Entre o Dever e o Desejo

11 Limiares e Silêncios


A atmosfera no castelo de Astúria tornou-se um campo minado de desejos contidos. Enquanto a neve caía silenciosa do lado de fora, dentro das muralhas, as chamas de antigos e novos sentimentos começavam a arder sem controle.


​A Grande Biblioteca de Astúria era diferente da de Valerion; era feita de pedra escura e iluminada por tocheiros que criavam sombras profundas entre as estantes. Claire buscava um livro para acalmar a mente, mas o som de passos lentos atrás dela indicou que a paz duraria pouco.

​— Quatro anos e você ainda procura refúgio entre as páginas, Claire? — A voz de Gaspar era como um veludo áspero, vinda da escuridão.

​Claire não se virou, mas sentiu os pelos do braço se arrepiarem.

— A realidade se tornou... barulhenta demais desde que você voltou, Gaspar.

​Ele se aproximou, cercando-a contra uma prateleira de manuscritos antigos. A proximidade era avassaladora. Gaspar não guardava mais a distância protocolar de um cunhado; ele a prensou levemente, as mãos espalmadas na madeira atrás dela.

​— Você sentiu minha falta — ele afirmou, não como uma pergunta, mas como uma sentença. — Eu vi em seus olhos no jantar. Vi como seu corpo reagiu ao meu toque.

​— Eu sou a Rainha. Sou a esposa do seu irmão — Claire sussurrou, a respiração curta.

​— E você está pegando fogo, Claire. Richard lhe deu o trono, mas eu... eu sou o único que sabe como apagar esse incêndio.

​Gaspar inclinou o rosto e a beijou. Foi um beijo carregado de quatro anos de espera, selvagem e faminto. Claire, num lapso de sanidade, correspondeu. Suas mãos subiram para os cabelos dele, puxando-o para mais perto, enquanto o calor entre os dois subia a níveis perigosos. As mãos de Gaspar desceram para a curva do seu quadril, e o mundo ao redor parecia desaparecer.

​Subitamente, a imagem de Richard — o Richard que fora maravilhoso na noite de núpcias, que a protegera e lhe dera um lar — brilhou na mente de Claire. Com um esforço sobre-humano, ela empurrou o peito de Gaspar.

​— Não! — ela disse, a voz embargada. — Isso é um erro. Nós não podemos.

​Gaspar tentou se aproximar novamente, os olhos escurecidos pelo desejo.

— Claire, olhe para mim...

​Mas ela não olhou. Sem dizer uma única palavra, Claire deu as costas e correu para fora da biblioteca, deixando apenas o som de seus passos apressados e o cheiro de sândalo pairando no ar carregado.

​Enquanto o caos se instalava na biblioteca, Katrina explorava o castelo. Perdida nos corredores monumentais, ela acabou empurrando uma porta entreaberta, acreditando ser uma passagem para as cozinhas. Para seu horror, ela se viu no centro dos aposentos reais.

​Richard estava parado junto à janela, sem a coroa e com a camisa entreaberta, observando a neve. Ele se virou bruscamente ao ouvir a porta.

​— Majestade! — Katrina exclamou, fazendo uma reverência apressada, o rosto ardendo de vergonha. — Mil perdões, eu... eu me perdi. Já estou saindo.

​— Espere — Richard disse, e sua voz tinha uma suavidade que ele raramente usava. — Está tudo bem, Katrina. Não precisa fugir.

​Ele caminhou em direção a ela. Katrina notou que, de perto, o Rei de Astúria tinha uma tristeza nos olhos que a coroa costumava esconder.

​— O castelo é um labirinto no início — Richard continuou, parando a uma distância respeitável. — Gaspar me disse que você cuidava de feridos. Isso exige muita coragem.

​Katrina relaxou um pouco os ombros.

— Exige apenas compaixão, Majestade. A dor não escolhe linhagem.

​Richard deu um sorriso de canto, genuíno.

— Uma filosofia nobre para alguém que se diz plebeia. Como tem sido sua estadia aqui? Estão tratando-a bem?

​— Sim, Majestade. Embora eu ainda me sinta um pouco... fora de lugar.

​— Eu também — Richard confessou, surpreendendo a si mesmo com a honestidade. — Às vezes, o trono parece o lugar mais solitário do mundo. Sente-se, por favor. Conte-me mais sobre essas terras do norte onde Gaspar a encontrou.

​Os dois se sentaram perto da lareira e conversaram de forma simples e fluida. Não havia o peso do protocolo, nem as sombras do passado. Para Richard, conversar com Katrina era como respirar um ar novo, puro e sem as pressões da coroa. Mas, do outro lado da porta, o destino de Astúria continuava a se complicar entre o desejo proibido e as novas afinidades.