Entre o Céu e o Mar.
4 "Tão contrário a si é o mesmo amor."
Notas iniciais
–Manuel Bandeira. Quem conhece? – Regina perguntou já sabendo a resposta: ninguém. Havia esquecido que Emma frequentava aquela classe, e ficou orgulhosa ao ver que a única mão levantada era a dela. – Como sempre, apenas Emma conhece o poeta.
Na sala dava para ouvir os risinhos e as insinuações das meninas maldosas, que já desconfiavam que Regina e Emma tinham algum relacionamento além do professor-aluno. A verdade era que, depois do dia em que se beijaram pela primeira vez, Emma e Regina eram como um só. Estavam juntas antes das aulas, no intervalo entre as aulas, depois das aulas, depois do almoço e, algumas más línguas juravam que já viram a Emma sair do bloco dos professores no meio da madrugada.
Elas ainda não haviam conversado sobre o nível em que o relacionamento estava. Não se beijaram novamente, não tiveram nenhum contato intimo, além do dia em que Emma entrou no quarto de Regina e a mesma estava de calcinha e sutiã se trocando. Regina tinha medo de se envolver e acabar ferida, despedaçada que nem da última vez. Ela sabia que com Emma as chances de ser tudo diferente eram grandes, mas também elas teriam que lutar bastante para que tudo desse certo.
A professora sempre ponderava os prós e contras de entrar num relacionamento com a loira. Prós: Emma é linda, carinhosa, cuidadosa, inteligente. Contras: Emma é 5 anos mais nova, é aluna, ninguém nunca aprovaria. Ela teria que mergulhar por completo no relacionamento e não estava pronta. Com 23 anos, Regina já havia tido a experiência de perder um amor, não queria essa experiência de novo.
Decidiu que tudo acabaria antes de começar. Aquele beijo tinha sido um erro. Virar amiga de Emma tinha sido um erro. Acima de tudo, se apaixonar por Emma tinha sido um erro. Um erro bom, um erro que ela cometeria novamente, mas ainda assim um erro. E, como dizia John Lennon, quando amamos alguém temos que deixar esse alguém ir. Regina deixaria Emma ir, e ficaria na esperança de que ela voltasse, mesmo sabendo que esse seria mais um erro para sua coleção.
– Emma, quando terminar a aula, vá almoçar lá em casa. – Regina disse a Emma assim que terminou de dar sua aula naquela turma. O dia estava apenas começando na Sine Timore, e ela tinha tomado a decisão de esclarecer o que ela e a aluna tinham.
– Certinho, Capitu. – Emma disse, deu uma piscada galanteadora para Regina e saiu da sala, mal sabendo ela que tudo aquilo que elas tinham acabaria naquele almoço, numa tarde de segunda feira.
–SQ-
A campainha tocou e Regina foi atender, sabia que era Emma. A loira, antes de se direcionar para o bloco dos professores, havia ido ao seu quarto, tomado banho e arrumado. Queria estar perfumada, bonita, tudo ao seu alcance para agradar Regina. Parafraseando ‘Cumpadi’ Washington, a inocente não sabia de nada.
–Eu fiz lasanha, espero que você goste. – Regina sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos. Se sentaram, cada uma em uma extremidade da mesa de seis lugares, e comeram em silêncio, cada uma com suas expectativas e palavras perdidas no silêncio.
A professora foi a primeira a falar.
–Emma... – Regina começou. – Olha, eu não sei o que a gente tem de fato. Eu gosto de você, gosto muito, mas nós não podemos continuar com qualquer que seja a relação que a gente tenha.
–E você só diz isso agora?
– Eu... Eu precisei reunir toda a minha coragem pra te chamar aqui. Não queria que terminasse assim, eu juro. – A professora tentava se explicar e foi interrompida.
– Terminar o quê, Regina? Terminar o que a gente nem começou? – Indagou a loira. – Quer saber? Eu não me importo com o que você tem a dizer. Eu nem quero ouvir o que você tem a dizer.
As duas tinham lágrimas nos olhos, lágrimas contidas.
–Você tem que entender, Emma. O problema da gente começar alguma coisa não está em você, está em mim.
–Eu não entendo, não entendi, não quero entender. – O tom de Emma era alterado. Ela se esforçava para não chorar e tirar a credibilidade de suas palavras. Amor era uma fraqueza que ela não queria expor. – Você está sendo covarde! Você sabe que o que temos pode ser algo bom, algo bonito, e ainda assim tem medo de se entregar por algo do passado! Algo que eu nem tive culpa. – Regina fez menção de falar, mas Emma continuou. – Você foi como um sopro de ar fresco, como se, pelo menos uma vez, Ismália pudesse ter o céu e o mar ao mesmo tempo. Pelo visto isso é impossível.
