O prazo final chegou como um carrasco que sobe ao patíbulo. O sol de inverno brilhava pálido sobre as torres de Astúria quando o Cardeal Malachi, acompanhado por um séquito de bispos e juristas eclesiásticos, atravessou as portas do salão do trono. O ar estava carregado com o cheiro de incenso e de uma vitória política iminente para o clero.


​Richard estava de pé, usando o manto real mais pesado que possuía, a coroa brilhando sob a luz das tochas. Ao seu lado, Claire mantinha uma postura impecável, embora seu rosto estivesse pálido e seus olhos carregassem a resignação de quem já aceitou o próprio destino.

​— Majestades — o Cardeal começou, sua voz destilando uma satisfação mal disfarçada. — O ano de graça concedido por Roma expirou. Como não há herdeiro e nem sinais de que a benção da fertilidade tenha caído sobre este leito, viemos cumprir a vontade da Igreja. A Rainha Claire deve ser removida para um convento de penitência e...

​— Silêncio, Malachi — Richard interrompeu, sua voz não era um grito, mas um comando de aço que fez o Cardeal empalidecer.

​Richard deu um passo à frente, retirando lentamente as luvas de veludo e jogando-as sobre a mesa de carvalho.

​— Durante cinco anos, tentei governar este reino com a justiça que herdei do meu pai. Tentei manter as aparências de um casamento que, embora honrado, estava vazio de alma. Tentei ser o Rei que vocês exigiam, sacrificando meu irmão, a mulher que eu amo e a minha própria paz.

​O salão mergulhou em um silêncio absoluto. Claire olhou para Richard, o coração disparado.

​— A Igreja quer anular este casamento sob o pretexto de esterilidade? — Richard deu um sorriso amargo. — Pois eu pouparei o trabalho de seus juristas. Eu mesmo declaro esta união nula. Não por falta de filhos, mas por falta de verdade.

​Ele levou as mãos à cabeça e, com um movimento firme, retirou a coroa de ouro e pedras preciosas. O som do metal batendo contra a mesa de carvalho ecoou como um trovão.

​— Eu abdico — declarou Richard, olhando nos olhos do Cardeal. — Renuncio ao trono de Astúria, aos meus títulos, às minhas terras e a cada grama de poder que esta coroa me confere. Se o preço para que Claire seja livre do julgamento de vocês é a minha queda, que assim seja.

​— Richard... o que você está fazendo? — Claire sussurrou, as lágrimas transbordando.

​— Libertando todos nós, Claire — ele respondeu, pegando a mão dela. — Você não irá para um convento. Você é uma mulher livre. E eu... eu não serei mais um prisioneiro deste trono.

​O Cardeal Malachi estava em choque. — Isso é loucura! O reino ficará acéfalo! Roma não aceitará...

​— Roma terá que encontrar um novo soberano entre os nobres gananciosos que esperam lá fora — Richard disse, já retirando o pesado manto real. — Eu prefiro ser um homem comum com o coração em paz do que um rei cercado por abutres e mentiras.

​Ele virou-se para Claire, um brilho de esperança que ela não via há anos iluminando seu olhar.

— Há um navio no porto, Claire. O mesmo tipo de navio que levou Gaspar. Eu não sei onde eles estão, mas eu passarei o resto da minha vida cruzando os oceanos até encontrá-los. Você vem comigo?

​Claire olhou para o trono, depois para a coroa desprezada na mesa, e finalmente para o homem que acabara de sacrificar um império por honestidade. Ela sentiu como se uma armadura de ferro estivesse caindo de seu corpo.

​— Para qualquer lugar, Richard — ela respondeu, a voz firme pela primeira vez em anos. — Longe das sombras e perto da verdade.

​Sob os olhares escandalizados do clero, o ex-rei e a ex-rainha caminharam de mãos dadas para fora do Grande Salão. Eles deixaram para trás o poder, a linhagem e as expectativas de um mundo que os queria infelizes. Nascia ali uma jornada incerta, mas, pela primeira vez, o horizonte de Astúria não parecia mais uma prisão, mas o caminho para o reencontro que seus corações tanto clamavam.