Entre o Céu e o Mar.
9 "Porque os corpos se entendem, mas as almas não."
Notas iniciais
POV EMMA
Eu estava feliz por estar de volta. Tinha me apegado às pessoas daquele lugar, pessoas como Ruby, uma das melhores amigas que eu já tinha tido, Killian, o professor gay de história que vivia tentando comprovar sua heterossexualidade e Zelena, a única pessoa que conseguia fazer matemática parecer levemente interessante.
Não queria admitir, mas eu sentia falta de Regina. Sentia falta das aulas dela e dos sorrisos furtivos que ela dava a mim quando percebia que só eu estava entendendo o assunto. Sentia falta dos poemas que ela declamava olhando para mim, sentia falta de ficar dez, quinze minutos depois que a aula acabava só conversando com ela sobre as coisas da vida.
A verdade era que eu não tinha deixado de amar ela e, sinceramente, duvido bastante que um dia eu deixe de amar. Era estranho me sentir daquele jeito, e olha que eu sempre fui muito intensa em relação aos meus sentimentos, sejam eles por qualquer pessoa que fossem.
Muitas vezes eu me repreendia por me pegar em Regina, até porque a Lily era uma ótima namorada e não merecia estar num relacionamento em que eu estava apenas pela metade. Na verdade, nem na metade eu estava. Lily era basicamente sozinha naquele relacionamento, nunca existiu amor, pelo menos não da minha parte. O sexo era ótimo, mas era tudo uma válvula de escape para esquecer Regina. Eu sempre tinha que me controlar para não gritar o nome errado, pois quando eu estava com ela, era em Regina que eu estava pensando.
Cheguei cedo no Sine Timore naquela segunda feira, havia convencido Lily a sair da clínica e ir comigo terminar os estudos. Passei por toda a burocracia de aceitação, entreguei exames, fiz uma nova entrevista e pude reaver o meu lugar naquele colégio. Apenas tive permissão para ir ao pavilhão de aulas no último horário, minha namorada preferiu ir descansar e esperar o almoço e eu quis ir logo ver a minha turma. Combinamos de nos encontrar no galpão do refeitório e nos despedimos com um beijo frio, sem graça.
Andei pelos corredores e, pela primeira vez, senti alívio por estar em um lugar. Eu pertencia a aquela escola, já era parte de mim. Cheguei na porta da minha antiga sala, na qual eu continuaria estudando, e espiei pelo visor. Era ela.
Regina usava uma calça jeans, uma blusa social azul bebê e o cabelo curto preso num coque, que deixava vários fios soltos pelo seu pescoço. Estava linda. Acho que meu coração parou por um segundo, mas ignorei.
Encostei minha cabeça junto à porta e fiquei ouvindo sua voz rouca. Tinha um tom de pesar em cada palavra proferida, porém não consegui identificar algum motivo. Meu coração se acendeu com a possibilidade de ser algo relacionado a mim, mas era utópico demais para ser verdade.
Ela falava sobre Alphonsus de Guimaraens, na moral, ela deveria estar querendo que eu entrasse naquela sala, não era possível. Ela perguntou quem queria ler um poema, e quando dei por mim já estava dentro da sala declamando. A expressão no seu rosto era impagável, parecia ter visto um fantasma. Me resignei a dar um sorriso de lado e torci para que a aula acabasse logo e eu fosse engolida pela multidão para não ter que falar com ela. Exatamente o que aconteceu.
– SQ –
Eu estava extremamente irritada. O tapa que Regina me deu não sairia da minha cabeça tão cedo, quem ela pensava que era? Primeiro chega na minha vida como quem não quer nada, faz com que eu me apaixone por ela e depois sai por aí me dando tapas? Que direito ela tinha de fazer aquilo?
Fiquei tão possessa que nem voltar no refeitório eu voltei, se Lily quisesse me ver, ela que fosse me procurar. Fui ao meu quarto, continuava no B614 com a Ruby e fiquei por lá repassando todos os assuntos que eu tinha perdido.
– Emma! – ouvi um grito e soube que era a minha amiga, que se jogou em cima de mim assim que eu me virei. – Você voltou! – Disse ela num abraço apertado – Pelo amor de Deus, nunca mais me dê um susto desses, eu quase morri, Emma.
– Eu também quase morri. – Ela riu com meu trocadilho, era bom estar de volta. – Mas agora eu estou bem, e é isso que importa.
– Eu já soube que você voltou e trouxe alguém junto... – o olhar de Ruby era completamente malicioso, pior melhor amiga do mundo. – Quero todos os detalhes.
– Ah, é só uma menina que eu conheci lá na casa de repouso. – Disse mais para mim do que para ela. – A gente está se conhecendo melhor.
– Conhecendo a mente melhor ou conhecendo a anatomia melhor?
Ruby ainda me mataria de vergonha um dia desses. A resposta dela veio em formato de tapa no braço, ela rapidamente levou a mão até o local, fingindo sentir uma dor maior do que a que ela realmente estava sentindo.
– Conhecendo tudo melhor. – Disse, me divertindo com as caras e bocas que minha amiga estava fazendo. – Um dia trago ela aqui pra vocês se conhecerem também.
– Não, obrigada. – Ela fez uma careta. – dispenso essa fruta.
Ficamos rindo e fofocando do que tinha acontecido a cada uma durante o mês que eu passei fora e, quando vimos, já era hora de ir ao refeitório jantar. Nem lembrava mais da existência de Lily, e também não estava a fim de mimimi numa hora daquelas. Estava sem fome, coloquei meu biquíni e fui dar um mergulho na piscina.
