Entre o Dever e o Desejo

2 O Banquete de Máscaras Sociais




​O Grande Salão de Valerion transbordava opulência. Lustres de cristal derramavam uma luz âmbar sobre as mesas longas, carregadas com o melhor que as terras do sul podiam oferecer. No entanto, para Claire, o ar parecia escasso. Sentada à mesa real, ela sentia o peso do olhar de seu pai, o Rei Dominic, e a presença sólida de Richard Heraldrick ao seu lado.

​Richard era a imagem da perfeição monárquica. Vestia tons escuros de Astúria, e sua conversa com Sebastian sobre rotas comerciais e defesa de fronteiras era impecável. Ao lado de Sebastian, Selina brilhava, movendo-se com a naturalidade de quem nasceu para carregar uma coroa. Claire, por outro lado, mal conseguia tocar em seu vinho.

​— Você parece distante, Princesa — a voz de Richard, profunda e calma, cortou seus pensamentos. — A música de Valerion não é do seu agrado?

​— É encantadora, Majestade — Claire respondeu, forçando um sorriso que não chegou aos olhos. — Apenas... cansativa. São muitas mudanças em pouco tempo.

​Richard assentiu com uma seriedade quase melancólica.

— O dever raramente avisa quando vai chegar. Mas garanto que Astúria, embora mais fria, aprenderá a aquecê-la.

​Enquanto Richard falava de castelos e protocolos, o outro lado do salão vibrava em uma frequência completamente diferente. Gaspar Heraldrick não estava sentado. Ele circulava entre os convidados como um predador elegante em um jardim de rosas.

​Claire o observava pelo canto do olho. Ele estava cercado. Nobres de Valerion abanavam-se freneticamente enquanto ele contava alguma anedota sobre as caçadas nas montanhas, e até as servas, que deveriam estar focadas nas bandejas de prata, soltavam risadinhas baixas quando ele passava, deixando um rastro de olhares famintos por onde caminhava.

​Gaspar era o oposto do irmão. Onde Richard era o escudo, Gaspar era a espada. Ele usava um gibão de veludo que parecia abraçar seus ombros com arrogância, e seus cabelos escuros estavam propositalmente desalinhados.

​Em um momento, Gaspar inclinou-se para beijar a mão de uma das damas de companhia de Selina, murmurando algo que fez a moça corar até as raízes dos cabelos. Ele então ergueu o olhar e, como se soubesse que estava sendo vigiado, encontrou os olhos de Claire através do salão.

​Ele não desviou. Ele sustentou o olhar com uma intensidade que fez Claire se sentir subitamente exposta, como se as paredes do palácio tivessem desaparecido. Ele ergueu a taça em um brinde silencioso, um sorriso de lado desafiador brincando em seus lábios.

​— Meu irmão sempre foi uma distração — comentou Richard, percebendo a direção do olhar da noiva. — Ele não leva a vida com a gravidade que o nome Heraldrick exige. Peço desculpas se o comportamento dele a ofende.

​— Não me ofende — Claire murmurou, o coração batendo contra as costelas como um pássaro engaiolado. — Eu apenas... nunca vi ninguém tão livre.

​— A liberdade dele é um luxo que eu pago com o meu trabalho — Richard respondeu de forma seca, voltando-se para o Rei Dominic.

​Naquele momento, Gaspar começou a caminhar em direção à mesa real. O silêncio pareceu segui-lo conforme ele se aproximava da futura rainha de seu irmão.

​— Rei Dominic, Rainha Marissa — Gaspar fez uma reverência fluida, mas seus olhos logo se voltaram para o casal de noivos. — Irmão, você está tão sério que temo que a comida vá azedar no prato. Princesa Claire...

​Ele parou à frente dela. O perfume dele, uma mistura de couro e sândalo, invadiu o espaço pessoal de Claire, quebrando a barreira de segurança que ela tentava manter.

​— Dizem que as rosas de Valerion são as mais bonitas do mundo — Gaspar disse, sua voz baixando um tom, tornando-se íntima demais para um banquete público. — Mas vejo que os poetas foram modestos. É um crime que uma joia como você já tenha um dono antes mesmo de ser descoberta.

​O comentário audacioso fez Sebastian travar a taça no ar e o Rei Dominic franzir o cenho. Claire sentiu as bochechas queimarem. Ela estava intimidada, sim, mas também sentia uma eletricidade perigosa percorrer sua espinha.

​Era o começo de um desastre que nenhum acordo de paz poderia conter.