Entre o Céu e o Mar.
3 "Se é tão formosa a luz, por que não dura?"
Notas iniciais
Aquele sonho novamente invadia o sono de Regina. Uma noite chuvosa. Uma loira e uma morena brigando. Um caminhão desgovernado. Uma morte da qual ela não era culpada, porém se culparia pelo resto da vida.
O pior de tudo do sonho é que ele era mutável. Nem sempre ela estava no comando, nem sempre era Belle, sua ex-noiva, que estava no banco do carona. O dessa noite não havia sido muito diferente, tirando o fato de que a loira morta não era Belle. Era Emma.
–SQ-
– Bom dia, professora favorita. – Emma chegou sorridente e sentou na primeira fileira, seu lugar favorito, para assistir sua aula favorita, com sua professora favorita. Ela gostava de chegar sempre meia hora antes das aulas começarem pois 1) sabia que Regina estaria lá 2) amava discutir amenidades com a professora.
– Bom dia, aluna favorita. – Regina respondeu igualmente com um sorriso, e logo completou – só não deixe as outras saberem disso.
–Será nosso segredinho professora. – Emma disse e logo um silêncio se instaurou na sala, não um silêncio desconfortável, e sim um silêncio cheio de palavras, de uma professora que nutria uma paixão secreta pela aluna, e de uma aluna que descaradamente era apaixonada por uma professora.
–Ai, como eu sou ansiosa, eu vou falar logo... – A professora foi tirando uma prova de dentro do pacote. – Você foi a única a fechar a prova de Literatura, Emma! Parabéns. – Dito isso, abriu os braços para Emma, a convidando para um abraço.
–Ai, como eu não sou humilde, eu vou falar que já sabia, tá? – Emma pegou o papel e se aninhou nos braços calorosos da sua morena. Epa, dona Emma Swan, desde quando Regina Mills é sua? Afastou esse pensamento e continuou no calor dos braços da professora até o desconforto se fazer presente. Quantos segundos foram? Nenhuma das duas saberia falar, só sabiam que se separaram por pura convecção social, já que, se pudessem, ficariam naquele abraço para sempre.
–SQ-
O tempo, senhor de todas as coisas, passou. A amizade de Emma e Regina estava surpreendendo todos, a aluna rebelde e a professora insuportável, ambas que nunca se abriam para ninguém.
Aquele dia era um dia particularmente ruim para Regina, três anos se completariam desde que sua amada Belle havia morrido por negligência sua. Deu graças a todos os deuses que era sábado e ela não precisaria sair do conforto do seu quarto, do silêncio ensurdecedor do seu sofrimento.
Levantou de sua cama, tomou seu banho e foi assistir o filme que assistia sempre nessa data. No final da tarde visitaria o túmulo de Belle e, se tudo seguisse o protocolo dos dois anos anteriores, choraria pelo resto da noite até cair no sono.
Colocou “A Moça com Brinco de Pérola” e se sentou em frente à televisão. Poucos entendiam seu amor por aquele filme, afinal, poucos eram os que sabiam da sua história. O período Barroco* era seu favorito por tantos motivos, mas principalmente pela perecividade das coisas, pelo fato de nada ser eterno. E de nada ser eterno ela entendia muito bem
No filme, o que mais contrastava com a sua vida, era a obsessão do artista Johannes Vermeer pela sua musa inspiradora, o que resultou no belíssimo quadro de mesmo nome. Regina nunca soube quem, na sua história, era o artista e quem era a musa, ela só sabia que a história estava para se repetir de novo, e dessa vez não queria um final trágico, portanto, cortaria pela raiz antes que a árvore florecesse.
–SQ-
Emma acordou particularmente feliz naquele dia. Era seu aniversário! Teve a oportunidade de acordar tarde, tomar um banho caprichado e ficar descansando em sua cama na Sine Timore High. Graças aos deuses, ela não havia prova, simulado, tarefa pontuada, nada que pudesse tirar sua felicidade naquele dia. Só faltava uma coisa, ou melhor, uma pessoa, para seu dia ficar feliz.
Não sabia se a professora estaria nas dependências do colégio durante o final de semana, porém, não se resignou em não tentar. Colocou um short surrado, uma camiseta regata e sua jaqueta vermelha por cima, afinal, era final de inverno, e o frio ainda estava assolando.
Andava pelos corredores do Sine Timore, cheio de adolescentes com pensamentos vazios, e se perguntava se a história de cada uma delas era tão ruim quanto a sua. Provavelmente sim, jovens drogadas, alcoolatras, algumas já com filhos, outras, que já não tinham esperança. Era isso que Regina era para ela, uma esperança. Uma luz no fim do túnel. Regina tinha chegado onde ninguém conseguira chegar em Emma, Regina via o melhor que Emma tinha para oferecer, e não a julgava pelos seus erros anteriores, como todos faziam.