A loira se levantou e não olhou para trás. Saiu pela porta e, pela primeira vez naquele dia, se permitiu chorar. Liberou as lágrimas contidas durante aquela discussão e repassou, mentalmente, as palavras de sua mãe.
– O amor é uma fraqueza, Emma. – dizia Mary Margareth.
O amor era realmente uma fraqueza. O amor era a fraqueza de Regina, o amor era o que fazia a professora afastar de si todos aqueles que se aproximavam, o amor trazia, junto consigo, o medo, a insegurança, e isso a professora tinha de sobra.
Emma, que durante todos os anos da sua vida, todos os anos que cresceu rodeada por babás, presentes caros e futilidade. Todos os anos que passou sem amor familiar, sem atenção, sem motivos para realmente querer viver. Emma, a garota que havia aprendido a ser mulher por conta própria. Logo ela, logo ela, a que mais sabia que o amor era um nada, tinha se apaixonado perdidamente por alguém inatingível. Ela tinha se deixado ser fraca novamente, mas isso iria mudar.
–SQ-
Chegou em seu quarto e deu graças pois Ruby não estava. Queria ficar sozinha. Como na Sine Timore ela não tinha permissão para contactar pessoas de fora, apenas sua família, Emma tinha levado seu próprio estoque de diversão particular. A melhor garrafa de Whisky envelhecido que o dinheiro poderia comprar.
A cada gole, ela pensava num motivo. A insegurança de Regina. O mundo girou uma vez. Seu amor impossível. O mundo girou pela segunda vez. Sua vida que estava voltando a ser o mesmo beco sem saída de antes. O mundo, então, escureceu.
–SQ-
–Emma!- A voz de Ruby era um sussurro distante. –Emma, pelo amor de Jesus Cristo, acorde.
O mundo estava girando ou era impressão?
Que gosto estranho era aquele na sua boca? Seria vômito?
–Emma, se você estiver viva, abra os olhos.
Com dificuldade, a loira o fez. A luz queimava seus olhos.
–Não fala nada, não se levanta, fica aí e eu vou te dar água.
Porque a Ruby está gritando? Ela não iria tenta se levantar de um jeito ou de outro, seria impossível, ela não tinha forças para isso. A amiga tinha voltado com o copo de água e um comprimido, que ela julgou ser aspirina.
–Emma, você bebeu uma garrafa inteira de whisky. – O tom de Ruby era preocupado. – Eu sei que você não está em condições de falar, então eu vou te dar um banho e te colocar de volta na cama, para nenhuma monitora perceber que você andou bêbedo, okay?
A resposta que Emma deu foi apenas um balançar de cabeça.
–SQ-
–Não, senhora Fiona. Ela está apenas com enxaqueca, não precisa entrar para verificar. – uma pausa e uma voz que Emma não pôde identificar. – Certo, eu irei para a aula e virei dar uma olhada nela no intervalo – Outra pausa e mais vozes. – Fique tranquila que eu pego as atividades e repasso para ela.
Depois disso, ela não ouviu mais nada.
–SQ-
– O amor é fogo que arde sem se ver. – A voz de Regina ecoou pela sala. – Alguém reconhece esse verso?
–É de uma música, professora. – Gritou uma voz do fundo da sala de primeiro ano que Regina dava aula.
–Certo, o autor da música extraiu esses versos de outra pessoa, alguém sabe o nome do autor original? – Antes que a pergunta pudesse ser respondida, Regina foi interrompida por uma pessoa na porta. Ruby nada disse, apenas entregou um bilhete para a professora e foi embora
“ Emma está mal, você tem alguma coisa a ver com isso?
Ela bebeu bastante, e gritou por Capitu a noite inteira.
Vá ver ela depois da aula!”
Droga. Emma! Que merda ela tinha feito dessa vez? Regina fez uma breve prece para que a aluna não estivesse em coma alcóolico. Como falar em Camões, como falar no lirismo, e não lembrar dela? Como afirmar que amor era uma dor que desatinava sem doer sem pensar na dor que infligira a sua aluna, e a si mesma, ao terminar algo que nem tinha tido a chance de começar? Elas poderiam não ter nada a mais, mas porque não uma amizade? Estava decidida, no final da aula, procuraria Emma.
"Busque Amor novas artes, novo engenho
Para matar-me, e novas esquivanças;
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Pois não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.
Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde;
Vem não sei como; e dói não sei porquê."
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