Entre o Dever e o Desejo
13 O Espelho das Almas
A tensão que antes dividia essas duas mulheres começa a se transformar em uma compreensão mútua e inesperada. Claire, a rainha nascida para o protocolo, encontra na simplicidade de Katrina a verdade que ela mesma vinha tentando sufocar.
O jardim de inverno estava envolto em uma névoa fria, mas dentro da estufa, o cheiro de ervas e terra úmida trazia um conforto estranho. Katrina estava debruçada sobre uma muda de hortelã quando sentiu a presença de outra pessoa. Ao se virar e ver Claire, ela imediatamente baixou a cabeça e se ajoelhou no chão de terra.
— Majestade! Peço perdão, eu não a ouvi chegar.
— Levante-se, Katrina — disse Claire, sua voz calma, mas carregada de uma fadiga emocional. — Não estamos em um salão de baile. E, honestamente, as formalidades já não parecem ter muito sentido entre nós.
Katrina levantou-se lentamente, limpando as mãos sujas de terra no avental. Seus olhos estavam vermelhos, um detalhe que não escapou à rainha.
— Richard me contou — Claire começou, caminhando entre os vasos de cerâmica. — Ele confirmou o que sente por você.
O corpo de Katrina estremeceu.
— Majestade, eu nunca quis causar dor. Eu juro que tentei me afastar, mas o Rei... ele é um homem tão solitário atrás de toda aquela pompa. Eu o amo, não como um soberano, mas como o homem que ele é quando ninguém está olhando.
Claire parou e observou Katrina. Ela esperava sentir ódio, mas tudo o que sentiu foi admiração. Havia uma pureza no sofrimento da moça, uma coragem de admitir um sentimento que poderia custar sua vida em outras circunstâncias.
— Você fala com uma verdade que eu fui proibida de ter, Katrina — Claire murmurou, sentando-se em um banco de madeira. — Richard disse que com você ele se sente apenas um homem. Eu passei quatro anos tentando ser a rainha que ele precisava, mas nunca parei para perguntar se eu era a mulher que ele queria.
— A senhora é maravilhosa, Majestade — Katrina disse, aproximando-se cautelosamente. — Mas o amor não segue as regras das coroas. Eu sei que sou apenas uma serva. Sei que meu lugar é na sombra.
— Não diga isso — Claire a interrompeu, olhando-a nos olhos. — Você tem o que eu sempre invejei: a coragem de ser vulnerável. Eu admiro o seu sentimento, Katrina. Richard merece alguém que o veja sem o filtro do dever.
O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som das gotas de orvalho caindo das folhas. Claire suspirou, um peso saindo de seu peito ao tomar uma decisão.
— Eu não posso odiá-la, porque eu também carrego um segredo — Claire confessou, sua voz mal passando de um sussurro. — Richard disse que meu coração nunca pertenceu totalmente a ele. E ele tem razão. Enquanto ele encontrava paz nos seus olhos, eu passava as noites tentando esquecer o toque de outro homem.
Katrina prendeu o fôlego, percebendo a magnitude daquela confissão.
— O senhor Gaspar?
Claire deu um sorriso triste e assentiu.
— Eu amo Gaspar Heraldrick. Eu o amo com uma intensidade que me assusta e me envergonha. Enquanto eu julgava Richard por se aproximar de você, eu estava morrendo por dentro toda vez que Gaspar passava por mim no corredor.
As duas mulheres, a rainha e a plebeia, encararam-se. Naquele momento, não havia títulos, nem reinos, nem hierarquia. Eram apenas duas mulheres unidas pela mesma tragédia: amar o irmão errado em um mundo que exigia silêncio.
— O que faremos agora, Majestade? — Katrina perguntou, a voz trêmula.
— Agora — Claire levantou-se e tocou gentilmente o ombro de Katrina —, nós deixamos de ser inimigas. Astúria está prestes a enfrentar uma tempestade, e talvez sejamos nós duas as únicas capazes de impedir que este castelo desmorone sobre todos.
Claire saiu da estufa com a cabeça erguida, mas o coração em tumulto. A verdade estava livre, mas o preço para vivê-la ainda era uma incógnita que pairava sobre os quatro.
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