Entre o Dever e o Desejo
25 A Sombra da Coroa
A decisão de Richard de abdicar criou um vácuo de poder que Roma não poderia permitir. Para o Vaticano e para os nobres de Astúria, um reino sem um Heraldrick no trono era uma porta aberta para rebeliões e invasões. Se o rei legítimo havia renunciado, a coroa, por direito de sangue, pertencia ao único homem que restava na linhagem: Gaspar.
O decreto de Roma foi implacável. Navios de guerra com o estandarte papal foram despachados para todos os quadrantes do oceano. A ordem era clara: encontrar o Príncipe Exilado e trazê-lo de volta, por vontade própria ou por correntes, para assumir o trono que ele mesmo tentara destruir.
Enquanto Richard e Claire ainda navegavam às cegas pelas rotas comerciais, sem saber por onde começar a busca, as galés rápidas da Igreja — movidas pelo desespero político — foram mais eficazes.
O Cerco à Ilha
Na ilha deserta, o amanhecer foi interrompido não pelo som das ondas, mas pelo toque de cornetas. Gaspar saiu da cabana com um arpão na mão, os olhos semicerrados pelo sol, e paralisou. Três navios de grande porte cercavam a baía, e botes cheios de soldados armados com o símbolo da cruz no peito já tocavam a areia.
— Gaspar! O que está acontecendo? — Katrina saiu logo atrás, o rosto pálido de pavor.
Antes que Gaspar pudesse reagir, o Legado Pontifício desembarcou. Ele não trazia correntes, mas um pergaminho com o selo de ouro. Os soldados se ajoelharam na areia quente, um gesto que chocou Gaspar profundamente.
— Príncipe Gaspar Heraldrick — o Legado proclamou com uma voz que não admitia contestação. — Seu irmão, Richard, abdicou do trono. Astúria está sem rei e o povo clama por sua linhagem. Por decreto de Sua Santidade e pelo direito de sangue, o seu exílio está revogado. Você não é mais um prisioneiro do mar. Você é o Rei de Astúria.
Gaspar recuou, sentindo como se o céu estivesse desabando sobre sua cabeça.
— Eu não quero esse trono! Eu morri para aquele reino! Richard é o rei!
— Richard não existe mais para o Estado — o Legado levantou-se, seu olhar tornando-se gélido. — Se você se recusar, Astúria será declarada terra sem dono e será dividida entre os reinos vizinhos. Milhares morrerão em guerras de sucessão. A vida desta mulher — ele apontou para Katrina — e a paz do seu irmão dependem da sua aceitação.
Katrina segurou o braço de Gaspar. Ela via o conflito nos olhos dele. O destino, com sua ironia cruel, estava arrancando Gaspar do paraíso para colocá-lo exatamente no lugar de onde ele fugira para salvar Claire.
O Retorno Forçado
Semanas depois, o navio papal entrou no porto de Mistral. Gaspar estava no convés, vestindo novamente as sedas e o veludo que tanto odiava, mas agora com o peso de uma responsabilidade que ele nunca desejou. Ao seu lado, Katrina mantinha-se firme, mas seus olhos mostravam que ela sabia que a vida simples na cabana havia acabado para sempre.
O clero e a nobreza esperavam no cais. O Cardeal Malachi sorria, acreditando que teria um rei "pecador" que poderia manipular através da culpa.
Mas, enquanto Gaspar descia a passarela, ele viu ao longe, num navio mercante que se preparava para partir, dois vultos encapuzados. Richard e Claire estavam ali, observando o retorno do irmão. Eles haviam chegado tarde demais para encontrá-lo na ilha, mas a tempo de ver o sacrifício final de Gaspar.
Os olhos de Gaspar e Richard se cruzaram à distância. Um estava subindo ao trono para salvar o reino; o outro estava partindo para o mar para salvar a própria alma. Gaspar apertou o punho da espada e endireitou os ombros. Ele aceitaria a coroa, mas Roma e o clero logo descobririam que um rei que já perdeu tudo não teme nada — e que o reinado de Gaspar Heraldrick seria tudo, menos o que eles esperavam.
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