Chegou no bloco destinado aos professores e pegou o elevador até o andar daquela que ela queria encontrar. O bloco dos professores era um prédio, de 7 andares, que continha dois apartamentos por andar. Nem todos os professores escolhiam morar dentro do colégio, apenas aqueles que não tinham família e gostavam de desfrutar da comodidade que era morar ali.
Tocou no apartamento 702 e esperou Regina aparecer. A porta foi aberta e Emma ficou feliz com o que viu. Regina estava apenas de camisola, um vestidinho de seda que cobria pouco menos das coxas e um robe aberto por cima, após uma rápida conferida, a loira percebeu que a mais velha não usava nada por baixo. Afastou o pensamento pecaminoso e sorriu seu melhor sorriso, não sendo retribuída.
– Bom dia, Emma. – Regina disse com a voz abatida. – Desculpe pelo meu traje. – Forçou uma risada e fechou o robe, ao perceber que a aluna encarava. – Quer entrar?
– Bom dia. – Emma falou meio desconcertada. – Acho que não foi uma boa hora, volto depois.
–Não! – a professora a puxou pelo braço. – fica, eu tô mesmo precisando de uma companhia.
Emma, sem relutar, entrou e ficou observando o apartamento, que era muito bem decorado. Percebeu que Regina estava assistindo um de seus filmes favoritos e comentou.
–Eu amo esse filme.
–Eu também. – A voz de Regina era triste. – tem um significado importante para mim.
– Regina, eu não te conheço tem muito tempo, tem uns 3 meses, para ser exata, mas acho que sei quando você não está bem. E hoje é um dia desses. – A loira se aproximou da professora e, sem avisar, a abraçou.
Tomada pela surpresa, e emocionada pelo momento, Regina, pela primeira vez, chorou na frente de outra pessoa. Se permitiu ser abraçada por Emma, e Emma, respeitando o momento, apenas a abraçou. Apenas envolveu seus braços em volta daquele corpo fragilizado, em volta daquela mulher que ela, se pudesse, faria de tudo para proteger.
Desfez metade do abraço e caminhou com Regina até o sofá. Se sentaram.
–Quer me contar o que está acontecendo?
–Não é o que está acontecendo, Emma, é o que já aconteceu. – Regina disse entre soluços. – Eu matei o amor da minha vida. Eu fui egoísta, e agora ela está morta por minha causa.
– Regina, não sei o que aconteceu, mas duvido que você tenha sido culpada de alguma coisa. – Emma usou seu tom mais calmo e focou no “ela”. Regina gostava de mulheres, ponto para Emma. Esqueceu seu pensamento mesquinho e continuou falando. – Seja o que tiver acontecido, eu estarei do seu lado. Não te conheço a muito tempo, e não sei no que qualquer coisa pode dar, mas eu me importo demais com você para te ver assim.
Regina se virou de frente para Emma.
–Por favor, não se importe. – Enxugou uma lágrima e tirou os fios de cabelo teimosos que insistiam em cair no seu rosto. – Eu não mereço isso. Eu não mereço que alguém goste de mim, Emma. Essa cicatriz que eu tenho no lábio serve para me lembrar, todos os dias, de que eu fui a responsável pela morte de uma pessoa. Eu estava dirigindo, eu não vi o caminhão, eu não vi o caminhão... – Repetia, mais para si mesma do que para Emma. E, então, a aluna percebeu que as pessoas mais fortes por fora, eram as mais quebradas por dentro.
– Desculpa Regina, mas agora já é tarde demais para me dizer que não merece alguém. Eu já estou muito envolvida nessa história para conseguir esquecer e deixar para lá. – Emma, então, a puxou e a beijou ternamente nos lábios. Conseguia sentir o salgado das lágrimas de Regina, mas não se importou, pois, diferentemente do que imaginava, a professora não a repeliu. Ledo engano.
–Emma, não. – Regina a afastou. – Não quero que você me beije por eu estar nesse estado. Não quero que nosso primeiro seja assim.
–Eu acho que já foi. – Emma riu e colocou a mão em cima da cicatriz de Regina. – Eu acho ela linda, mesmo que tenha uma lembrança tão triste. Você é linda, mesmo que tenha uma lembrança tão triste.
A professora sorriu e aquelas palavras tiveram o efeito certo, pela primeira vez, em 3 anos, aquele dia teria, pelo menos uma lembrança boa.
–Olha, Emma. Eu não quero correr, eu não quero me precipitar. Por isso, quero só deitar e terminar meu filme. E quero que você fique aqui comigo, ok?
Elas compartilharam um olhar. Regina se deitou no sofá, e Emma deitou por trás, a abraçando. O filme recomeçou.
– Eu acho que eu te amo, Capitu.
–Eu acho que eu também, Ismália.
"O amor é finalmente um embaraço de pernas, uma união de barrigas, um breve tremor de artérias Uma confusão de bocas, uma batalha de veias, um reboliço de ancas, quem diz outra coisa é besta."
Fale com o autor