A tensão que antes dividia essas duas mulheres começa a se transformar em uma compreensão mútua e inesperada. Claire, a rainha nascida para o protocolo, encontra na simplicidade de Katrina a verdade que ela mesma vinha tentando sufocar.


​O jardim de inverno estava envolto em uma névoa fria, mas dentro da estufa, o cheiro de ervas e terra úmida trazia um conforto estranho. Katrina estava debruçada sobre uma muda de hortelã quando sentiu a presença de outra pessoa. Ao se virar e ver Claire, ela imediatamente baixou a cabeça e se ajoelhou no chão de terra.

​— Majestade! Peço perdão, eu não a ouvi chegar.

​— Levante-se, Katrina — disse Claire, sua voz calma, mas carregada de uma fadiga emocional. — Não estamos em um salão de baile. E, honestamente, as formalidades já não parecem ter muito sentido entre nós.

​Katrina levantou-se lentamente, limpando as mãos sujas de terra no avental. Seus olhos estavam vermelhos, um detalhe que não escapou à rainha.

​— Richard me contou — Claire começou, caminhando entre os vasos de cerâmica. — Ele confirmou o que sente por você.

​O corpo de Katrina estremeceu.

— Majestade, eu nunca quis causar dor. Eu juro que tentei me afastar, mas o Rei... ele é um homem tão solitário atrás de toda aquela pompa. Eu o amo, não como um soberano, mas como o homem que ele é quando ninguém está olhando.

​Claire parou e observou Katrina. Ela esperava sentir ódio, mas tudo o que sentiu foi admiração. Havia uma pureza no sofrimento da moça, uma coragem de admitir um sentimento que poderia custar sua vida em outras circunstâncias.

​— Você fala com uma verdade que eu fui proibida de ter, Katrina — Claire murmurou, sentando-se em um banco de madeira. — Richard disse que com você ele se sente apenas um homem. Eu passei quatro anos tentando ser a rainha que ele precisava, mas nunca parei para perguntar se eu era a mulher que ele queria.

​— A senhora é maravilhosa, Majestade — Katrina disse, aproximando-se cautelosamente. — Mas o amor não segue as regras das coroas. Eu sei que sou apenas uma serva. Sei que meu lugar é na sombra.

​— Não diga isso — Claire a interrompeu, olhando-a nos olhos. — Você tem o que eu sempre invejei: a coragem de ser vulnerável. Eu admiro o seu sentimento, Katrina. Richard merece alguém que o veja sem o filtro do dever.

​O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som das gotas de orvalho caindo das folhas. Claire suspirou, um peso saindo de seu peito ao tomar uma decisão.

​— Eu não posso odiá-la, porque eu também carrego um segredo — Claire confessou, sua voz mal passando de um sussurro. — Richard disse que meu coração nunca pertenceu totalmente a ele. E ele tem razão. Enquanto ele encontrava paz nos seus olhos, eu passava as noites tentando esquecer o toque de outro homem.

​Katrina prendeu o fôlego, percebendo a magnitude daquela confissão.

— O senhor Gaspar?

​Claire deu um sorriso triste e assentiu.

— Eu amo Gaspar Heraldrick. Eu o amo com uma intensidade que me assusta e me envergonha. Enquanto eu julgava Richard por se aproximar de você, eu estava morrendo por dentro toda vez que Gaspar passava por mim no corredor.

​As duas mulheres, a rainha e a plebeia, encararam-se. Naquele momento, não havia títulos, nem reinos, nem hierarquia. Eram apenas duas mulheres unidas pela mesma tragédia: amar o irmão errado em um mundo que exigia silêncio.

​— O que faremos agora, Majestade? — Katrina perguntou, a voz trêmula.

​— Agora — Claire levantou-se e tocou gentilmente o ombro de Katrina —, nós deixamos de ser inimigas. Astúria está prestes a enfrentar uma tempestade, e talvez sejamos nós duas as únicas capazes de impedir que este castelo desmorone sobre todos.

​Claire saiu da estufa com a cabeça erguida, mas o coração em tumulto. A verdade estava livre, mas o preço para vivê-la ainda era uma incógnita que pairava sobre os quatro.