O bom de estudar em colégio caro era exatamente as regalias. Mesmo sendo um colégio quase militar, vários luxos estavam disponíveis para a gente, como piscina aquecida para podermos tomar banho durante a noite, ou até nos dias frios, o que quase ninguém fazia.
Cheguei na borda da piscina e coloquei o pé direito lá dentro, apenas para sentir a temperatura. Perfeita. Tirei meu roupão e mergulhei, molhando cabelo e tudo. Nadei um pouco e percebi uma presença fora da água, Lily. Ela tinha ido atrás de mim, log quando eu queria ficar sozinha.
– Posso entrar? – Ela perguntou, animada.
– A piscina é do colégio, não minha. – respondi friamente, se ela percebeu, pareceu não se importar, pois tirou a blusa e o short que estava vestindo e entrou de calcinha e sutiã.
Nadou até mim, que estava do lado oposto ao dela, e eu já sabia o que ela queria. Colocou suas mãos na minha cintura coberta pela água e eu nem tentei lutar, deixei que ela beijasse meu pescoço, porém, em momento algum, eu o inclinei para deixar o acesso livre.
Com uma mão na minha cintura, ela desceu a outra e puxou minha perna para ser enlaçada em seu quadril. Estava estática, apenas deixava ela trabalhar e me permitia tentar sentir alguma coisa. Parou de chupar meu pescoço e direcionou sua boca à minha, me beijando com paixão e recebendo um beijo sem graça de volta. Era impressionante que, bastou eu voltar, eu já não conseguia sentir nem cocegas quando estava com a Lily, e tudo isso em menos de um dia.
A mão da morena foi para a parte interna das minhas coxas e eu me controlei para não bocejar. Quando seus dedos subiram um pouco mais ela parou. Ouvi um pigarreio atrás de mim e logo baixei a minha perna. Quando me virei, lá estava ela, Regina. Seu olhar era de pouquíssimos amigos, parecia querer jogar bolas de fogo em nós duas, porém seu tom foi calmo e ela apenas se resignou a pedir que nós saíssemos da piscina, nos vestíssemos e acompanhássemo-la.
Diferentemente do que eu esperava, Regina não nos levou para a diretoria, porém deu uma bronca em nós duas.
– A sorte de vocês é que eu estou num bom dia hoje. – oi? Regina num bom dia? – E não estou a fim de me estressar levando vocês duas para a sala da Fiona. Senhorita... – Ela parou olhando para Lily esperando ela se apresentar.
– Flowers. – Lily se apressou em dizer.
– Bem, a senhorita está dispensada. Porém, eu gostaria de conversar com a senhorita Swan.
O quê? Eu e Regina sozinha por aquela área vazia? Não, não, não, eu preferia ser levada para a Fiona.
– Ok. – Lily fez menção de me beijar e Regina se pôs entre nós duas. Se eu não a conhecesse, diria que era ciúme.
– Vocês já tiveram beijos demais por essa noite. – Sua voz era raiva pura. – Boa noite, Senhorita Flowers, e me siga, por favor, Senhorita Swan.
Ela foi andando até o depósito, onde eram guardados os materiais de limpeza do colégio e eu a segui, de cabeça baixa, silenciosamente. Aconteceu tudo muito rápido, ela entrou no depósito, eu entrei também e, do nada, eu estava colada na parede com seus lábios a poucos centímetros dos meus.
– Você. É. Minha. – Ela disse com a respiração pesada. Naquele instante, eu sentia mais coisas do que tinha sentido com Lily durante o mês inteiro. – Eu não quero você perto daquela menina, nunca mais. – Sua testa estava colada a minha e eu ofegava. Queria que ela me beijasse logo, que droga. Então, finalmente, ela me beijou. Me beijou com força, raiva, ódio, ciúme, paixão, saudade e tudo que a gente tinha direito. Sua mão direita segurava meus cabelos com força e sua mão esquerda enlaçava minha cintura, puxando-me para ela. – Ela te deixa, assim, Emma? – parou de me beijar para me perguntar. Fiz que sim com a cabeça. – Ela te deixa assim, é? – Ela puxou meu cabelo, fazendo com que meu pescoço fosse para o lado, e deu uma mordida forte lá. Merda, iria deixar uma marca gigantesca. Me beijou de novo, enfiando sua língua quente em minha boca receptiva. Eu salivava na ânsia se senti-la em mim. – Responde, Emma. Diz, com suas palavras, que ela te faz ficar assim.
– Não. – Disse com a voz arrastada. Me mata de me fuder, Regina Mills. Minha boca não dizia, mas meu corpo implorava.
Rapidamente suas mãos desfizeram o nó do roupão que eu usava e encontraram minha pele. Ela não me deixou pensar, enfiou as mãos por dentro da parte de baixo do meu biquíni e deixou que dois dedos hábeis me penetrassem. Eu suspirei alto.
– Isso, pronta para mim. – Ela disse no meu ouvido enquanto fazia movimentos de vai e vem. Levantei uma perna para deixar o acesso dela mais fácil. O orgasmo veio quando, combinadamente, ela introduziu o terceiro dedo e, puxando mais uma vez meu cabelo, chupou forte o meu pescoço. Desfaleci em seus braços e teria caído no chão, se não fosse ela para me segurar.
Beijou o lugar, já arroxeado, da mordida e disse, calmamente:
– Espero que o recado esteja dado, Senhorita Swan. – Ela se afastou e, já na porta do depósito, disse com uma expressão de graça no rosto. – Não deixe Fiona ver essa marca no seu pescoço, ela vai te matar.
Quem vai me matar é você, Regina Mills. Cigana, oblíqua, dissimulada. Capitu.
“O AMOR, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...”
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