O jogo de espelhos no castelo de Astúria tornou-se perigoso. Enquanto um irmão tentava desesperadamente recuperar um fogo antigo, o outro descobria uma luz que nunca imaginou existir

​As semanas seguintes transformaram o cotidiano do castelo. Richard, antes sempre confinado à sala de conselhos, passou a ser visto com frequência nos jardins internos e na ala de cura, onde Katrina trabalhava.

​Em uma tarde cinzenta, Richard encontrou Katrina organizando frascos de ervas medicinais. Ele se aproximou em silêncio, observando a agilidade das mãos dela.

​— Você trabalha como se cada segundo fosse vital, Katrina — disse Richard, encostando-se no batente da porta.

​Katrina deu um pequeno salto, mas sorriu ao reconhecê-lo.

— Para quem não tem nada, Majestade, o tempo e a saúde são os únicos tesouros.

​Richard deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles.

— Você me faz questionar muitas coisas. Passei a vida protegendo o reino, mas raramente parei para olhar nos olhos daqueles que o compõem. Por que você me olha sem medo, quando todos os outros baixam a cabeça?

​Katrina parou o que estava fazendo e sustentou o olhar do rei.

— Porque a coroa brilha, senhor, mas são os seus olhos que dizem quem você é. E eu não vejo um tirano neles. Vejo um homem cansado de carregar o mundo sozinho.

​Richard sentiu o coração acelerar. Ele estendeu a mão e, com uma hesitação que nunca demonstrara em batalhas, tocou levemente o rosto de Katrina.

— E se esse homem não quiser mais carregá-lo sozinho?

​— Então ele precisa decidir se quer uma rainha de pedra ou uma mulher de verdade ao seu lado — Katrina sussurrou, a voz carregada de uma coragem que Richard achava fascinante.

​Enquanto isso, nos corredores frios da ala leste, Gaspar tentava, sem sucesso, encurralar Claire. Sempre que ele entrava em um cômodo, ela saía. Sempre que ele tentava um olhar, ela desviava. O silêncio dela era a pior das punições.

​Ele finalmente a encontrou no corredor que levava à capela. Gaspar bloqueou o caminho dela, a expressão não mais zombeteira, mas sombria e impaciente.

​— Até quando, Claire? — ele disparou, a voz ecoando nas paredes de pedra. — Vai passar o resto da vida correndo de mim pelos corredores como uma serva assustada?

​— Eu não estou correndo, Gaspar. Estou sendo a mulher que jurei ser diante do altar — ela respondeu, tentando manter a voz firme, embora suas mãos tremessem sob as mangas de veludo.

​— Mentira! — Gaspar deu um passo à frente, forçando-a a recuar contra uma pilastra. — Você está fugindo do que sentiu na biblioteca. Está fugindo do fato de que, quando eu te beijo, você finalmente se sente viva. Richard te dá segurança, mas ele não te conhece como eu.

​— Ele é o meu marido! Ele me ama da maneira dele, e eu... eu devo lealdade a ele.

​— Lealdade não é desejo, Claire! — Gaspar sibilou, o rosto a milímetros do dela. — Olhe para Richard agora. Olhe para onde ele passa o tempo dele. Ele está encontrando o que você não dá a ele nos olhos daquela plebeia. Você está se sacrificando por um homem que já está olhando para outra.

​Claire sentiu o golpe. As palavras de Gaspar eram veneno, mas continham uma gota de verdade que ela já havia notado.

— Saia da minha frente, Gaspar. Eu prefiro viver no gelo com a minha consciência limpa do que queimar no inferno com você.

​— O problema, Claire — ele sussurrou, enquanto ela passava por ele — é que você já está queimando. E quanto mais foge, mais o fogo se espalha.

​Claire saiu apressada, as lágrimas finalmente vencendo a barreira de seus olhos. Ela amava a estabilidade de Richard, mas a presença de Gaspar era uma ferida aberta que se recusava a cicatrizar, enquanto a sombra de Katrina começava a ocupar o lugar que, por direito, deveria ser seu.