma de seu irmão habitava cada pensamento dela?

​— A vontade de Deus não segue o calendário dos homens, Cardeal — Richard respondeu, a voz carregada de uma autoridade cansada. — A Rainha e eu... estamos cientes de nossos deveres.

​— Esperamos que sim, Majestade — Malachi retrucou, os olhos fixos em Claire. — Pois um trono sem herdeiro é um convite para o caos. E a Igreja não permitirá que Astúria fique sem rumo.

​Enquanto a pressão política sufocava o castelo, a milhares de milhas dali, o cenário era de uma paz quase irreal.

​Em uma pequena ilha cercada por águas cristalinas e areia branca, o tempo não era medido por decretos, mas pelo movimento das marés. Gaspar não usava mais veludo ou seda; suas roupas eram de linho rústico, e sua pele estava bronzeada e marcada pelo sol. Ele terminava de consertar o telhado de colmo de uma cabana robusta à beira-mar.

​— O jantar está pronto! — gritou Katrina, saindo da horta com uma cesta cheia de frutos tropicais e raízes.

​Eles viviam uma vida simples e vibrante. Não havia criados, não havia clero, e não havia o peso de uma coroa. Eles pescavam o próprio alimento e cultivavam o que a terra generosa lhes dava. Gaspar, antes um homem de tavernas e brigas, encontrara na rotina da sobrevivência uma clareza que o palácio nunca lhe oferecera.

​À noite, sentados diante de uma pequena fogueira na areia, o silêncio era interrompido apenas pelo som das ondas.

​— Você ainda pensa neles? — Katrina perguntou suavemente, encostando a cabeça no ombro dele.

​Gaspar observou as estrelas, as mesmas que Richard e Claire viam de forma tão diferente no norte.

— Todos os dias. Penso no sacrifício que fizemos. Mas aqui... aqui eu sou apenas Gaspar. E você é apenas Katrina. Às vezes, o preço da liberdade é deixar o coração para trás, mas a alma... a alma finalmente pode respirar.

​Eles estavam livres de tudo, mas em Astúria, o relógio de areia estava chegando ao fim. Sem um herdeiro e com a pressão do clero aumentando, Richard e Claire sabiam que o teatro que sustentavam estava prestes a sofrer seu último e mais doloroso ato.